Por um direito de brincar

“Se você não terminar sua atividade na hora da praça, não irá brincar!” Essa frase é recorrente em muitas instituições de educação infantil, alguns profissionais aproveitam e usam como uma forma de subordinar as crianças quando as mesmas “não” querem fazer as tarefas dirigidas pelos professores.

O brincar é um direito assegurado pelas DCNEI na organização do currículo da Educação Infantil, onde existem dois grandes eixos: AS INTERAÇÕES e BRINCADEIRAS, o brincar deve ser levado a sério pelos profissionais e respeitado pelos mesmos, ao brincar a criança desenvolve o seu papel na sociedade, aprendendo a socializar com seus pares e a interagir, Carla Rinaldi (2017, p.305) nos diz que “a criança é portadora  de direitos, de valores e culturas.” Esses direitos não devem serem roubados de nossas infâncias.

Nossos espaços de educação infantil devem ofertar às crianças oportunidades para que elas tenham um vasto campo de experiências, com diversos recursos, possibilidades de interagir e expressar-se por meio de brincadeiras, sem o adulto direcionando do que ela irá brincar ou com quem deve brincar.

Sou contra uma rotina tão rígida e mecânica que muitas instituições pregam nos alunos, onde são ofertados um turbilhão de estímulos sem o respeito e as necessidades das crianças. Por que todos devem dormir mesmo quando estão sem sono? Por que uma criança necessita ficar sem o seu tempo livre no pátio porque fez xixi nas calças? São indagações que nos levam a refletir e pensar que muitas vezes estes “castigos” são realizados por profissionais que atuam em creches e pré-escolas. Precisamos quebrar tais paradigmas nas instituições! O educador necessita ter uma escuta e um olhar reflexivo sobre a criança, respeitando as suas singularidades, Freire (1996) questiona que não é possível ao professor pensar que pensa certo, mas ao mesmo tempo pergunta ao aluno se “sabe com quem está falando?”.

O professor precisa ter a visão de que nossas crianças são o centro do nosso trabalho nas instituições de ensino, ressaltando que as mesmas têm um papel fundamental em nossas práticas diárias, Clarice Cohn (2005) disse que a criança produz cultura, não pelos objetos ou relatos que constrói, mas pela formulação de um sentido que dá ao mundo que a rodeia, cabendo ao professor estimular, respeitando o seu tempo e a sua forma de ser criança.

Devemos respeitar e conhecer as culturas infantis, isso é o ponto de partida para pensar numa educação voltada às crianças, Carla Rinaldi diz que escuta é emoção, é colocar-se no lugar do outro, respeitando suas singularidades e sua forma de ser. Quando o educador apenas impõe sem saber escutar seus alunos, está caindo na imposição e não na troca de saberes.

Sou a favor da brincadeira sim, sou a favor do respeito a nossa infância, pois é nossa responsabilidade e dever garantir brincadeiras, desafios, espaços e interações, o desejo de aflorar a criação, da criança trazer suas poéticas para dentro do espaço da instituição e brincar livremente, sem medo de ser criança e ser feliz. Esse é o nosso papel. Deixe a criança livre para viver e explorar o mundo que a rodeia, o mundo da criança está muito além das folhas A4 ou dos trabalhados condicionados pelos adultos, nossas crianças são portadoras de direitos e devemos. RESPEITE-OS!

REFERÊNCIAS:

BRASIL . Ministério da Educação e do Desporto. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília. MEC/SEF. Vol 1. 1998.

COHN, Clarice. A criança indígena: a concepção xikrin de infância e aprendizado. Dissertação de Mestrado. São Paulo, Universidade de São Paulo, 2005.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

RINALDI, Carla. Diálogos com Reggio Emilia: escutar, investigar e aprender. São Paulo: Paz e Terra, 2012.


João Luiz Silva – Pedagogo. Psicopedagogo. Especialista em educação especial inclusiva. Atualmente trabalha como psicopedagogo em um projeto social com crianças de vulnerabilidade, sua linha de pesquisa é infância, realiza formações continuadas para professores e estudantes na área da educação.

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