O ensino de Biologia no século XXI

No início do século XXI, quando o atual modelo de ensino é cada vez mais questionado, o que ensinar? Como ensinar? O que deve ser prioridade no ensino das áreas de conhecimento da Educação Básica?

Confira a opinião e as sugestões da Profª Mônica Waldhelm doutora em Educação e professora de Biologia do CEFET-RJ


O que hoje não se pode deixar de ser ensinado, em Biologia no Ensino Médio

Diante do ritmo acelerado de produção de conhecimento, não dá para simplesmente acrescentar tópicos ao ” conteúdo programático’. A escola deve focar na promoção da autonomia intelectual do aluno e propor situações de aprendizagem que abordem conceitos-chave em cada  disciplina/área que precisam ser devidamente contextualizados (para fazerem sentido) e sempre que possível, articulados com outros campos do conhecimento. Em Biologia, certos conceitos são essenciais para compreender fenômenos e processos que permitem ao aluno, quando efetivamente dominados, fazer extrapolações e agregar outros conceitos mais periféricos. Dentre eles, estão os conceitos de organização, metabolismo, código genético, gene, adaptação, seleção natural , homeostasia, dentre outros. A partir destes, é possível problematizar questões contemporâneas como as relativas às aplicações biotecnológicas, discussões ambientais e outras, importantes para a vida cidadã.

O que é preciso ser aprendido, em Biologia, pelos alunos no Ensino Médio

Conceitos que instrumentalizem o aluno a emitir opiniões, posicionar-se criticamente e fazer escolhas que não sejam pautadas apenas no senso comum, diante de questões relativas ao corpo, à saúde, ao meio ambiente, ao trabalho, à ciência e tecnologia e seu impacto sobre a sociedade. Esses conceitos devem ser problematizados em situações diversificadas (leituras, produções escritas, relatos orais, debates, trabalho em equipe, trabalho de campo, análise  de charges, trabalho com vídeos, experimentos etc.)  para terem significado e desenvolverem competências igualmente diversas no aluno.

O principal desafio de se ensinar Biologia nos dias de hoje

Fazer o aluno reconhecer a necessidade de ampliar seu quadro de referências, apropriando-se de conceitos e competências que permitam a ele transitar em diferentes contextos, que vão desde a realidade cotidiana, local, concreta, até a distante, global, mais abstrata . O aluno deve se ver como cidadão do bairro e do mundo e articular o que aprende na escola com a vida. Assim, não basta aprender sobre a poluição local, sem entender que relação isso tem com o aquecimento global. Ou decorar nomes e efeitos de hormônios e não atentar para os riscos de anabolizantes na busca fenética por “corpos sarados”. Despertar o aluno para isso é um desafio, pois a escola precisa incorporar aspectos que fazem parte do seu universo para envolvê-lo na aprendizagem. Dentre eles estão as novas tecnologias, as redes sociais, dentre outras.

O que mudou no ensino de Biologia

É comum o professor de biologia definir o objeto de estudo da disciplina  escrevendo no quadro de giz ao iniciar o ano letivo: Biologia é o estudo da vida. Lamentavelmente, para muitos alunos do Ensino Médio, esse momento será um dos poucos em que a Biologia estará relacionada à vida, pelo menos à vida desses alunos. Capturados por um redemoinho curricular tradicionalmente linear e fragmentado, nossos alunos serão envolvidos por nomes esquisitos e conteúdos desprovidos de significado.Constata-se que muitos professores, excessivamente ” disciplinados, disciplinares e disciplinadores”, ainda resistem às mudanças e insistem em currículos onde os conteúdos são fins em si mesmos no lugar de serem meios para construção de competências. Assim, muitos ainda ensinam uma biologia predominantemente descontextualizada. A questão é : nem sempre que alguém ensina, ocorre efetivamente aprendizagem. Contudo, existem professores que vêm enfrentando o desafio de romper com currículos lineares e formatados e propor atividades com abordagens criativas, embora ainda se vejam pressionados – quase reféns – de programas cobrados nos vestibulares (incluindo o novo ENEM que agora tem lista de conteúdos), de currículos ” mínimos” determinados pelas  redes públicas e aqueles propostos em livros didáticos.

PROFESSORA APOSTA NO TRABALHO DIVERSIFICADO
O trabalho com projetos

Segundo Profª Mônica esse tipo de trabalho possibilita a construção coletiva do conhecimento e a problematização de contextos ligados à vida do aluno, mobilizando conhecimentos de várias disciplinas. Professores e alunos podem conferir às palavras significados e sentidos diferentes. Sujeitos mais experientes, ao interagirem com outros mais jovens, estimulam não só a apropriação da linguagem, mas também a ampliação de seu repertório, de seu quadro de referências. Diferentes linguagens podem ser utilizadas nos projetos, favorecendo esses processos.

A articulação entre conhecimentos de diferentes áreas é inerente ao trabalho com projetos, permitindo que a interdisciplinaridade aconteça de modo efetivo. A investigação, a pesquisa, a troca, o registro do processo – característicos das atividades de um projeto – ajudam a promover a autonomia e as tomadas de decisões por parte do aluno, o que favorece o exercício da cidadania. A vivência de atividades que propiciem a cooperação e o trabalho em equipe, que aceitem e valorizem a heterogeneidade, deve ser buscada no trabalho com projetos. É importante que todo projeto culmine em alguma intervenção do aluno em sua realidade, como exposições de trabalhos, divulgação de informações coletadas junto à comunidade, mutirões etc.

Currículo flexível

O foco do currículo não pode ser a tradicional lista de conteúdos programáticos a serem cumpridos. Selecionando conceitos fundamentais em cada campo do conhecimento, o professor pode planejar atividades em que a autonomia do aluno seja o objetivo principal. Um número reduzido de conceitos, porém realmente construídos coletivamente, e uma maior diversificação de atividades e recursos tornam o aluno mais apto a dar conta de desafios em seu dia-a-dia.

Mônica alerta os professores para que não sejam reféns de índices de livros didáticos, que historicamente vêm norteando seus trabalhos. Um currículo em que o aluno aprende a aprender, pode debater, representar, inferir, interpretar etc. não é um currículo menor ou mais fácil. Tempo e espaço, segundo ela, também devem ser flexibilizados, viabilizando encontros de turmas diferentes e atividades fora dos limites da sala de aula.

Sala-ambiente

Organizada de acordo com os recursos e o espaço disponíveis na escola, esse tipo de sala favorece o trabalho diversificado. Mônica conta que em uma sala-ambiente de Ciências, por exemplo, pode-se ter, ao mesmo tempo, alunos jogando um dominó ecológico enquanto outros fazem observações de insetos com uma lupa. Os alunos podem tanto compartilhar descobertas como vivenciar conflitos e discordâncias, buscando acordos mediados pelo professor ou pelos pares. O espaço de aprendizagem é coletivo, podendo ocorrer na relação aluno-professor e na relação aluno-aluno.


Autoria: Mônica Waldhelm

Possui Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrado em Educação pela Universidade Federal Fluminense e Doutorado em Educação pela PUC-Rio. Atualmente trabalha na Divisão de Projetos do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ) atuando como docente e coordenadora adjunta no curso de especialização em Educação Tecnológica à distância (UAB) e no Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática. É co- autora de livros didáticos de ciências e biologia e consultora do MEC (TV Escola).Contato: mwaldhelm@gmail.com

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