Projeto A palavra mais bonita

Ao escolherem a palavra mais bonita da língua portuguesa, alunos dão passo importante para uma educação para a paz.

Pesquisas recentes sobre o desenvolvimento infantil  mostram que os sete primeiros anos de vida de uma criança são muito importantes e decisivos na formação dos valores de vida. E dos sete em diante, ela está reafirmando esses valores.

O humanismo lapidado, consciente e responsável, será capaz de fazer dos alunos agentes de uma nova ordem mundial direcionada para a obtenção de uma paz intrinsecamente conquistada – a cultura da paz – que ajude cada um a olhar criticamente a realidade para poder situar-se diante dela e, consequentemente, agir.

A realidade, complexa e conflituosa, é relacionada a três dimensões nas quais se desenvolve o ser humano: consigo mesmo, com os demais (com e a partir das interações e estruturas sociais criadas por ele) e com o meio ambiente no qual vive. Nesse sentido, podem ser percebidas uma educação afetiva, uma educação sociopolítica e uma educação ambiental.

Baseando-se nessas  metas, desenvolvemos o projeto:

“Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa? Uma proposta de educação para a paz”.

Em nossa turma de 3ª série do Ensino Fundamental I. buscamos trabalhar a diversidade de sentimentos que permeiam a vida dos alunos.

Porque não pensar na palavra mais bonita da língua portuguesa que refletisse estes sentimentos?

Voltamos, então, nosso olhar para o passado.

Quando Cabral chegou ao Brasil, trouxe consigo um mundo diferente, uma nova cultura que seria incorporada àquela existente em nossa terra, até então desconhecida pelo resto do mundo. A exploração e a imposição de um modo de viver estranho aos índios não foi a melhor forma de colonização, hoje sabemos disso. Porém nos trouxe um presente: nosso português de cada dia.

Os lusitanos que se mudaram para o Brasil casaram-se com índias e trouxeram negros africanos que se misturaram aos brancos e índios.

Assim nasceu um novo povo: o brasileiro; uma nova língua: a língua portuguesa “brasileira··, com influências indígenas, africanas e, mais tarde, italianas, francesas, alemãs e tantas outras.

Entre os séculos 15 e 16, Portugal fundava o primeiro império colonial e comercial europeu. Dessa maneira, a língua espalhou-se pelo mundo, estendendo-se do Brasil, nas Américas, até Macau, na China. Hoje, é o idioma oficial de oito países independentes, adotado como forma de expressão, por mais de 230 milhões de falantes nativos. É a sétima língua materna mais falada no mundo (mais do que o francês, o italiano, o japonês, entre outras) e a terceira mais falada no Ocidente.

Antigamente, o idioma era considerado empecilho à propagação e apreciação da nossa produção literária. Hoje, cada vez mais pessoas em todo o mundo se interessam em aprender a falar português.

A ideia do projeto “Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa? Uma proposta de educação para a paz” nasceu da necessidade de unir estas duas vertentes: o amor à nossa língua materna e seu uso visando transmitir aos alunos conceitos e práticas de valores éticos e morais, criando oportunidade de vivenciar e avaliar a aplicação desses conceitos nas ações do dia-a-dia.

Por meio de exercícios, eles perceberam-se e posicionaram-se como agentes responsáveis pela construção da história da humanidade, com um compromisso maior que vai muito além de falar ou escrever palavras bonitas: é preciso aplicar, praticar os seus significados para que seja possível construir e viver em um mundo melhor.

Sempre que se pergunta pela palavra mais bonita ou preferida, a resposta menciona uma que tenha sonoridade ou imagem agradável, ou que seja ligada a diversos tipos de sentimentos. Pensando assim, o desenvolvimento desse projeto teve em vista trabalhar a diversidade de sentimentos que estão borbulhando nos corações dos alunos. Para isso, foram definidos vários objetivos:

  • Refletir sobre os significados das palavras e a quais sentimentos elas remetem.
  • Valorizar a participação da família e da comunidade escolar na escolha da palavra mais bonita da língua portuguesa.
  • Desenvolver a capacidade de se expressar e de saber ouvir a opinião do outro (pais, colegas, funcionários da escola…) através de entrevistas e debates.
  • Consultar diferentes fontes de informação, compreendendo sua importância para a elaboração do conhecimento.
  • Organizar as informações colhidas, compilando dados e representando-os em diferentes modelos de tabelas e gráficos.
  • Perceber o modo de ser e viver do seu grupo social.
  • Comparar os acontecimentos ocorridos em   diferentes   lugares e tempos, que caracterizam (ou caracterizaram) o modo de ser e viver de outros grupos sociais.
  • Relatar e escrever experiências pessoais e familiares a respeito das boas atitudes.
  • Exercer a cidadania plena.

