Projeto Chapeuzinho Vermelho

Justificativa:
Profª Cintia Borher

A primeira infância é a fase em que se inicia a formação da personalidade e o momento em que os hábitos começam a se instalar, por isso é importante promover uma rotina em que a criança se sinta segura. Dentro dessa rotina podemos inserir também o hábito de leitura e de exploração dos contos de fadas que envolvem a literatura infantil.

É através da literatura infantil que a criança desenvolve a criatividade, a imaginação, desvenda as emoções e compreende os sentimentos de maneira lúdica e significativa. No mundo imaginário do

faz de conta a imaginação da criança flui e assim ela começa a experimentar diferentes sentimentos daqueles vivenciados em sua vida real.

Contar histórias também é uma forma de aproximação, de demonstrar afeto, pois durante o conto estamos estimulando o contato físico, a fantasia, ampliando a cultura e ajudando o amadurecimento emocional. A literatura infantil oferece uma forma encantadora de aprendizagem além de contribuir na formação do ser humano e de seus valores.

A partir do momento em que a criança tem contato com a literatura infantil ela ganha acesso ao mundo da leitura e começa a buscar novos portadores textuais, a fazer novas descobertas e consequentemente a ampliar sua compreensão de mundo e de sim mesma. Isso torna a literatura infantil um ótimo recurso para a iniciação ao mundo letrado.

Baseado nesse entendimento iniciei o Projeto Chapeuzinho Vermelho com meus doze alunos de três anos de idade, em uma escola particular na Zona Norte do Rio de Janeiro. O livro escolhido foi um reconto da Ana Oom da Editora FTD.

Campos do Conhecimento:

Letramento,  Educação  Matemática  e   Conhecimento   de Mundo.

Intencionalidades Educativas:
  • Compreender a rotina escolar;
  • Desenvolver habilidades psicomotoras, afetivo-sociais e cognitivas;
  • Estimular a socialização pela descoberta dos amigos;
  • Oportunizar o conhecimento dos valores (solidariedade, cooperação e amizade);
  • Promover atividades que visam ampliar o vocabulário; Perceber a função social da escrita;
  • Compreender a importância dos números no dia a dia.
Duração:

Dois meses – abril e maio

Avaliação:

Ocorrerá ao longo do projeto, observando o envolvimento dos alunos com as propostas oferecidas.

Sequência Didática:

No primeiro momento, com as crianças sentadas na roda de conversa, me caracterizei com um gorro na cabeça e uma cesta nas mãos.

Questionei à turma sobre o personagem que estava representando e o que deveria ter dentro da cesta que carregava. Após várias sugestões de respostas tais como bolinhos, maçãs, docinhos e brinquedos, apresentei  a  cesta  repleta  de  livros que usaríamos ao longo do projeto. Cada criança recebeu um livro para acompanhar a leitura do conto.

Foi feito uma leitura com entonação de voz diferente, músicas com as figuras que apareciam nas cenas desenhadas nas páginas, expectativas e brilho no olhar entre as partes da história.

Mesmo sendo uma história já conhecida pela maioria dos alunos, por se tratar de um clássico infantil, era visível o envolvimento da turma com a narração da professora.

Após ouvir a história, a turma realizou um reconto que foi registrado em um blocão, tendo a professora como escriba.

Durante o reconto, foi trabalhada a noção temporal. Pois as crianças iam narrando a história enquanto eu questionava sobre a sequencia… Mas o que aconteceu antes? E depois? Em que momento isso aconteceu? Onde ela estava? Dessa forma o reconto foi se construindo naturalmente.

Outras versões da mesma história foram relembradas enquanto conversávamos sobre a sequência da história, por isso resolvemos apresentar mais uma versão através de um filme na sala de cinema da escola.

Questionei sobre as características dos personagens. Como eles são? O que os diferenciam? Como é a personalidade de cada um deles? Dessa forma a turma foi verbalizando o entendimento da história e a percepção de cada personalidade que caracterizavam os personagens.

E, agora que já conhecíamos os personagens e suas características, confeccionamos sacoches¹ dos personagens da história.  Com  botões,  lãs  coloridas,  retalhos  de  tecidos, cola, tesoura, canetinhas, saquinhos de papel e muita  criatividade, cada criança recriou o seu personagem preferido.

Com os sacoches prontos, recontamos a história e brincamos de teatro. Criamos novas versões e descobrimos que não é preciso se prender a uma história ideal. Essa atividade é ideal para organização de fatos e sequências, pois pra recontar a história é preciso que a criança organize o pensamento e utilize a linguagem verbal para contar o que compreendeu.

Na hora do teatro era fácil perceber que as crianças se esforçavam para relembrar as ordens dos fatos. Foi uma atividade muito rica!

