Ressignificando as comemorações do “Dia do Índio”

Ao longo do século XX ainda há uma grande lacuna na história do Brasil em relação ao estudo dos povos indígenas. Os livros didáticos, em geral, não contemplam o tema com a devida importância, as comemorações oficiais são caricaturadas e os problemas que tais grupos vivenciam atualmente são amplamente ignorados por grande parte da população e autoridades. Desde a Educação Infantil até o 9º ano do Ensino Fundamental, por exemplo, os alunos estudam bem pouco da real cultura dos povos nativos brasileiros, da grande diversidade das etnias…, enfim, pouco se analisa sobre esses povos.

Como historiador e professor de História sempre observo, ao chegar o dia 19 de Abril (Dia do Índio), as crianças saindo das escolas com adereços ou pinturas que, ou correspondem a uma única etnia brasileira ou nem isso: faz referência aos povos da América Central ou do Norte. Assim essa “homenagem” fica descaracterizada e sem o real sentido: mostrar a grande importância de populações que foram as primeiras a habitar nossas terras atuais.

As Universidades, nas últimas décadas, estão adentrando cada vez mais em estudos sobre essa temática, porém os cursos de Formação de Professores ainda são muito superficiais e defasados. O currículo em si precisa ser mais bem definido nessa questão. Em março de 2008 foi sancionada a Lei 11.465/08, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena” e, com isso, enfatizar a contribuição de todos esses grupos – nas áreas social, econômica e política – para a formação da população brasileira. Mesmo com a lei em vigor, pouco ainda é trabalhado em nossas salas de aula sobre os nativos do Brasil.

A partir dessa angústia que possuo pensei algumas estratégias visando ampliar a prática docente em relação as ações pedagógicas para o dia do Índio. Essa proposta busca elucidar essa problemática: “ressignificar o Dia do Índio”.

O objetivo não é criar uma “receita de bolo”, mas levar professores e gestores a uma melhor reflexão e também fomentar outras ações visando trabalhar aspectos de povos do Brasil e até mesmo de possíveis etnias que habitavam ou habitam sua região e que, talvez, os próprios moradores desconheçam.

Objetivos Principais

– Problematizar o termo “Índio” como nomenclatura dada por elementos externos (europeus) e que tal termo não é a melhor forma de se referir às diversas etnias brasileiras.
– Refletir sobre algumas sociedades indígenas do Brasil, associando o passado no presente;

– Elaborar materiais sobre esses povos selecionados a fim de modificar o olhar do “índio engessado”, “índio fóssil”, “caricaturado”;

– Ressignificar o ensino “Dia do Índio” de 19 de abril para a escola, com o entendimento da grande diversidade cultural e que melhor seria chamar de “Dia dos povos nativos do Brasil”;
– Utilizar Livros Didáticos para ilustrar o descaso com os povos nativos que são colocados como um mero retrovisor (apêndice, anexo) do contexto tradicional, clássico do currículo atual;
– Desconstruir a generalização da imagem dos nativos como “sósias” do nativo dos Estados Unidos massificada em filmes, novelas, músicas e desenhos animados no Brasil há décadas;

– Mostrar também aspectos culturais de etnias afro-indígenas como, por exemplo, os Pankararu, que são pouco conhecidas no país.

– Relativizar o termo “Tribo”, pois nem todas as nossas comunidades estão dentro dessa categoria e tem organizações sociais também diferenciadas.

– Entender o significado, objetivos, questões sobre a FUNAI e as atuais questões enfrentadas pelos povos nativos após Constituição de 1988 (demarcação de terras, representação política, direitos não respeitados, pobreza, alcoolismo, doenças, intolerância religiosa, conflitos…);

– Trabalhar em grupos, cativar a cooperação, a criatividade, a narrativa e a oralidade entre os estudantes e inserir o lúdico como ferramenta na prática docente no ensino de História;

OBSERVAÇÃO: Essas questões podem e devem ser vistas ao longo do ano letivo e, não somente durante o dia ou a semana do “dia do Índio”, ok? Tais ideias podem ser associadas a temas transversais, em diversas disciplinas além da História.

Recursos

– Recortes de Jornais/Revistas

– Pesquisa em Enciclopédias/Livros Didáticos/Sites que ilustrem os povos nativos no passado e atualidade;

– Vídeos no site Youtube sobre o tema:

– Dispositivos móveis dos alunos e outros recursos tecnológicos;

– Papéis, cartolinas, canetas hidrográficas, lápis de cor e de cera, EVA, tintas naturais ou guache, canetas e imagens relacionadas ao tema, penas de petecas, tinta guache, isopor, papelão, barbante e outros materiais visando a confecção de materiais para apresentação do tema pelos estudantes.

Ações

– O professor leva um mapa ou lista contendo as etnias brasileiras (há alguns bem completos na Internet (https://indigenas.ibge.gov.br/mapas-indigenas-2) e estimula os estudantes a escolherem 1 etnia para pesquisa. Assim um grupo de alunos trabalhará uma comunidade nativa. Com uma turma de 40 alunos e dividindo em grupos de 5 membros, já seriam 8 etnias escolhidas.

– Temas como: Vestuário, Artesanato, Nome Indígenas de Cidades Brasileiras, palavras nativas de nosso uso diário, Alimentação, Remédios, nomes indígenas em ruas de seu bairro, acessórios típicos, costumes, brincadeiras, tipos de instrumentos musicais, suas casas, a rotina, o que estudavam… Enfim… São muitos os temas que podem ser usados.

OBSERVAÇÃO: Há bons livros/sites que trazem bom conteúdo sobre os aspectos acima. Faça uma busca rápida pela Internet e selecione aqueles que mais te ajudarem.

– O professor pode trazer exemplos de textos ou dar dicas onde pesquisar, pode ajudá-los a achar materiais caso aja recursos de informática na escola ou se todos possuírem dispositivos móveis com acesso a Rede… É dado um prazo e, ao final, podem criar, confeccionar acessórios, roupas, cartazes, panfletos, maquetes, apresentar algo da cultura da etnia pesquisada…. São muitas as possibilidades!!

– Reflexão sobre o termo “índio”. Passe esse vídeo, por exemplo:

– abordar os problemas atuais que eles enfrentam: Alcoolismo, Infanticídio, intolerância religiosa, mortalidade infantil, ataque as terras demarcadas, violência, desemprego, falta de representação política, desrespeito e generalidade de suas culturas…

– realizar uma amostra com itens feitos pelos estudantes de cada etnia estudada…

– caso haja a possibilidade, convide representantes de etnias indígenas de sua cidade para palestrar ou participar de ações em sua escola.

– trabalhar frases como: “TER CELULAR OU USAR ROUPAS FAZ A PESSOA DEIXAR DE SER NATIVO?” (Reflexão: Comer no Mcdonalds me faz ser menos brasileiro? Gostar de ver filmes estrangeiros? Vestir marcar ou usar eletrônicos importados?? Bem… Isso não faz as pessoas deixarem de ser quem são. Também os descendentes nativos podem e devem fazer uso de todas as tecnologias, confortos e não deixam de serem quem são por isso.); “O ÍNDIO FOI ACULTURADO PELO EUROPEU?” (Reflexão: Aculturado, não! Ninguém perde a sua cultura. Se vc se muda do Brasil para a França, você não esquece toda a cultura brasileira por ter acesso a cultura francesa. Houve, sim, uma ENCULTURAÇÃO, ou seja, tanto nativos quanto europeus sofreram mudanças com esse contato. Um aprendeu e sofreu modificações com tais contatos. “Metamorfoses Indígenas!” (Procure artigos do livro Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro). Outras reflexões podem ser feitas.

Tais propostas e ações que estão descritas são algumas possibilidades para levar mais e mais pessoas a terem informações amplas sobre as comunidades nativas. É preciso buscar outras abordagens sobre esse tema, adequando o mesmo à realidade da sua turma. Utilize o lúdico, a criatividade e tenha certeza que o retorno será maravilhoso! Desde já deixo meus parabéns a todos que buscam um ensino de qualidade e dinâmico em nosso país! Contem sempre com meu apoio e parceria!


Juberto Santos é formado em História pela UFRJ, concluindo especialização em ensino de História pela FE/UFRJ. Atuando em escolas e em pesquisas na área de História. É professor da rede municipal do Rio de Janeiro/11ªCRE, Santa Mônica Centro Educacional e curso Degrau Cultural.  Realiza consultoria na área de concursos públicos com palestras de Motivação e organização de estudos, para mercado de trabalho, melhoria de rendimento escolar para pais, alunos e professores. Também faz palestras em escolas para formação continuada de professores na área de História. É criador do projeto itinerante PlayEduca que usa Playmobil para lecionar História e outros temas curriculares.

Contatos: Telefone: (21) 99738-2216 // E-mail: historiador_ufrj@yahoo.com.br

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