Projeto Palhaço: Riso que faz bem

Projeto aproxima alunos do universo circense, em especial dos palhaços, levando-os a resgatar valores simples e verdadeiros, mas, muitas vezes, esquecidos.

Quem não traz na memória a imagem de um circo? Associado ao espaço redondo, coberto por uma lona, lá está o palhaço. Colorido, com um sorriso largo e vestido com seu principal adereço: o nariz reluzente e vermelho. O termo palhaço possui muitos significados. Ele é sujeito atrapalhado, leso, capaz de espertezas infantis e ágeis. É um bobo esperto, romântico, lírico. Ele pode ser delicado, ingênuo, solidário. Veio de um lugar onde o riso desfaz as tensões e aproxima o homem. O palhaço é a exposição do ridículo e também das fraquezas de cada um. Logo, ele é pessoal e único. É anárquico por natureza. O palhaço não representa, ele é. É contagiante. Transforma velhas piadas em novos espetáculos. Faz rir o pai, o filho e o avô. Renova a alma com simples gestos. Tira flores de chapéus com uma delicadeza que só ele é capaz de fazer. Toca instrumentos, dança, canta e faz a vida parecer mais simples. São inúmeras as faces e as linguagens do palhaço. Mas entre todas elas parece existir pelo menos dois aspectos em comum. O primeiro é que o palhaço parece ser necessário num mundo onde existe tanta dor e sofrimento, funciona como uma espécie de contraponto da dor e da tristeza. O segundo diz respeito ao caráter anarquista do palhaço, sua capacidade de ser e fazer coisas que, num contexto rotulado de normal, não poderiam ser feitas. Ele pode falar da feiura do nariz do rei ou expor os políticos corruptos sem correr o mínimo risco de ser punido por isto. Neste sentido, o palhaço pode ser o porta-voz de toda uma sociedade e instrumento para denunciar injustiças. A linha do tempo que une palhaços e bobos da corte é muito tênue e sempre apresenta o palhaço como um sedutor, aquele que seduz por meio do riso, uma linguagem universal que dispensa tradução. Em qualquer lugar do mundo, entende-se um sorriso. “O homem é o único animal que ri”, observou o filósofo Aristóteles e é esse sorriso que as pessoas estão perdendo ao longo da história. Cabe ao palhaço e à sociedade reavivar este lado cômico que cada pessoa tem: o fazedor de graça. Neste sentido, um contato mais próximo com o universo circense e com o palhaço faz-se necessário como processo humanizador. Nossas crianças, ávidas por saber, estão relegadas ao esquecimento quando o assunto é sensibilizá-las para as pequenas coisas da vida. Quando pequenas, são iluminadas pela simples presença de um nariz redondo e vermelho, mas quando deixam a infância despedem-se também da beleza e da simplicidade das pequenas emoções. Levar o palhaço para dentro da sala de aula propicia esse retorno à ingenuidade, resgata esse lado não só das crianças, mas também dos adultos. A família interage recordando a infância e suas primeiras palhaçadas. Para Beatriz Sayad, integrante dos Doutores da Alegria, (…) “ser palhaço é encontrar modos de se mover, de falar, de olhar, que deslocam o sujeito do estado cotidiano e o introduzem no estado ‘palhacesco’. Escrever sobre palhaços é escolher palavras aptas a jogar com a poesia, com o desenho, com as ideias, com o improviso.” Refletindo sobre o assunto, surgiu a ideia de trabalharmos o tema “A linguagem do palhaço”, com nossos alunos do 5º ano, do Colégio Efigênia Vidigal COC, visando as relações sociais que são estabelecidas, no cotidiano, através da fala do palhaço por trás da máscara, livre de sutilezas ou de conveniências sociais.