No dia seguinte fomos para o parque da escola vestidos de aventais, segurando potes de tinta guache e pinceis finos para fazer o registro da parte da história preferida de cada um.

Outra forma de apresentar um reconto da mesma história seria registrar a parte que chamou a atenção das crianças. Esse tipo de atividade é normal dentro da rotina da Educação Infantil, mas a atividade ficou ainda mais interessante quando  descobriram que a pintura não iria ser em uma folha de papel e sim nos ladrilhos da parede do parque da escola.

Nosso planejamento é construído de maneira onde as disciplinas são trabalhadas em total harmonia. Para trabalhar a Educação Matemática, por exemplo, começamos na pensar no número de personagens que apareciam na história trabalhada.

A relação que as crianças dessa faixa etária têm com os números é puramente musical. Todas conhecem a contagem de 1 a 10 de forma sequenciada e cantada, mas poucas  delas percebem a relação do número falado com a quantidade referida.

Apresentei os dedoches da história da Chapeuzinho Vermelho, as placas com os numerais e as tampinhas de garrafa. Com as crianças sentadas em roda, solicitei que separassem o número de tampinhas de acordo com os  personagens e depois relacionassem com o numeral indicado pela placa.

Depois de realizarmos a contagem dos personagens, listamos seus nomes em uma folha de papel pardo. Como se escreve VOVÓ? Qual é o som que faz o primeiro pedacinho? Quem conhece essa letra? Qual é o nome dela? E assim foi feito o registro de cada nome de personagem que faz parte da história trabalhada.

Aproveitamos esse momento para descobrir as letras que formam os nomes e os sons que elas reproduzem… Mas e os nossos nomes? Quantas letras é preciso para escrever? Pegamos as plaquinhas com os nomes da chamada, regatamos as tampinhas de garrafa pet utilizada na atividade anterior e iniciamos a nova contagem. Qual é o nome com maior número de letra? Qual é o menor? Brincando, descobrindo e contando fomos aprendendo sobre números e letras. Qual é a sua primeira letra? Qual é o  som que ela faz? Existem outras palavras que começam com o mesmo som? Quais são elas?

A inteligência emocional deve ser trabalhada desde cedo, pois assim a criança aprende a verbalizar seus sentimentos e a identificar as suas emoções e as dos outros. Dessa forma passa a conviver em harmonia com o grupo que a cerca. Aproveitamos esse conto de fadas para trabalhar os sentimentos.

“Chapeuzinho Vermelho ficou feliz e a vovó também ficou contente por estar com a sua neta”.

Como devemos tratar as pessoas mais velhas? O que você gosta de fazer com os seus avós? O que é estar feliz? O que te faz feliz? O que é felicidade? Muitas conversas e reflexões surgiram em nossa roda de conversa. O registro ficou, mais uma vez, em forma de blocão. As crianças registraram em forma de desenho e eu fiz a “tradução” com a escrita da legenda.

Ainda falando em sentimentos e emoções… Todos acham  que o Lobo é malvado. Mas o que ele queria na verdade era apenas comer os docinhos que estavam na cesta da Chapeuzinho Vermelho. Por que será que ele agiu dessa maneira, sendo tão malvado? Será que ele estava apenas com fome? O que te deixa nervoso (a)? O que você faz com esse sentimento? Como podemos ajudar o lobo a não agir mais dessa maneira?

Mais uma vez, com uma roda de conversa e muitas  reflexões chegamos a conclusão que é possível verbalizar nossos sentimentos ao invés de agir corporalmente (o que é bastante comum nessa faixa etária). Concluímos então que o Lobo não era tão malvado assim, ele apenas tinha dificuldades em expressar suas emoções.

Fomos até ao parque da escola brincar de SEU LOBO ESTÁ? Onde uma criança vestida de lobo com uma capa marrom, fica no centro da roda enquanto os outros integrantes ficam de mãos dadas em forma de roda. O objetivo é não podem deixar o lobo fugir.

Já que descobrimos que o lobo não é malvado, vamos ouvir outra história… De outra chapeuzinho… Dessa vez, será a CHAPEUZINHO AMARELO, uma história de Chico Buarque que trabalha o medo de uma forma bem divertida.

Cada um conta a história do seu jeito. A menina pode até mudar a cor do seu chapeuzinho. Vamos criar uma história onde você escolhe o enredo e a cor do chapéu do personagem. Essa atividade foi realizada em forma de desenho livre. Em seguida, cada criança apresentou a sua nova história para a turma.

O lobo deixou pegadas no Marista! As pegadas estavam espalhadas pelo parque, cada criança encontrou uma cartela colorida em forma de pegada e voltamos para sala para brincar  de um jogo no estilo “Tapa Certo”. Eu falava a cor e as crianças davam um “tapa” na pegada referente a cor falada.

