Projeto: por um planeta sadio eu mudo o mundo

Da escola parte o alerta sobre os prejuízos causados pelo uso de sacolas plásticas e a comunidade muda seus hábitos, pelo bem do planeta.

Moramos em uma cidade pequena – Piranga – na Zona da Mata mineira, e somos professoras há mais de vinte anos. O projeto sobre Meio Ambiente / Sustentabilidade – diga não às sacolas plásticas foi realizado com os alunos do 4° ano de escolaridade, da Escola Estadual Coronel Amantino Maciel, localizada na zona urbana da cidade. Acreditamos que sua publicação possa ajudar escolas, professores e alunos em sua busca por um mundo melhor.

Hoje, falar sobre questão ambiental parece moda, o assunto do momento. Mas quando lemos ou ouvimos reportagens sobre desastres ambientais, percebemos que a questão é muito mais séria. Assistindo a programas educativos sobre a preservação ambiental, percebemos que é preciso ter essa consciência – proteger o planeta em que vivemos tornou-se questão de sobrevivência.

São inúmeras as catástrofes a que assistimos nos noticiários da TV: enchentes, secas, furacões, aumento da temperatura da Terra, efeito estufa, entre outros. Chegamos a ficar aterrorizados: o mundo vai acabar? Mas não é isso que queremos passar para nossos alunos. Preferimos mostrar-lhes que nosso planeta tem cura, depende de cada um de nós, das nossas pequenas ações. E a partir de um grande sentimento de amor, juntamente com eles, resolvemos elaborar um projeto.

No momento em que decidimos trabalhar algo concreto, mergulhamos com toda nossa competência nesse tema. Inicialmente, trabalhamos o livro da Ana Maria Machado, Bisa Bia, Bisa Bel, da Editora Moderna. O texto nos mostra uma criança que interage com sua bisavó (imaginária), querendo conhecer como eram as coisas antigamente. Este trabalho nos ajudou muito, pois, há alguns anos, as pessoas não poluíam tanto a natureza. No tempo da Bisa Bia, usavam-se sacolas retornáveis nas compras em mercados. Não precisávamos retirar tanta matéria-prima da natureza como hoje, causando a desestruturação do planeta.

Partindo de textos informativos de jornais sobre o uso indiscriminado das sacolas plásticas no comércio e a poluição causada por elas, decidimos qual seria nosso foco. Definimos que o projeto envolveria não só a escola, mas toda a comunidade local trabalhando pela conscientização de todos.

Foram propostas em sala de aula ações diversificadas, envolvendo várias áreas, a partir de estudos e pesquisas que levaram a muitas descobertas. Todas as atividades desenvolvidas foram planejadas com antecedência e de acordo com o nível de conhecimento dos alunos. Eles foram convidados a uma reflexão maior sobre a proteção ao meio ambiente, o uso exagerado das sacolas plásticas e a poluição causada por elas. O trabalho foi feito com a participação dos alunos e orientado por nós, contando sempre com a presença dos pais, num processo interativo entre família e escola.

Nossos objetivos foram alcançados: envolvimento dos alunos, alegria em aprender, participação da comunidade e, principalmente, comprometimento com a preservação do meio ambiente. Durante o projeto, notamos um sentimento de cidadania, a percepção de direitos e deveres, a consciência da importância de cada um como cidadão participativo, construtores de um mundo melhor.

Uma reportagem levada para a sala de aula, retirada do jornal Estado de Minas, mostrou cidades que estão incentivando o uso de sacolas retornáveis. Descobrimos que, em vários países principalmente da Europa, o uso de sacolas plásticas já é proibido. A partir daí, decidimos conhecer mais sobre este tema tão interessante e de grande repercussão quanto à preservação ambiental. Várias questões foram levantadas. De onde vem o plástico? Quantos anos ele demora para se decompor na natureza? Como substituir a sacola plástica tão usada no comércio? Como conscientizar toda uma comunidade sobre preservação ambiental?