Ao longo da execução do projeto, com a finalidade de promover discussões e desenvolver uma atitude propositiva, foram executadas atividades que propiciaram aos alunos informar, comunicar e até mesmo utilizar práticas de convencimento junto aos colegas, aos funcionários da escola, aos familiares e à comunidade mais ampla da qual fazem parte, sobre assuntos ou problemas relativos à violência, à relação entre  qualidade de vida e saúde, à valorização de todos que estão à nossa volta, sempre enfatizando o bom uso da língua, em interface com a disciplina Educação para  a Paz.

Foram realizadas   pesquisas de campo e históricas, enquetes com toda a comunidade escolar, entrevistas com pais, professores e diretoras da escola, de forma a permitir aos alunos o aprendizado, o conhecimento e a valorização de determinadas atitudes, incorporando temas sociais relevantes às atividades.

Foram usados recursos como computador, máquina fotográfica, revistas e jornais com notícias e informações sobre violência, paz e também sobre a língua portuguesa.

É preciso considerar que mesmo antes do ingresso na escola, a criança observa, pergunta e procura explicar os fenômenos sociais e naturais de seu cotidiano. Na escola é importante que o aluno possa ampliar, rever reformular e sistematizar as noções que construiu (e constrói) de forma espontânea, através da aprendizagem dos conteúdos curriculares.

A ideia e a maneira de trabalhar Educação para a Paz intensificaram-se com a vivência de um fato real envolvendo ato de extrema violência que vitimou um funcionário da escola no dia da festa junina do colégio. A festa foi adiada e todos ficaram impressionados com o fato.

Em um dos momentos de reflexão sobre o ocorrido, um aluno disse que estávamos falando somente “coisas feias e que faziam doer o coração”. Perguntei-lhe se poderia mudar o rumo da conversa com coisas bonitas. Ele falou que não sabia como, outro colega disse que, se falássemos de paz, talvez as “coisas poderiam ficar mais bonitas”.

Começamos a falar palavras que não “doíam o coração”, dando início ao projeto “Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?”, incentivando e propiciando o envolvimento dos alunos, no propósito de preparar momentos de reflexão e aprimoramento da nossa convivência diária na sala, na escola, na comunidade ou na família. Pensando sempre que trabalhar a Educação para a Paz é relembrar nossa autonomia e nosso desejo de ser feliz.

Para iniciar o projeto, os alunos perguntaram para cinco pessoas da família durante o final de semana: qual a palavra mais bonita da língua portuguesa? Eles tiveram que procurar essas palavras em jornais ou revistas e colar numa folha para apresentar em sala.

Como uma das competências do ensino de Matemática é saber utilizar os conhecimentos matemáticos como meio para compreender e transformar o mundo à sua volta, estimulando o interesse, a curiosidade, o espírito de investigação, depois de comparados e compilados os dados, os alunos construíram um gráfico com a quantidade de votos de cada palavra. Analisados esses dados começamos uma discussão sobre porque a palavra amor era a mais votada. Foi possível fazer a relação entre seu significado e o que ela representa na prática. Anotamos nossas discussões e conclusões sobre o assunto.

Queríamos também saber o que a comunidade escolar achava sobre a palavra mais bonita. Afixamos cartazes com a pergunta nos corredores, nas salas de aula, no pátio, enfim, por toda a parte, para, primeiramente, sensibilizar a comunidade. Três dias depois,      os alunos percorrem a escola, perguntando se as pessoas tinham visto os cartazes e se já tinham escolhido a palavra mais bonita.

Foi possível trabalhar a linguagem oral e a timidez dos alunos, porque   eles   tiveram de conversar não só com professores e funcionários conhecidos, mas também com quem não conheciam. Assim, puderam ver que a instituição funciona com muita gente trabalhando a favor deles e que não é composta somente por professores, coordenadores e diretores. Isso ampliou a visão de cada um, constituindo uma parte muito peculiar do nosso projeto, porque, além de conhecer as pessoas eles conheceram várias profissões, reconhecendo porque é importante o seu trabalho para a escola funcionar.

Após essas discussões, foi possível avançar mais. Baseados nos Parâmetros Curriculares Nacionais de História e Geografia, que indicam como objetivos do Ensino Fundamental a capacitação dos alunos para posicionar-se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais utilizando o diálogo como forma de mediar conflitos e de tomar decisões coletivas, começamos a rever nossas atitudes com os colegas, enfatizando sempre a palavra amor, seu significado e como poderíamos aplicá-lo em nosso dia a dia. Com isso, a convivência, aos poucos, melhorou. A paciência e a tolerância são sempre valorizadas quando há uma situação conflituosa. Os próprios colegas já lembram: “olha a palavra mais bonita’.