Brincamos com os rostinhos dos sentimentos e identificamos as expressões faciais. Como você está se sentindo hoje? O que significa essa carinha? Encenamos e imaginamos utilizando a brincadeira de teatro de Palitoche².

Exploramos diversas canções infantis que vieram embutidas nas histórias, utilizando instrumentos musicais (chocalho, tambor e pandeiro). Foi um momento incrível onde pudemos trabalhar os diversos ritmos, a atenção aos movimentos adequados, a concentração aos comandos além de ampliar o vocabulário com as letras das músicas.

Pensamos em confeccionar uma boneca de pano para representar a nossa personagem principal. Ela nos acompanharia durante todo o projeto. A Chapeuzinho Vermelho seria toda feita de tecido, mas precisamos construir corretamente as partes do corpo.

Com brincadeiras musicais com as partes do corpo, exploramos o nosso corpo e descobrimos os nomes e lugares de cada um deles. Exploramos as seguintes canções.

  • Estátua
  • Cabeça, ombro, joelho e pé…
  • Eu danço pop, pop… Assim é bem ..

Depois de explorar bastante o nosso corpo, fomos confeccionar nossa mascote. Utilizamos pano cru, retalho de tecidos, botões, jornal amassado, lã e muita criatividade.

Chapeuzinho começou a participar de nossa rotina escolar. Sentava na roda de conversa, estava presente no parquinho, ajudava a organizar o lanche da turma e a resolver os pequenos conflitos que aconteciam eventualmente. Ela ganhou até um cartão de nome para colocar na chamadinha.

Nossa boneca da Chapeuzinho Vermelho ficou linda e sua construção foi realizada de uma maneira lúdica onde foi possível explorar o esquema corporal. Percebi que a partir de então, os desenhos começaram a evoluir… Notei o aparecimento de células com braços, pernas e até barrigas! Um grande avanço para a turminha que começou a ter uma melhor percepção do esquema corporal.

Desenhar sob outra perspectiva também é muito  importante nessa fase, pois ajuda a se perceber e pensar por diferentes ângulos. Realizamos então, a pintura do esquema corporal na parede de azulejo do parque. Um momento mágico onde as crianças se divertiram bastante.

Chapeuzinho Vermelho é o nome da história que estamos trabalhando. A menina era conhecida dessa forma porque sempre usava uma capa com um gorro vermelho que sua avó lhe deu.

E você? Qual é o seu nome? Por que lhe chamam dessa forma? Você também tem um apelido? Ouvimos muitas histórias engraçadas  com  apelidos  carinhosos  e  especiais.  Resolvemos então realizar uma investigação do nome das crianças junto com as famílias.

As famílias se envolveram de tal forma que antes mesmo do prazo estipulado, estávamos com todas as pesquisas em mãos, Com as informações trazidas de casa, fomos lendo uma por uma,  e registramos em um blocão significados dos nomes.

Registramos no caderno, a primeira letra do nome com tinta guache e pintura a dedo, acompanhando a movimentação correta. Outra descoberta incrível que foi facilmente assimilada pelo grupo e reproduzida nas construções livres.

O caçador aparece na história para ajudar a Chapeuzinho vermelho que grita por socorro. O que podemos fazer para  ajudar os amigos? Após listar ações positivas que ajudam o  grupo, realizamos jogos cooperativos.

Brincamos de Chapeuzinho na toca 1,2,3, onde ao meu sinal as crianças deveriam entrar na toca junto com um amigo. Os números de tocas iam diminuindo e as crianças precisavam se ajudar para que todos pudessem ganhar.

Brincamos nos jardins da escola de caçador! Onde o objetivo era caçar as letras que formavam o nome da nossa mascote Chapeuzinho Vermelho. As letras estavam espalhadas pelos jardins e as crianças tinham que encontrá-las. Depois que todas as letras foram encontradas, montamos a sequência correta para formar o nome da personagem trabalhada.

Em nossa rotina, começamos o dia com a chamadinha de presença. Quem veio hoje? Quem faltou? Separamos os cartões com os nomes fazendo a leitura espontânea. Fazemos a chamada, com a atenção para a primeira letra do nome de cada aluno.

Na atividade individual registramos no caderno a  quantidade de letras que formam o nome com colagem de palitos de picolé.

E quantos amigos têm em nossa sala de aula? Confeccionamos um blocão para registrar a quantidade de  meninos e meninas da sala.