O primeiro passo foi trabalhar com os alunos para que eles próprios percebessem a importância da preservação ambiental em nossa vida: conhecer e valorizar os recursos naturais renováveis e não renováveis; despertar o senso de cidadania; incentivar o hábito da pesquisa informativa; valorizar e resgatar a memória cultural/ambiental dos alunos e de suas famílias; conhecer o prejuízo causado pelo excesso das sacolas plásticas e incentivar o uso das ecológicas retornáveis.

CURIOSIDADES
  •  Sacolas de plástico podem permanecer até mil anos no meio ambiente.
  •  Com o petróleo necessário para fabricar uma sacola, um carro poderia percorrer 115 metros.
  •  Plásticos matam, a cada ano, cerca de 1 milhão de aves marinhas e 100 mil mamíferos.
  •  Muitos países, como a Austrália, proíbem o uso de sacolas plásticas nas lojas. Outros, como a Irlanda e a Dinamarca, cobram imposto pelo seu uso, para reduzir o consumo.
  •  Estima-se que uma família brasileira utiliza, em média 66 sacolas por mês.
  •  Sacolas plásticas são responsáveis por entupir encanamentos, bueiros, bocas de lobo, causando transbordamentos pluviais e aumentando o risco de enchentes.
NA PRÁTICA

Várias atividades foram desenvolvidas com os alunos, dentro e fora da sala de aula:

  • Trabalhos com textos informativos variados, retirados de jornais, revistas, internet, livros didáticos;
  • visita à Usina de Compostagem e Triagem de Piranga;
  • visita a uma fazenda de criação de porcos, para conhecer o biodigestor;
  • entrevista com os pais, sobre as sacolas plásticas recebidas no comércio: quantas eles utilizam por semana, aproximadamente, e o que fazem com elas depois das compras;
  • entrevista com os comerciantes sobre o número aproximado de sacolas plásticas consumidas por mês;
  • confecção de gráficos e relatórios com o resultado das entrevistas;
  • confecção de cartazes alertando quanto ao uso de sacolas plásticas;
  • apresentação de programas na Rádio Difusora de Piranga, explicando à comunidade a campanha feita pelos alunos;
  • confecção de camisas com o lema: “Seja amante da natureza! Use sacola retornável”.

O dia D constituiu a culminância do projeto: os alunos saíram às ruas da cidade distribuindo panfletos explicativos; fizeram palestras para os comerciantes, instruindo-os sobre os malefícios causados pelas sacolas plásticas jogadas na natureza; como fazer para evitar seu uso indiscriminado incentivando o uso de sacolas retornáveis. As famílias e os vizinhos foram convidados para aderir à campanha, ajudando os alunos num trabalho mais efetivo.

A visita à Usina de Compostagem e Triagem ajudou-nos a ver de perto quanto lixo produzimos diariamente. Como não temos coleta seletiva em nossa cidade, o trabalho dos funcionários é árduo. Tudo isso mostrou concretamente, que algo tem de ser mudado, a começar por cada um de nós.

A visita à Fazenda do Sertão, onde se criam porcos, mostrou aos alunos que é possível utilizar o meio em que vivemos sem agredi-lo tanto. O homem pode e deve interagir com a natureza. Nesta visita, os alunos perceberam o que é sustentabilidade, pois, conheceram lá o biodigestor, no qual são aproveitadas as fezes dos porcos para transformá-las em energia, que é utilizada dentro da propriedade. Viram também como a água utilizada retorna limpa para o rio.

Após o desenrolar do projeto, foi feita uma exposição na escola, comemorando seu aniversário, na semana da Feira Cultural, com o tema Meio Ambiente, envolvendo a comunidade. Neste dia, os alunos usaram camisas confeccionadas especialmente para a ocasião e distribuíram adesivos, com o lema da campanha. A exposição mostrou sacolas antigas (do tempo da vovó) e outras que os alunos trouxeram confeccionadas com material reaproveitado, como retalhos, palha, tecido de sombrinhas já sem uso, fuxico, muitas bordadas pelos próprios alunos, como fez a menina do livro de Ana Maria Machado, a Isabel. Foi mostrado também o reaproveitamento do que chamaríamos de lixo – trabalhos de arte com garrafas PET, latinhas, CDs velhos, embalagens plásticas, cabaças, retalhos.

Os alunos conseguiram parcerias com uma firma de design que doou os adesivos. Esta mesma firma deixou de comprar uma máquina de sacolas plásticas ao ouvir o programa dos alunos na Rádio Difusora de Piranga.

A colaboração dos pais, que acompanharam e incentivaram o trabalho, foi da maior importância. (Ver Mural da teoria.) Muitos confeccionaram, com seus filhos, sacolas feitas de tecido das sombrinhas que não eram mais usadas. E a moda pegou. Todos os visitantes da feira acharam-nas lindas e práticas. Apresentamos também uma moradora da zona rural que confecciona bolsas de palha e muitos já fizeram sua encomenda.

PARCERIA ENTRE ESCOLA E PAIS

Um dos grandes desafios da escola, nos dias de hoje, é estabelecer uma parceria com as famílias. Esta parceria beneficiará cada vez mais os alunos, à medida que pais e professores estiverem em sintonia, falando a mesma linguagem, focados na educação de seus filhos/alunos, na sua experiência de vida. A qualidade do relacionamento entre pais, filhos e escola é mais importante que a quantidade de tempo que passam juntos. O encontro entre essas duas instituições é, portanto, fundamental para a ampliação de ideias, na participação no processo de crescimento das crianças e jovens.

Quando uma família escolhe uma escola, espera uma educação de qualidade. Ela quer uma escola transparente, que esteja sempre aberta para recebê-la e ouvi-la, porque, à medida que seus filhos crescem, crescem junto com eles a quantidade e a complexidade de questões. Como não existe um guia ou manual de como educá-los, na tentativa de acertar e manter o controle da educação, muitas vezes, é normal que os pais se sintam sozinhos e encontrem dificuldades por não ter com quem dividir essas indecisões. Ajudar a resolver essas questões também é papel da escola. Lá, os pais vão encontrar crianças e jovens como seus filhos e conhecer outros pais, formando uma rede de conhecimentos. Depoimentos e experiências de outras famílias são importantes referências para que os pais encontrem seus próprios caminhos na relação com seus filhos.

Os pais que têm a preocupação e o ideal de preparar seu filho para a sociedade buscam na escola o apoio aos seus anseios e esta precisa manter-se atualizada e preparada para apoiá-los nesses momentos. Pais não devem representar ameaça para o professor. Quando são informados da proposta pedagógica da escola e convidados a fazer parte de projetos educacionais, eles são grandes parceiros, que só irão somar forças para a realização de um trabalho forte e consistente da instituição que escolheu para seu filho. Entretanto, a participação das famílias exige múltiplos ajustes por parte da escola. Os professores devem possuir sensibilidade para ouvir os pais e ter o hábito de questionar suas certezas, devem ser conscientes, estar disponíveis, ter um conhecimento continuamente atualizado sobre seus alunos e possuir habilidades para falar, ouvir e aprender com os pais.

Participação, planejamento e interesse são ferramentas efetivas para que alunos, professores e pais tornem-se unidos e conscientes das contribuições uns dos outros, cooperando e produzindo, em harmonia, um processo educativo significativo com um nível superior de resultados. O modo como as famílias relacionam-se com a escola influencia na motivação e aprendizagem dos filhos. Quando elas participam com um sincero e sério interesse pelas ideias e experiências de seus filhos, em suas tentativas de se expressar, um trabalho rico e complexo pode ocorrer, mesmo nos grupos mais heterogêneos, porque a presença viva e dinâmica da família na escola promoverá no seu filho – no aluno – uma sensação de conforto e autoconfiança que lhe permitirá participar das atividades com segurança, tornando seu progresso significativo. Encontros para trocas de experiências, comemorações, finalização de projetos, apresentações artísticas, feiras de ciências ou do livro são ótimas oportunidades para que isso aconteça. Compartilhando soluções para problemas que fazem parte da vida de todos, famílias e escola reforçam a parceria e fortalecem cada vez mais seus ideais de educação.