A linguagem do palhaço

Normalmente o circo é muito lembrado nas festas infantis, mas numa escola, estudar circo, como? Para quê? Para ser feliz. Quer motivo mais nobre? Apresentamos o assunto “A linguagem do palhaço” e os alunos abraçaram a ideia, iniciando uma pesquisa sobre o tema circo. Fizemos excursão a uma escola de circo de Belo Horizonte, a Spasso. A proposta era que nossas crianças vivenciassem um pouquinho do que acontece no circo. Foi um sucesso, elas adoraram. Muitas decidiram, com o apoio de suas famílias, fazer aula nesta escola e puderam perceber também que os profissionais do circo precisam se preparar física e mentalmente para exercer suas atividades. Vários alunos não tinham a ideia de ter o trabalho circense como profissão. Além de descobrir quantos profissionais estão envolvidos e como é amplo o tema, eles tomaram contato com o trabalho social desenvolvido por esta escola de circo, com crianças e adolescentes carentes. De volta a nossa escola, munidos de muitas fotos, decidimos montar um mural intitulado “O que o circo nos ensinou” e criar um filme nas aulas de Informática, reproduzido em DVD para cada aluno, contendo, também, diversas atividades. Outro aspecto importante dessa visita foi a percepção de como é importante o trabalho em grupo, a ajuda mútua, a disciplina e a solidariedade para se obter sucesso nas apresentações. Assim deve ser também na vida. Propusemos que fosse escolhido um dos profissionais do circo para orientar a pesquisa. Não tivemos nenhuma surpresa, em todas as turmas o palhaço foi o escolhido. Surgiu daí o projeto que seria apresentado na Mostra Científico-Cultural da escola, um evento que tem a participação de toda a comunidade escolar – “Palhaço: sou riso que faz bem!”

Os objetivos que orientaram o trabalho foram:

· conceituar o termo palhaço;

· apresentar as origens da arte do palhaço em algumas das suas inúmeras facetas;

· questionar sua função social, por trás da máscara;

· vivenciar a arte do palhaço e compreender o seu olhar sobre os aspectos da saúde e da sociedade na qual ele está inserido;

· perceber que a imagem do palhaço pode ser utilizada em situações em que haja injustiças, agressões, deboches e qualquer outra situação constrangedora.

Desenvolvimento do projeto

Para iniciar o estudo sobre os palhaços, as professoras fizeram uma surpresa para os alunos: convidaram um palhaço para uma visita à sala. Foi um sucesso, eles realmente se surpreenderam e ficaram muito motivados para o trabalho de pesquisa sobre tipos de palhaços e palhaços famosos. Juntamente à pesquisa, nas aulas de Literatura, eles leram O livro do palhaço, de Cláudio Thebas, da Companhia das Letras. Depois da visita foi solicitado aos alunos, como atividade de casa, que escrevessem uma notícia sobre o acontecido. Uma delas foi divulgada no site da escola para que toda a comunidade escolar pudesse acompanhar o projeto.

Dando continuidade ao trabalho e tendo as famílias como parceiras, foi elaborada uma atividade que seria realizada com elas em que se perguntava o que lhes remetia a palavra palhaçada. Diante das respostas, foi possível organizar com os alunos um debate sobre as várias facetas de um palhaço: a irreverência, a alegria, a ingenuidade e a gentileza. Surgiu daí a ideia de juntar a este projeto outro, que já estava sendo desenvolvido pelas turmas desde o início do ano, nas aulas de Educação para Paz, disciplina que faz parte do currículo da escola, projeto denominado “Gentileza gera gentileza”. Uma das atividades propostas foi, num festival de dança realizado pelos alunos num shopping do bairro onde a escola se localiza, a apresentação da música “Gentileza”, de Marisa Monte, em que a intérprete conta a história do criador da frase: “Gentileza gera gentileza”. Em seguida, os alunos entregaram flores para as pessoas presentes no evento, um ato gentil do qual o mundo tanto precisa. De volta à sala de aula foi debatido, através de notícias trazidas pelos alunos, o que pode causar a falta de gentileza no trânsito, que tem se apresentado cada vez mais caótico nas cidades grandes. Não foram poucos os alunos que relataram o comportamento agressivo dos próprios pais no trânsito, o que nos faz reafirmar o papel importante que a escola exerce na formação dos cidadãos.

Doutores da Alegria

A apresentação do filme Doutores da Alegria documentou a história de palhaços profissionais que realizam trabalhos com crianças em hospitais em todo o Brasil. Em Belo Horizonte, esse trabalho é realizado no Hospital das Clínicas. Os alunos puderam perceber, através do depoimento de médicos, enfermeiros e familiares, o quanto faz bem a alegria na vida de um doente, o que nos leva a acreditar na célebre frase: “Rir é o melhor remédio”. Além disso, o documentário apresentou a ideia de que o tratamento com remédios, dietas, enfim, o que a ciência indica é de fundamental importância na recuperação do paciente. Esses dois tratamentos – riso e medicação – funcionam bem se caminharem juntos, tendo sido essa ideia reforçada pelas professoras, no debate, após o filme.