Logo em seguida realizamos o preenchimento do calendário. Aproveitamos esse momento para conversar sobre o registro do tempo em relação aos dias da semana, aos meses do ano e as datas numéricas. Elaboramos um blocão com as datas dos aniversários da turma. Um cartaz simples de fazer, mas todas as vezes que preenchíamos o calendário e mudávamos de mês, as crianças recorriam a ele para verificar os novos aniversariantes.

Como atividade individual, recortamos o molde da mão de cada aluno e dobramos a quantidade de dedos para representar a idade de cada um. Depois foi solicitado o registro da idade de forma espontânea.

O que é família? Quem faz parte da família da Chapeuzinho Vermelho? Quem faz parte da sua família? Realizamos o registro

individual através de grafismo com giz de cera, contagem e apontamento de quantificação com colagem de botões.

Como é a casa da vovó da Chapeuzinho Vermelho? Como é a sua casa? Como ela é dividida? Confeccionamos a silhueta de uma casa no papel 40 kg com as divisões dos cômodos. (sala, quarto, cozinha e banheiro). Com revistas e encartes de lojas, fomos completando com os móveis e utensílios de cada parte da casa. Além de trabalharmos o uso da tesoura, o trabalho em equipe, a oralidade e a contagem, também conhecemos um pouco da rotina de cada criança, com observações pessoais e  relatos  do cotidiano.

O cômodo que a Vovó mais gosta é a cozinha, pois é lá onde prepara suas receitas especiais para a sua netinha. Qual é a sua comida preferida? Brincamos de casinha com panelas de plástico. Simulamos o preparo de nossas refeições prediletas, servimos  aos amigos e nos divertimos com a imaginação!

A casa da vovó da Chapeuzinho Vermelho fica na floresta. Você sabe onde fica a sua casa? Confeccionamos um blocão simulando o bairro da Tijuca, onde nossa escola ficou no meio do cartaz e as dobraduras de casa se espalhem em volta. O caminho foi feito com trilha de botões.

Como você chega à escola? Quais são os meios de transporte  que  você  conhece?  Conversa  vai….  Conversa vem…

Iniciamos a confecção de um gráfico com aos nossos transportes preferidos. Cada criança escolhia o seu e colocava a tampinha de garrafa para representar o seu voto. Ao final, criamos o gráfico  e interpretamos as respostas.

Desperdício de alimentos é uma coisa muito séria! Brincar de fazer comidinhas com massa de modelar e panelinhas.

A vovó da Chapeuzinho Vermelho tem um livro repleto de receitas deliciosas. Vamos fazer uma receita também? Separamos os ingredientes para fazer uma massa de modelar  com farinha de trigo. Brincamos de misturar, identificamos os ingredientes, quantificamos de acordo com a receita e no final, registrar a receita no blocão. Brincamos com a massinha confeccionada e levamos para casa a nossa produção.

Chapeuzinho colocou muitos bolinhos dentro da cesta, mas a vovó só comeu um pouco… Simulamos diversas  situações- problema com forminhas de doce e bolinhas de massinha de modelar. Trabalhamos o raciocínio lógico e aprendemos as noções topológicas básicas, dividimos e quantificamos… .

Hum… Sopa de letrinhas… Utilizamos as peças do alfabeto móvel pra brincar de sopa com MUITAS ou POUCAS letras, explorando a linguagem matemática e o conhecimento das letras que formam os nossos nomes.

E porque não preparar uma receita de verdade???

Confeccionamos  um delicioso bombom de chocolate. Exploramos as embalagens para  realizar a leitura, os medidores para selecionar a quantidade certa e as mãozinhas para enrolar os bombons… Tudo ficou registrado em forma de blocão.

Oba! Hoje é dia de piquenique saudável! Preparar uma  salada com as frutas trazidas pela turma. Que fruta é essa?  Qual é a cor? Qual é o formato? É leve ou pesada?  Vamos provar? Para registrar esse grande momento de descoberta, mais uma vez, realizamos a confecção de um blocão. Fizemos um gráfico de frutas preferidas.

O que é Compartilhar? Por que é importante dividir? No final de nossa história, Chapeuzinho compartilhou os docinhos com a vovó e o caçador. Nosso projeto não poderia terminar de uma forma mais gostosa…. com piquenique compartilhado!


1  Sacoches são fantoches feitos em sacos de papel

2 Palitoche são personagens de papel colados no palito de picolé para encenar durante o teatro.


Cíntia Borher Soares – Educadora, Graduada em Pedagogia, Especialista em Educação Infantil e Desenvolvimento, Pós graduada em Administração e Supervisão Escolar e em Especialização em Mediação Pedagógica em EAD. Realiza atividades de Tutoria nas universidades FGV, UFF, PUC e nos Cursos Online PPD. Palestrante da equipe Projetos Pedagógicos Dinâmicos .

Contato: cintiaborher@gmail.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *