Teatro – educação: a criança como protagonista

“Educação não é a transmissão de uma soma de conhecimentos. Conhecimentos podem ser mortos e inertes: uma carga que se carrega sem saber sua utilidade e sem que ela dê alegria. Educar é ensinar a pensar, isso é, a brincar com os conhecimentos , da mesma forma como se brinca com uma peteca.” ( Rubem Alves )

O teatro é jogo! Para as crianças, em especial as de quatro a seis anos, ele é jogo dramático, é brinquedo! É faz de conta! Um jogo de experimentar e experienciar emoções, ações, objetos concretos ou imaginários. Para Peter Slade nessa brincadeira a criança poderá encontrar sua auto-expressão e assim procurar atingir o pleno desenvolvimento de sua personalidade. Nas palavras de Slade “O jogo é na verdade a vida”. E nessas tentativas emocionais proporcionadas pelo jogo dramático, as crianças se descobrem e nesse processo vão descobrindo o mundo. Para que a “brincadeira teatral infantil” aconteça é imprescindível que haja oportunidade, que as crianças sejam encorajadas por um adulto, como por exemplo, os professores. Porém, isso não significa interferir. De acordo com Slade o professor irá “nutrir” o jogo, guiá-lo, nunca comandá-lo. Para que o jogo aconteça com verdade é preciso criar uma atmosfera de confiança, amizade e empatia entre os participantes, professor e grupo. No “jogo dramático” são nítidos os momentos de caracterização e envolvimento emocional. O autor considera primordial definir diferenças entre o que chamamos de teatro e o “jogo dramático” produzido por nossas crianças, tal distinção torna-se mais evidente e importante quando nos referimos às crianças menores.

“Ao pensar em crianças, especialmente nas menores, uma distinção muito cuidadosa deve ser feita entre drama no sentido amplo e teatro como é entendido pelos adultos. Teatro significa uma ocasião de entretenimento ordenada e uma experiência emocional compartilhada, há atores e público, diferenciados. Mas a criança, enquanto ainda ilibada, não sente tal diferenciação, particularmente nos primeiros anos – cada pessoa é tanto ator como auditório”. (Slade Peter[tradução de Tatiana Belink] O Jogo Dramático infantil – 8º edição-editora Summus, 1978) (f1) (f2) Crianças no jogo dramático, brincando de amigas que irão ao shopping, decidindo o que vestir. (f1), Escolhendo o que comprar já no shopping(f2)

Tudo é ação! Todos fazem, criam, buscam, são personagens e plateia ao mesmo tempo. Nesse fazer do jogo dramático, a criança vivencia experiências físicas e emocionais, individualmente e no grupo. Alunas em jogo dramático, brincando de irmãs, combinando se irão a praia ou ao shopping.

Slade destaca que em alguns momentos no jogo dramático, esboça-se o que poderíamos chamar de teatro, contudo, para ele é notório o Drama, no sentido original da palavra, que vem do grego drao “eu faço eu luto”. No “jogo dramático” o fazer e o lutar são tentados por todos, em uma grande e divertida aventura, onde todos são “fazedores”, onde “ator” e “plateia” se entregam e vivenciam a ação espalhando-se por todos os lados, sem distinção de funções, envolvendo a todos. Nessa experiência o professor é “um aliado amoroso”. Crianças em jogo dividiram-se em pequenos círculos neles decidiram o tema do seu jogo e no mesmo circulo iniciaram a brincadeira.

