Projetos educacionais psicopedagógicos e os princípios linguísticos no processo de alfabetização.

A fala, a leitura e a escrita como sabemos, refere-se a uma habilidade complexa. O módulo fonológico é o único, no genoma humano, que não se desenvolve por instinto. Logo, falar, ler e escrever são aquisições obtidas por meio da aprendizagem, uma vez que as habilidades lingüísticas são cultural e historicamente construídas pelo homo sapiens.

Piaget nos instruiu que a aprendizagem é um processo ativo de elaboração mental no qual o sujeito, ao lidar com o objeto do conhecimento, vai progressivamente criando hipóteses, testando-as, surpreendendo-se com os resultados e buscando novas alternativas para resolver os conflitos cognitivos que possam surgir ao longo da sua trajetória. A conseqüência disso é a aproximação cada vez mais precisa com o conhecimento no seu formato convencional. Nessa dinâmica de aquisição do conhecimento, é imprescindível respeitar o ritmo de aprendizagem de cada sujeito e a sua possibilidade de assimilação em cada momento. O desafio está em poder enfrentar a diversidade e a complexidade do processo de aprendizagem. Na prática, isso significa criar alternativas para oferecer um ambiente propício aos interesses e necessidades do sujeito para que ocorra a aprendizagem.

No que se refere à criança, deve-se viabilizar a expansão gradativa de suas possibilidades de comunicação e expressão, fazendo com que a mesma se interesse por conhecer vários gêneros orais e escritos, cabe ainda proporcionar a participação do indivíduo em diferentes situações de intercâmbio social além de fazer com que se familiarize com a escrita por meio do manuseio de livros, revistas e outros portadores de texto. Piaget (cit. Por Matta, 2001) refere que a criança é ativa na construção do seu conhecimento e que a progressão deste dá-se através de conflitos cognitivos. Ou seja, a criança diante de um objeto que desconhece (conflito cognitivo) vai atuar sobre o mesmo e realiza uma acomodação para assimilá-lo. Existem determinados momentos evolutivos em que esta acomodação se realiza com sucesso. Quando o sujeito percebe que portadores de textos estão atrelados a assuntos do seu cotidiano, seu interesse é estimulado, pois percebe que a língua escrita tem significado na sua realidade imediata. De acordo com Carvalho,

Aprender a ler como se a leitura fosse um ato mecânico, separado da compreensão, é um desastre que acontece todos os dias. Estudar palavras soltas, sílabas isoladas, ler textos idiotas e repetir sem fim exercícios de cópia, resulta em desinteresse e rejeição em relação à escrita.” (2002).

O processo de aprendizagem da língua escrita, não se estabelece numa trajetória linear e previsível que as crianças fatalmente irão passar. Vygotsky considera que existe um momento crítico na passagem dos simples rabiscos para o uso das grafias como sinais que representam ou significam algo. A criança passa a atribuir um significado ao desenho, porém ainda o encara como um objeto em si e não como uma representação, um símbolo. O segredo do ensino da linguagem escrita é preparar e organizar adequadamente essa transição natural, pois quando ela é atingida, a criança passa a dominar o princípio da linguagem escrita, restando, então, aprimorar esse método.

Algumas atividades com os portadores de texto na instituição escolar dirigem a atenção da turma para aspectos formais da escrita, ao mesmo tempo em que ampliam as noções dos alunos sobre os múltiplos usos da leitura. Alguns aspectos formais deverão ser analisados nesses objetos, tais como a escrita dos textos (são escritos à mão ou impressos?); que tipo de letras aparece; os textos são, ou não, representados com figuras, fotos, ilustrações (reconhecer o que é figura e o que é escrita); Os textos contêm letras e números, ou apenas letras?

Outro aspecto importante a ser trabalhado é a distinção entre letras e números. Algumas crianças tendem a confundir os mesmos, utilizando algarismos, na escrita das palavras, como se fossem letras. Para ajudar aos alunos a superar esta dificuldade natural no processo de alfabetização, deve-se propor um projeto, visando trabalhar as diferenças entre números e letras em diferentes contextos.

Não raras, são ás vezes em que deparamo-nos com crianças que confundem as letras com os números ao tentar escrever alguma palavra.

