Projeto Alunos Ministros

O projeto teve início em 2013, na escola Villare, nas salas de 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, durante as aulas de história.

A ideia do projeto é envolver alunos voluntários em atividades que visam a melhoria do ambiente escolar, aumento do conhecimento e envolvimento da sala como um todo. Através de espécies de monitorias aos demais alunos, sendo que cada um atue na área que tem mais facilidade.

Justificativa:

É muito comum ouvirmos professores comentarem que alguns alunos terminam as lições mais rápido do que outros e precisam de atividades extra para lhes manterem ocupados, ou aprofundando o seu conhecimento, enquanto os alunos com mais dificuldade são orientados pelo professor. Isso justifica, em muitos casos a utilização de alunos monitores, que recebem a funções de auxiliar seus colegas na realização das tarefas, desta forma se ocupando com uma atividade que ajude a sala como um todo. Entretanto essa divisão tradicional de alunos entre os monitores e os com “dificuldade” geram uma série de novos problemas, como o preconceito, a disputa entre grupos, entre outros.

A ideia do projeto “Alunos Ministros” é se aproveitar das vantagens do uso da monitoria dos alunos, mas ampliando o seu uso para diversos outros campos de conhecimento de modo que todos os alunos interessados possam participar de alguma forma, em áreas que estes possuem mais facilidade, assim garantindo que todos tenham a chance de auxiliar os seus colegas com as suas melhores habilidades, garantindo assim o respeito mútuo e o desenvolvimento da cooperação entre eles.

Funcionamento do projeto:

O professor escolheu alguns “cargos ministeriais” previamente, de modo que os alunos interessados poderiam se inscrever caso tivessem interesse. A participação como aluno ministro está atrelada a notas extra de atividades, que motivam a participação. Entretanto, o aluno que não queira participar não possui nenhum prejuízo em sua nota. Ao criar os cargos foi importante levar em conta a forma como diversos alunos poderiam contribuir para o coletivo, de modo que diversas habilidades fossem incluídas. Os cargos possuem duração trimestral, de modo que há revezamento entre os alunos interessados.

Os principais cargos são:

  • Ministro da Saúde – Responsável por ajudar os colegas que faltarem (por motivo de doença ou não) com reposição da matéria, dúvidas, entrega de trabalhos, etc.
  • Ministro do Desenvolvimento – Responsável por auxiliar os colegas de modo que todos possam ter um bom desenvolvimento nas aulas, auxiliando com dúvidas, grupos de estudo, entre outros.
  • Ministro da Comunicação – Responsável por servir de porta-voz dos alunos em diversas situações, sejam em questões ligadas ao relacionamento de professor aluno, alunos dentro da sala, como entre as salas e séries.
  • Ministro da Palavra – Responsável pelo enriquecimento de vocabulário dos colegas, preparando glossários, auxiliando no uso do dicionário, auxiliando na análise de textos e documentos. (esse cargo foi inventado pelos próprios alunos)
  • Ministro da Imigração – Responsável por auxiliar os alunos que vêm de outras escolas a se enturmarem, compreenderem melhor as regras e o dia a dia da escola.
  • Ministro da Integração Social dos Grupos – Responsável por auxiliar nos trabalhos em grupo, facilitando a sua formação, entrosamento, agendamento de datas e materiais necessários em todos os trabalhos que forem em grupo.
  • Ministro da Cultura – Responsável pelo enriquecimento cultural de seus colegas, trazendo dicas de filmes, livros, jogos eletrônicos, músicas e outros elementos que de alguma forma tenham relação com o conteúdo das aulas.
  • Ministro da Tecnologia – Responsável por se utilizar de recursos tecnológicos que beneficiem a sala como um todo, como um fórum de discussões online, grupos, blogs, entre outros.
  • Ministro do Entretenimento – Responsável por pensar em atividades interessantes que tornem a aula mais atrativa, divertida para os alunos. Não tem o poder de parar as aulas em si, mas pode propor atividades extra-curriculares, competições dentro da matéria, entre outros.

Aos alunos é explicado que um dos pontos fundamentais do projeto é a proatividade, ou seja, eles não devem esperar o professor passar funções específicas, mas o tempo todo pensarem, individualmente ou coletivamente, em ideias que os permitam melhor cumprir as funções para as quais se candidataram.

Veja a seguir uma lista das principais sugestões e atividades que os alunos já colocaram em prática:

Formação de Grupos – Ministério da Integração Social dos grupos.

Nas turmas dos 8os anos a formação de grupos de seminário seguiu novos critérios que deram mais autonomia aos alunos com o auxílio do ministro da área. Os alunos preencheram uma ficha de habilidades (capacidade de pesquisa na Internet, Falar em público, analisar documento, organização, produção de power points ou outros recursos visuais eletrônicos e compreensão da matéria) após preencheram as fichas de acordo com o que pensavam de suas próprias habilidades, com apoio do ministro da integração social dos grupos escolheram os seus grupos segundo o critério de garantir que em cada grupo fosse contemplado em todas as habilidades (grupos de quatro alunos – cada aluno previamente poderia marcar quantas habilidades sentisse necessidade).