Absorção e sinceridade A absorção e a sinceridade, de acordo com Slade, são duas qualidades muito importantes, pois, uma criança absorta estará totalmente envolvida no que o grupo faz e no que ela está fazendo, excluindo outros pensamentos, como percepção ou desejo de plateia. A sinceridade para o autor é uma forma completa de honestidade, onde a criança, ao representar um papel, traz consigo um intenso sentimento de realidade e experiência. Esse estado de sinceridade será alcançado no processo de atuar e representar com absorção. Jogo pessoal e projetado As qualidades, absorção e sinceridade, são distintas, Peter Slade nos apresenta onde e como cada uma se manifesta no Jogo Pessoal e Projetado. O Jogo pessoal é uma forma de drama onde a criança desenvolve sinceridade, pois emprega fé no papel que se propõe representar. Observa-se movimento, barulho, esforço e caracterização, em alguns casos pode ocorrer a ausência de barulho, sendo assim, haverá o esforço. Nesse “Drama Pessoal” observa-se o deslocamento dos participantes pelo espaço, todo o corpo é envolvido e usado para a realização do jogo. Outra característica é tomada de responsabilidade para representação de um papel, experimentação de ser coisas ou pessoas. Conforme o controle motor é conseguido o jogo pessoal torna-se mais evidente e frequente isso ocorre por volta dos cinco anos. O jogo projetado também é uma forma de drama, porém com características que o difere do jogo pessoal. O corpo não é usado por completo, não há um grande envolvimento físico. As mãos são usadas, têm-se os “tesouros”, como Peter Slade denomina os mais variados objetos, como carrinhos, bonecas e outros. Esses objetos ganham vida e atuam. Na maioria dos casos será notório o uso da voz com muito ou pouco volume. Nesse drama a criança brinca parada, pois a principal ação tem lugar fora do corpo, onde ocorre forte projeção mental, caracterizando também total absorção. Nas palavras de Slade “O jogo projetado é o principal responsável pela crescente qualidade de absorção”. Esse jogo pode ser evidenciado, com maior freqüência, nas crianças menores, pois se encontram em estágios onde ainda não estão prontas para usar seu corpo por completo.

“Esses dois precoces tipos de jogo exercem uma influencia importante na construção do Homem, em todo o seu comportamento e na sua capacidade de se adaptar à sociedade. A oportunidade de jogar, portanto, significa ganho e desenvolvimento. A falta de jogo pode significar uma parte de si mesmo permanentemente perdida.” (Slade Peter[tradução de Tatiana Belink] O Jogo Dramático infantil – página 20 – 8º edição-editora Summus, 1978)

Para Slade todas as crianças são artistas criativos, elas se apropriam das suas experiências de vida para seu enriquecimento, experimentação e prova. O autor chama atenção para a importância de evitar palco e peças escritas, pois a realização de peças pode estimular o exibicionismo e tirar a sinceridade do “jogo dramático infantil”, estaremos assim, podando a criança, que passará a imitar, copiar meramente o que chamamos de teatro. Levá-las ao palco com peças escritas destruirá seu genuíno “teatro” que é o jogo dramático. Ao escolher o que trabalhar em teatro na educação infantil, com crianças de quatro a seis anos, não houve dúvidas sobre a importância do “jogo dramático infantil” por todos os motivos aqui expostos. Na pré-escola nossas crianças ainda necessitam de muita ajuda e ”sugestões imaginativas” é papel do professor estimular a criação mediando e nunca impondo, sugerindo e não interferindo de modo a inibir ou desconstruir o jogo proposto pelos alunos, esses princípios devem nortear a pratica do professor ao trabalhar com o “jogo dramático infantil”. Há de se ter atenção para não ditarmos comportamentos.


Márcia Lisboa – Arte-educadora, Psicopedagoga, Escritora, Palestrante, cantora e compositora. Bacharel em Artes Cênicas. Licenciada em Educação Artística. Especialista em projetos de leitura e linguagens. Marcia já se apresentou em projetos culturais e ministrou workshops na Finlândia por três anos consecutivos. Autora dos livros: Jogos para uma aprendizagem significativa, Para contar histórias: teoria e prática ambos para educadores e o infanto-juvenil O livro Mágico. Todos publicados pela WAK Editora. Autora de “Cantando e Contando Histórias de Além Mar” Audiobook concebido para a Ação Educativa da Marinha do Brasil. Tema da Palestra referente a esse artigo “O JOGO DRAMÁTICO NA EDUCAÇÃO INFANTIL: A CRIANÇA COMO PROTAGONISTA. ”

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