O contrato didático / pedagógico

Uma ferramenta útil na relação entre professor e seus alunos – possível de ser utilizada da Educação Infantil ao Ensino Médio e Universitário.

O termo contrato didático surgiu em 1982 sendo definido por Guy Brousseau como: “o conjunto de comportamentos do professor que são esperados pelo aluno e o conjunto dos comportamentos do aluno que são esperados pelo professor. Tal contrato é o conjunto de regras que determinam o que cada elemento da relação didática deverá fazer e que será, de uma maneira ou de outra, válido para o outro elemento. Ou seja, é o conjunto de relações estabelecidas entre o professor, os alunos e o conhecimento. São as expectativas do professor em relação aos alunos e destes em relação ao professor, incluindo-se, nessa relação, o saber e as formas como esse saber é tratado por ambas as partes.”

O ensino focado apenas no conteúdo não contribui para uma formação completa dos alunos. É necessário analisar e compreender todos os componentes que constituem esta construção do saber. Um dos componentes cruciais para uma construção real é a organização do ambiente escolar, disposto em regras e deveres de cada um dos integrantes do processo ensino – aprendizagem. Assim sendo, o ideal é estabelecer um contrato didático/pedagógico logo no início do ano letivo.

É fundamental que os alunos não vejam o contrato de forma unilateral, ou como uma imposição do professor. Afinal, assumindo um caráter autoritário, o contrato passa de aliado a inimigo, prejudicando ao invés de auxiliar as relações.

O ideal é que a construção do contrato seja em conjunto com os alunos, através de debates, trocas de opiniões ou uma dinâmica, em que os alunos exporão as regras que acham importantes para o bom funcionamento das aulas. A mediação do professor é importante para que não se perca o foco do que deve ser discutido e para que seja dada a chance de todos participarem. Assim sendo, o professo garante:

  • A valorização do saber de seus alunos, sondando seus conhecimentos prévios, conhecendo-os melhor e proporcionando uma maior interação entre eles, colaborando para “quebrar o gelo” dos primeiros dias e oportunizando para que se sintam mais a vontade de participar durante as próximas aulas.
  • Em casos de quebra das regras, o professor poderá relembrar aos alunos que aquela regra infringida, foi ressaltada por eles, ou seja, eles estão indo contra o próprio discurso.

Brousseau afirma: “Na realidade é mais fácil dizer às crianças como é o conhecimento socialmente constituído, do que fazer com que os alunos o construam a partir da resolução de problemas. Nesse sentido, o primeiro problema é devolver aos alunos o problema. Como fazer para devolvê-lo e para assegurar a responsabilidade dos alunos na resolução dos problemas?” Pense nisso!

Outros contratos podem ser firmados durante o ano letivo com objetivos distintos, como a realização de trabalhos em grupo, pesquisas e resoluções de problemas sobre os assuntos estudados.

Na Educação Infantil este tipo de contrato é definido através dos combinados da turma. O ideal é que tais combinados e regras sejam decididas através de uma conversa plural, acordados entre os alunos e também não devem ser impostos pelo professor.

Lançando mão de temas que favoreçam a discussão com o grupo, o professor deve, no momento da roda, promover a participação de todos os alunos, de forma que exercitem a reflexão, a organização de ideias, vivenciem a experiência do ser cidadão, criando normas gerais, combinados próprios para a classe. O professor contribuirá, portanto, para a formação de valores e elaboração de conceitos.

Perguntando o que os alunos consideram relevante para o bom andamento e relacionamento dentro da sala de aula, uma infinidade de ideias e argumentos aparecerão, os quais serão anotados e colocados em votação para que, então, sejam os combinados gerais da turma.

Este resultado deverá ser organizado em pequenas frases, colocadas em tiras móveis em um quadro de pregas, ficando exposto na classe e relembrado constantemente.

Para a maioria que não sabe ler, haverá a escrita e, ao lado, um desenho compatível à regra, como por exemplo: “Não podemos bater no amigo” – fazer um desenho ao lado. O aluno já sabe que bater dói, portanto não deve bater. Este assunto foi, nesse caso, anteriormente colocado em discussão, por ter sido um dos problemas pelos quais a classe tenha enfrentando, tornando-se um dos combinados.

Este momento é muito rico para se aplicar o “colocar-se no lugar do outro” e perceber o que acontece e como se sentem, ou como se sentiriam se fossem punidos com rigidez.

Mais do que apresentar regras para as crianças, o importante é perceber a elaboração mental que cada criança faz como são internalizadas, que impacto existe em suas vidas, que significado e importância possuem.

Para além da disciplina e da punição, os combinados ou regras, devem centrar-se em estratégias de negociação, de apoio à construção de convicções acerca do relacionamento interpessoal.

Devem, por fim, levar à autonomia e autoconhecimento no desenvolvimento infantil, e por toda a vida, tornando-os cidadãos éticos, conscientes de suas ações/reações para com o mundo que os cerca.

“O aluno não só deve comunicar uma informação como também precisa afirmar que o que diz é verdadeiro dentro de um sistema determinado” (Guy Brousseau)


Paty Fonte (Patricia Lopes da Fonte)

Educadora especialista em pedagogia de projetos, escritora, autora dos livros “Projetos Pedagógicos Dinâmicos: a paixão de educar e o desafio de inovar” e “Pedagogia de Projetos – Ano letivo sem mesmice”, ambos publicados pela editora WAK; autora e tutora de cursos presenciais e on-line de educação continuada a docentes, coach, palestrante.

Idealizadora e diretora dos sites: www.projetospedagogicosdinamicos.com e www.cursosppd.com.br

Contatos: www.patyfonte.com.br | www.facebook.com/pedagogiadeprojetos/

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