Os Doutores da Alegria publicam todos os anos um livro com o balanço dos trabalhos realizados. Os dados contidos neste livro foram usados para propor atividades de matemática, em que se trabalhou a leitura de gráficos e tabelas. Os alunos foram orientados pelas professoras para o fato de que a leitura desses instrumentos, com dados organizados, é uma das várias formas de se obter informações, bem como sua leitura habitua o aluno a analisar todos os elementos significativos presentes em uma representação gráfica, evitando interpretações parciais e precipitadas. Como todo projeto pretende ir além dos muros da escola, é de suma importância que sejam observadas atitudes geradas pela sua realização. Uma aluna trouxe para a sala um livro dos Doutores da Alegria e propôs aos colegas que a cada compra de um exemplar outro seria doado a uma criança. Ela incentivou a turma a adquirir o livro, como um ato de gentileza para com essas crianças que seriam beneficiadas.

Tendo em vista que no 5º ano estuda-se o corpo humano com o objetivo maior de saber cuidar do próprio corpo, procurou-se propiciar a interdisciplinaridade, propondo-se, nas aulas, o debate sobre um mal moderno: o estresse. Também foi planejada uma aula de Arte para a criação de palhaços com diversos materiais, numa releitura do artista plástico Vik Muniz, que utiliza materiais inusitados para recriar possibilidades de apresentar e perceber o mundo. Ainda foi proposta a criação, em conjunto, de um palhaço, com materiais trazidos de casa. Os palhaços de cada turma receberam nomes e foram expostos na Mostra Científico-Cultural. Todos puderam tirar fotos junto aos palhaços, numa alusão ao que acontece em diversos locais, inclusive como lembrança, em alguns circos. Alguns artistas que retrataram palhaços em suas telas foram estudados, como Yara Tupinambá. Nessa proposta, a mãe de um aluno, que é pintora, trouxe seu quadro de palhaço para mostrar aos alunos e os ajudou a desenhar palhaços famosos: Arrelia, Carequinha, Torresmo, Didi, Charlie Chaplin com seu personagem Carlitos e outros.

O estudo sobre Chaplin foi realizado principalmente através de seus filmes. As professoras contaram um pouco da vida dele e o que ele significou na história do cinema mundial. Considerando o interesse dos alunos pela música, foram criados raps e paródias sobre o tema gentileza. Essas canções foram gravadas pela Rádio da Escola e apresentadas na mostra, propiciando a reflexão sobre a importância da gentileza na vida das pessoas. Esse recurso foi expressivo para envolver todo o corpo docente e discente, já que com o projeto pretendíamos provocar mudanças de atitudes, visando o bem social. Ainda como proposta de produção textual, as professoras pediram aos alunos que trouxessem de casa textos que os divertiam, entre eles crônicas e piadas, mas foram orientados a terem o bom-senso e ética na escolha, dispensando os textos discriminativos, por exemplo. Valia aí rir com o outro e não do outro. Em sala, vários grupos de leitura foram formados e alguns textos dramatizados, fazendo as aulas de leitura ficarem mais divertidas. Em seguida propôs-se aos alunos que, em duplas, produzissem seus próprios textos engraçados. Depois de corrigidos viraram um livro: O livro das palhaçadas.

Atitudes e comportamentos

Foi grande a participação dos alunos e familiares neste projeto que tinha, também, como meta ampliar os aspectos ingênuos, puros, humanos e risíveis do nosso próprio ser, confrontando cada um com seu palhaço interior, mostrando os recantos escondidos da personalidade, aflorando o caráter humano.

Pudemos observar mudanças de atitudes e comportamentos, dentro e fora de sala de aula, devido ao fato de ter o trabalho permitido que os alunos:

· aceitassem que todos nós temos um pouco de palhaço em nosso interior;

· percebessem que a linguagem do palhaço está presente em nossa comunicação com o outro;

· constatassem a importância do palhaço para ampliar relações solidárias;

· reconhecessem que os palhaços são como a vida: inusitados, loucos, apaixonantes. Por tudo isso, concluímos que devemos ser como palhaços: atrapalhados, sinceros, espontâneos, solidários, alegres, gentis, com bom humor e, acima de tudo, verdadeiros.

Essa é uma arte bem mais profunda do que imaginamos, pois precisamos estar livres das máscaras sociais adquiridas com o passar do tempo. Ao utilizarmos os materiais didáticos que julgamos adequados e agirmos como profissionais mediadores, o trabalho revelou-se significativo para o aluno, permitindo reflexão, entendimento, formação de opinião, integrando, assim, um novo conhecimento ao seu repertório pessoal. A linguagem do palhaço através do riso levou criticidade, alegria, paz e solidariedade aos nossos corações e mentes.


Relato de experiência de: Elaine Dias de Azevedo, Maria Natália Batista Marshall e Nirlene Silva Albin professoras do Colégio Efigênia Vidiga COC (Belo Horizonte – MG).

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