Assim respeitou-se o poder de escolha dos alunos, mas os conscientizando na necessidade de não ter apenas a amizade como critério e sim habilidades específicas que seriam utilizadas durante a preparação do seminário.

Grupos de Estudo e Anotações Compartilhadas – Ministério do Desenvolvimento.

Alunos do 9º ano, por iniciativa própria criaram um grupo de estudo em horário oposto ao das aulas, a princípio para cooperação nos exercícios, mas que acabou se transformando em um momento de revisão de conteúdo e aprofundamento da matéria. O grupo conta com a presença de cerca de 40% da sala e inspirou as outras salas do 9º ano a fazer o mesmo. O Ministro do Desenvolvimento faz relatórios de cada encontro para o professor, de modo que as dúvidas já são elencadas para serem melhor trabalhadas em sala (ou sanadas caso sejam mais simples) Esse trabalho de parceria incentivou a todos os alunos, uma vez que os que tinham mais facilidade sentiram melhor os direitos e deverem que vem com a responsabilidade que assumiram.

Nos 8º e 7os anos a ideia foi a criação de um caderno compartilhado. A cada tema um aluno toma sobre si a responsabilidade de transcrever as discussões de aula para um blog coletivo de modo que além do caderno pessoal eles possam ter como apoio o caderno compartilhado. Uma vez que se trate de uma produção coletiva da sala o professor pode acompanhar tal caderno, inclusive percebendo algumas dúvidas antes mesmo das avaliações formais.

De curiosidades de natal, notícias mundiais a concursos de desenhoMinistério da Cultura Muitos projetos interessantes foram levados adiante pelos ministros da cultura. A princípio, por pedido dos próprios alunos, foi criado na sala um painel cultural que fica sob a responsabilidade do ministro. Durante a matéria de revolução inglesa, por exemplo, foi preparado um conjunto de curiosidades a respeito de como o natal era comemorado na Inglaterra, desde antigamente até hoje, destaque especial para o fato de Cromwell (um dos principais personagens da revolução) ter proibido a comemoração do natal durante o seu mandato (assim havendo uma relação clara entre e o conteúdo e as curiosidades) outros painéis foram criados com dicas de filmes, livros e jogos eletrônicos relacionados ao conteúdo que está sendo estudado (outro exemplo seria o painel “Quadros pintados por Hitler antes dele se tornar um político e depois ditador” com a ideia “como seria o mundo se ele tivesse seguido apenas a carreira artística?”)

Concursos de desenhos sobre os vikings ocorreram no 7º ano, inspirando os alunos a pesquisarem mais sobre o tema, especialmente pois um dos critérios para a vitória era a precisão histórica (nada de vikings com chifres nos capacetes por exemplo). Notícias mundiais também começaram a tomar conta dos painéis. Por exemplo, dentro da matéria “surgimento do islamismo” estuda-se a importância da “Pedra Negra” um meteorito, para a formação do islâ. Foi trazido então notícias e discussões a respeito da recente explosão de um meteoro na região da Rússia e o estrago causado por ele. Ou seja, os alunos são incentivados a buscarem novas relações entre o presente e o passado.

“A ideia de escolher-se ministros e não um representante maior, ou um “presidente” acima destes ministros é para ressalvar a questão da pluralidade. Embora os alunos do 7o ano ainda não tenham tido como matéria a tripartição de poderes e a ideia de república, do 8o em diante há a discussão da diferença do pensamento absolutista e pensamento iluminista, ressaltando a questão da necessidade de que o maior número de pessoas possível deve assumir o “poder” e ser responsável por tomar conta do coletivo. O nome ministro foi escolhido pois o que os alunos estão fazendo são ações a serem executadas (referente portanto ao poder executivo) e não a criação de regras (que equivaleria ao legislativo) e nem tampouco o julgamento de qualquer situação a respeito dos ocorridos (que equivaleria ao poder judiciário) . A divisão de funções dentro do poder executivo em nosso (e em vários outros países) remete ao cargo dos ministros.

O projeto permite então que o aluno tenha uma vivência política delimitada dentro de sua sala de aula e posteriormente com a comunidade escolar. Mas uma vivência política diferenciada da que vemos em outros tantos projetos onde o aluno “eleito” assume o “poder” de representante único da sala ou de um grêmio estudantil. Neste projeto ele assume uma função específica em prol do coletivo, como, ao menos em teoria, deveria ocorrer em qualquer governo democrático.”


Prof. Leandro Villela de Azevedo – Mestre e Doutor em História Social, com Graduação em História (USP). Disponibilidade para atuar no Ensino Superior. Vivência como Professor de Ensino Fundamental e Médio. Destacada prática com projetos educacionais. Autor de livros e artigos.

Contato:professorleandrovillela@gmail.com

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