A realização de atividades e jogos envolvendo os nomes das crianças a fim de proporcioná-las não apenas o reconhecimento entre vogais e consoantes e sim a distinção entre letras e números é algo a ser considerado num projeto psicopedagógico institucional, em que se propicia um melhor contato inicial entre o mundo alfabético.Conforme a afirmação de Vygotsky, “Que a aprendizagem seja uma descoberta durante as situações de brinquedo e que aprendam a ler e a escrever da mesma maneira que aprenderam a falar.” (1998, p.157).

Uma boa forma de se iniciar este processo é a partir do próprio nome da criança. Segundo Carvalho (2002), trabalhar com o nome dos alunos é muito importante porque toda criança atribui estima especial ao próprio nome e se interessa por aprendê-lo e aqueles que já sabem “desenhar” a assinatura descobrem coisas novas observando a escrita dos nomes dos colegas.

O ideal é que o psicopedagogo desenvolva um projeto pedagógico que trabalhe a escrita do nome como suporte para a alfabetização, que envolva atividades lúdicas, de escrita e leitura, bem organizadas e esquematizadas para que as crianças possam dar início a algumas comparações como:

  • Há nomes com poucas e com muitas letras;
  • Existem nomes que começam ou que acabam com a mesma letra;
  • Os nomes mais extensos nem sempre são aqueles das pessoas mais altas;
  • O tamanho das pessoas não tem relação com o tamanho de seu nome;

Os nomes dos alunos envolvidos nesse processo de aprendizagem podem ser classificados em vários grupos ou conjuntos: nomes que iniciem com a mesma letra, nomes que terminem com a mesma letra, nomes iguais, nomes que contém o mesmo número de letras, etc.

Diante dessas atividades a curiosidade é despertada pelos alunos, não apenas em relação ao seu nome, mas também pelos nomes dos colegas. É uma atividade muito divertida em que todos os alunos se envolvem com entusiasmo. No decorrer do projeto, desenvolvem-se diversas atividades com o objetivo de ampliar a construção da identidade e a escrita dos nomes.

Considerações Finais:

Essas atividades motivam muito as crianças. Além de prazerosa, a aprendizagem quanto ao conhecimento do alfabeto e o reconhecimento dos nomes (individuais e dos colegas) é muito prazerosa. Além de serem fundamentais no processo de desenvolvimento da construção da identidade, da identificação da diferença entre vogais e consoantes, da identificação da escrita do próprio nome, da identificação e a formação do nome mentalmente e da distinção entre letras e números.

Provavelmente, os objetivos referentes à linguagem são alcançados significativamente com o exercício desses jogos e colaboram de modo satisfatório no processo de alfabetização. Para isso, é indiscutível a necessidade de compreender o funcionamento do sistema da escrita (a representação da linguagem, a natureza fonológica da escrita, as regras e convenções) para poder cultivar e exercer as práticas do letramento.

Diante disso, concluo com a citação de Carvalho, ressaltando que permitir que os alunos brinquem mais, vivenciem mais jogos de faz-de-conta e fantasiem, é extremamente importante para que desenvolvam a capacidade de simbolizar e com isso, aprender com prazer e significância.

O ensino das relações letras-sons é importante, mas não deve ser seguido com tamanha rigidez ao ponto que o ensino fique excessivamente centrado na decodificação e codificação, perdendo de vista o objetivo maior da alfabetização que é “compreender o que foi lido, tirar proveito da leitura, seja em termos de informação ou de prazer (ou ainda de ambos)”. (Carvalho, 2005).

Referências

  • CARVALHO, Marlene. Guia prático do alfabetizador. São Paulo, SP: Ática, 2002
  • ___________, Alfabetizar e letrar: um diálogo entre a teoria e a prática. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005
  • PIAGET, J. (1967). A Psicologia da Inteligência. Lisboa: Fundo de Cultura.
  • SOARES, M. Letramento – um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998
  • VYGOTSKY, Lev Semenovitch. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1998
  • VYGOTSKY, Lev Semenovitch. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes,

Marjorie Calumby Gomes de Almeida.
Psicopedagoga clínica e institucional.
Porto Alegre –  RS.

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