Numa escola progressista, os alunos aprendem que seus pais se sentem à vontade na instituição, que estão informados sobre o que acontece no dia a dia escolar. Assim, confiança é construída e os filhos alegram-se quando os pais falam: “Hoje iremos a sua escola… ”. A presença dos pais, sua participação efetiva nos eventos da escola acreditando na proposta educacional, dialogando com os profissionais que trabalham, se refletirá cada vez mais na formação e no crescimento das suas crianças e dos jovens estudantes. A escola pode ser ao mesmo tempo, uma extensão de casa e uma janela para o mundo.

Nosso projeto não terminou aí. Os programas na rádio, elaborados pelos alunos, continuam incentivando as pessoas a fazer sua parte na preservação ambiental. Para nós, trabalhar este tema foi relevante, pois descobrimos que, a partir de nossas pequenas ações, podemos ajudar a mudar o mundo. Sentimos a alegria e o entusiasmo no rostinho das crianças, o interesse e a vontade de fazer cada vez mais para preservar nosso planeta. Os pais demonstraram grande interesse e apoiaram tanto o projeto que pareciam verdadeiros alunos. Prontos a aprender com os filhos, ao mesmo tempo em que ensinavam, trocavam experiências, enriqueciam nossas aulas.

RETORNO DO PROJETO

Os alunos foram avaliados a todo momento, confeccionaram portfólios, fizeram relatórios, gráficos e várias atividades de arte, onde o lixo vira luxo. Interdisciplinamos os conteúdos e aprendemos por meio de ações práticas.

Aprendemos que sustentabilidade é retirar tudo que precisamos da natureza e sustentar seu equilíbrio; é estar em harmonia com nossa mãe Terra. Devemos, pois, educar nossos semelhantes para a reflexão e a ação, cultivando valores de cidadania, respeito, solidariedade, amor às pequenas ações. Assim, podemos redescobrir nossa íntima relação com a natureza.

E o resultado do projeto não poderia ser melhor: uma aprendizagem efetiva, significante, gratificante para todos os envolvidos. Mas o melhor estaria por vir. Em 2009, em nossa cidade, foi inaugurada uma pequena, mas promissora fábrica de sacolas retornáveis. Os comerciantes envolveram-se e comprometeram-se. Alguns dão descontos aos fregueses que retornam com a sacola doada por eles. Os pãezinhos de todo dia já têm, na maioria das padarias, sua sacolinha retornável. Outro retorno importante para nossa cidade foi o início da coleta seletiva. A população está se conscientizando e aprendendo como lidar com o lixo.

Para nós, educadoras, cidadãs e protetoras do meio ambiente, foi como a grande colheita, depois de plantada uma sementinha.


Autoria:

Soráia Quintão Araújo da Silva e Carmem Lúcia de Rodrigues Magalhães Carneiro são graduadas pelo Projeto Veredas, com Curso Normal Superior. Ambas atuam na E. E. Coronel Amantino Maciel (Piranga – MG).

Vera Maria Paixão de Araújo é pedagoga, especialista em Administração e em Supervisão Escolar – Ensino Fundamental e Médio (Belo Horizonte – MG).

Referências:

SANT’ANA, Eliana. Sementes para o futuro. Belo Horizonte: SenarAR / MG / Faemg, 2008

SANTOS, Cleuza Pereira. Educação ambiental: ação/conscientização para um mundo melhor. Belo Horizonte: SEE/MG, 2002.

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