Estávamos estudando em História a escravidão do Brasil. Os alunos ficaram impressionados com o modo corno negros e índios eram tratados naquela época. Não conseguiam entender porque sofriam punições, porque somente os Negros eram escravos. Concluímos que era por causa da cor. Foi levantada a questão que a palavra mais feia da língua portuguesa, para a nossa turma, era discriminação e, de forma mais completa, a discriminação racial. Fizemos um mural ilustrando qual a palavra que cada aluno achava mais bonita e ao lado uma pergunta: qual a palavra mais feia da língua portuguesa? Os pais e toda a escola deveriam opinar.

Novamente fizemos a comparação e a compilação dos dados, elaboramos outro gráfico e procuramos saber dos pais e das outras pessoas o motivo de terem escolhido aquela palavra. Os alunos apresentaram oralmente as conversas. Em um dos momentos de discussão sobre os negros e a escravidão, foi observado que, em nossa escola, não havia muitos estudantes negros e na nossa sala não havia nenhum. Por que é assim? Com os conhecimentos já adquiridos sobre história da escravidão, foi possível compreender a explicação dos motivos que deram origem à situação constatada.

Em Língua Portuguesa, estudando textos jornalísticos, os alunos estavam muito interessados em fazer entrevistas como aquelas realizadas com as pessoas que aparecem em jornais e revistas. Para isso, elaboraram perguntas sobre o tema. Os entrevistados seriam os pais. Foi possível, a partir da análise das respostas, entender melhor o motivo da pouca presença de negros nas salas de aula dos estabelecimentos de ensino particular.  Os  alunos  perceberam que a escravidão no Brasil influencia, até hoje, a nossa vida e a de todos os brasileiros.

Com o intuito de utilizar a língua materna nas suas diferentes formas e em diversas situações sociais, de acordo com as intenções comunicativas, para que o aluno pudesse posicionar-se de maneira crítica e construtiva, foi levada para a sala uma reportagem sobre a reserva de vagas para negros nas universidades brasileiras. Ao ler a reportagem, muitos acharam que isso era racismo, porque somente os negros poderiam ter vagas reservadas e quem era branco mas pobre não teria o mesmo direito. E quem era rico e tinha a pele negra teria a mesma reserva de vaga do negro pobre. Foi uma discussão interessante, mas não chegamos à conclusão do que era certo ou errado. Foi respeitada a opinião de cada um.

Para finalizar nosso projeto, elegemos a tela do pintor alemão Johann Moritz Rugendas denominada Negros no porão do navio, dentro da infinidade de obras de arte retratando a escravidão no Brasil. Sobre elas, foram feitas duas releituras: uma, da própria obra e outra, fazendo transformações que possibilitaram ao aluno atribuir-lhes um título inserido no conceito da palavra amor.

Buscando a paz

Educar para a paz é uma necessidade e um direito/dever de todo educador. É um compromisso e um desafio, complexos e apaixonantes, que não estão isentos de conflitos e de controvérsias. No entanto, como educadores, não podemos ‘·assumir uma posição  indiferente,  a   posição de quem tranquilamente se declara neutro”. (Freire, 1987) Não fazê-­lo, além de ser uma miopia política e educativa, não seria educacional, seria uma omissão imperdoável para as futuras gerações.

Não podemos pensar em um fim, uma conclusão para este projeto. Ele é um começo e uma boa oportunidade para o aluno adquirir saberes e competências que o ajudarão a compreender e a transformar a própria vida.

Sua execução foi muito gratificante para a professora, para os alunos e para a própria escola. Todos participaram com muita dedicação e carinho, buscando alcançar o objetivo de proporcionar a melhoria das relações pela base. Assim, em um futuro próximo, a comunidade da escola e a humanidade em geral, como agentes responsáveis poderão transformar os efeitos sofridos que todos nós vivenciamos em passado recente, em atos para a construção da paz. Dessa maneira, toda a agressividade e combatividade pode ser revertida em prol da convivência saudável e salutar entre os indivíduos, os povos e as nações, para que tenhamos uma vida melhor, um futuro melhor. E se cada um fizer a sua parte, a gente chega lá.


Relato de experiência de Ana Carolina Matos Menezes – licenciada em Pedagogia pela PUC Minas e pós-graduada em Educação pelo Cepemg e em Leitura e Produção de Texto pelo UNl-BH; é coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental do Colégio Efigênia Vidigal (Belo Horizonte- MG).

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