O Brincar Heurístico

O brincar heurístico conforme o próprio nome sugere, trata-se do brincar baseado na exploração e na curiosidade dos pequenos. A palavra “heurístico” vem do grego “eurisko” e significa descobrir, alcançar a compreensão de algo. Logo, o foco do brincar está na descoberta e na manipulação de objetos como sementes, caixas, tapetes de borracha, bolas de pingue-pongue, novelos de lã, etc. Em outras palavras, conforme Goldschmied e Jackson (2006), o brincar heurístico envolve oferecer a um grupo de crianças, uma grande quantidade de objetos para que elas brinquem livremente sem a intervenção dos adultos.

O movimento é destacado pelas autoras como a habilidade mais importante para a criança pequena, principalmente no seu segundo ano de vida. Através do seu movimento a criança tem a possibilidade de alcançar aquilo que lhe causa curiosidade. A criança busca aprender por conta própria o tempo todo e por isso é comum que se movimente o dia todo.

Segundo as autoras Goldschmied e Jackson (2006) as crianças selecionam espontaneamente os objetos, trabalham com objetivos em mente de forma concentrada, em nenhum momento deve se colocar maneiras corretas ou erradas de se brincar, a criança deve estipular, observar quais manuseios fará dos objetos e seus receptáculos, e fazer as suas próprias conclusões. As crianças testarão os materiais dispostos a elas, empilhando, rolando, separando, passando um por dentro do outro, comparando, testando o equilíbrio, o seu desenvolvimento em manipular as coisas, o que é essencial para que a atividade seja satisfatória e prazerosa.

“[…] devemos criar espaço e tempo para fomentar esse tipo de brincar, reconhecendo que as crianças em seu segundo ano de vida têm necessidades educacionais específicas, da mesma forma que as de 4 anos as têm.” (GOLDSCHMIED, JACKSON, 2006, p. 152)

O respeito incondicional ao brincar e à brincadeira é uma das mais importantes funções da educação infantil, não somente por ser no tempo da infância que essa prática social se apresenta com maior intensidade mas, justamente, por ser ela a experiência inaugural de sentir o mundo e experimentar-se, de aprender a criar e inventar linguagens através do exercício lúdico da liberdade de expressão. Assim, não se trata apenas de um domínio da criança, mas de uma expressão cultural que especifica o humano.

Não bastam espaços, materiais e repertórios adequados, há a necessidade da presença de adultos sensíveis, atentos para transformar o ambiente institucional em um local onde predomina a ludicidade. É necessário que o profissional que atua diretamente com a criança pequena tenha conhecimento sobre a “cultura lúdica”, um amplo repertório que possa ser oferecido às crianças nas diversas circunstâncias e, principalmente, compartilhe a alegria, a beleza e a ficção da brincadeira. O adulto, ao ser tocado em seu poder de reaprender a espantar-se e maravilhar-se, torna este momento de aprendizado, um momento de regozijo entre ele e as crianças.

O brincar heurístico é uma abordagem, e não uma prescrição.


[…] um dos grandes méritos dessa abordagem é que ela libera a criatividade dos adultos e torna a tarefa de cuidar das crianças muito mais estimulante. (GOLDSCHMIED, JACKSON, 2006, p. 149), essa prática promove efeitos tanto no adulto responsável quanto da criança, pois o adulto também tem um papel fundamental, visto que, ele selecionará os materiais, assegurando que os objetos estejam adequados para o manuseio dos bebês, fará manutenção do material e/ou substituirá, iniciará a sessão oferecendo os objetos e os receptáculos, reorganizará os objetos durante a sessão sem que a criança veja, no final fará a coleta do material, recolhendo-o nas sacolas, e durante toda a sessão do brincar heurístico o adulto será observador, não poderá sugerir, estimular e nem elogiar o brincar.

Tal compreensão implica abandonar práticas habituais em educação, romper com a concepção de educação como “fabricação”, dizendo às crianças como devem ser, pensar, agir e o que devem saber. É o desafio de abandonar a ideia de educação como “formatação”, previamente definindo os caminhos para as crianças. A compreensão de que a dinâmica do mundo contemporâneo nos propõe muitas incertezas para o futuro, e que estas somente podem ser parcialmente solucionadas, torna-se importante pensar a ação educativa em sua dinâmica contraditória e viva, pois, imersa na cultura.

“No ato de brincar, os sinais, os gestos, os objetos e os espaços valem e significam outra coisa daquilo que aparentam ser. Ao brincar as crianças recriam e repensam os acontecimentos que lhes deram origem, sabendo que estão brincando.

O principal indicador da brincadeira, entre as crianças, é o papel que assumem enquanto brincam. Ao adotar outros papéis na brincadeira, as crianças agem frente à realidade de maneira não-literal, transferindo e substituindo suas ações cotidianas pelas ações e características do papel assumido, utilizando-se de objetos substitutos.

A brincadeira favorece a autoestima das crianças, auxiliando-as a superar progressivamente suas aquisições de forma criativa. Brincar contribui, assim, para a interiorização de determinados modelos de adulto, no âmbito de grupos sociais diversos. Essas significações atribuídas ao brincar transformam-no em um espaço singular de constituição infantil. Nas brincadeiras, as crianças transformam os conhecimentos que já possuíam anteriormente em conceitos gerais com os quais brinca.” (Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil. Vol 1. Pag 27)

Ao observar as crianças brincarem é importante atentar e registrar:
  • Tempo de concentração.
  • Intervenções feitas.
  • Materiais escolhidos e deixados de lado.
  •  Como interage com as outras crianças.
  • Se há troca de materiais entre as crianças.
  • Se repetem ou diversificam as brincadeiras.
  • Se pedem auxílio aos responsáveis, quando e por quê.
  • Se ajudam a guardar os objetos.
  • Entre outras situações inusitadas.

 


Referência:

 GOLDSCHMIED, Elinor. JACKSON, Sonia. Educação de 0 a 3 anos : o atendimento em creche / tradução Marlon Xavier. – 2. Ed. – Porto Alegre : Artmed, 2006.

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