Mundo de fantasias e mitos é o que o universo infantil gosta

Personagens infantis podem ajudar ou mesmo atrapalhar os pais na educação dos filhos. É por meio dela que os pequenos se desenvolvem e resolvem questões internas

Para grande parte dos adultos, brincar é apenas um passatempo próprio das crianças, enquanto elas enxergam a atividade como pura diversão. Muitos estudos, no entanto, já comprovaram que brincadeira é coisa séria quando se trata do público infantil. É por meio dela que os pequenos se desenvolvem, resolvem questões internas e recriam um mundo adequado aos seus filtros de compreensão. Nesse contexto, os personagens dos contos de fada e desenhos animados, ídolos dessa faixa etária, são importantíssimos não só para a educação, mas também para a construção dos valores e da personalidade.

No caso de Clara Cruz, de 3 anos e 11 meses, e Júlia Cruz, de 2, as princesas são, de longe, as preferidas. A funcionária pública e mãe das meninas, Flávia Cruz, conta que a mais velha é apaixonada pela Branca de Neve, enquanto a mais nova, apesar de seguir os passos da irmã, gosta da Cinderela e da Tinker Bell, a fada Sininho de “Peter Pan”, que ganhou filmes próprios devido à empatia com os espectadores mirins. Os DVDs com as histórias são assistidos sempre e, se Flávia permitir, elas vão fantasiadas para todos os lugares.

“Eu tive que colocar limites, já que elas queriam vestir roupa de princesa sempre que iam sair. A Clara vivia de coroa na cabeça e não tirava nem para ir à escola. Agora, tudo isso só é usado na hora de brincar ou nas festinhas de aniversário. Não sei por que elas gostam tanto, acho que é uma fase e que isso parte de uma influência do que assistem na TV e também das outras crianças com as quais brincam”, especula Flávia.

Clara, por sua vez, tenta explicar do seu jeito o porquê de tanto deslumbramento com as personagens: “Elas têm vestidos maravilhosos e são boazinhas porque deixam todo mundo entrar no castelo lindo delas”, afirma a pequena.

De acordo com a pedagoga Paty Fonte, idealizadora de vários projetos voltados para educação infantil, viver no mundo da imaginação é natural das crianças. Contudo, ela frisa que a interferência dos pais é, de fato, necessária para que os conteúdos sejam aproveitados positivamente. 

“Refletir junto com os filhos sobre a moral das histórias, por exemplo, faz com que eles levem esse aprendizado para o resto da vida. Quando não há esse diálogo, vai depender muito de cada criança e do que elas conseguem entender. Ao mesmo tempo, elas também precisam de um tempo para brincar sozinhas, já que é nesse momento que vão lidar com seus medos e emoções. Os personagens ‘dão um empurrãozinho’ nesse processo”, ressalta a especialista. 

Paty Fonte reforça, ainda, que os laços criados com determinadas figuras infantis também são reflexo do que é estimulado pela mídia e por determinadas estratégias de marketing que estampam os desenhos em diferentes tipos de produto, que vão desde roupas e brinquedos a materiais escolares. Exemplo emblemático pode ser dado pela Disney, que registrou a marca Princesas nos anos 2000, resgatando personagens como a própria Branca de Neve, e fazendo com que ela continuasse com o encantamento que exerce, principalmente sobre as meninas, desde o filme lançado na década de 30. 

Outra estratégia bem-sucedida foi a dos publicitários Juliano Prado e Marcos Luporini, que agradaram à meninada quando decidiram, em 2009, lançar o DVD “Galinha pintadinha e sua turma”, que inclui cantigas de domínio público, como “A Barata”, “Indiozinhos”, “Escravos de Jó” e “Marcha soldado”. O sucesso foi tanto que, em 2010, os sócios resolveram lançar o “Galinha Pintadinha 2”, que vendeu 10 mil cópias apenas no primeiro mês, garantindo o disco de platina duplo. O trabalho contou com as músicas: “Atirei o pau no gato”, “Alecrim Dourado”, “Sapo Cururu” e “Se Essa Rua Fossa Minha”.

Fã da animação, João Eduardo Nunes Pinto, de 2 anos e oito meses, não desgruda da TV enquanto assiste à Galinha Pintadinha. Ele está sempre cantando e dançando as músicas, além de gostar muito das roupas e dos brinquedos da personagem.

“Ele é muito ligado aos animais, então, acho que é o que acaba atraindo e fazendo ele se distrair. Enquanto isso, musicalidade e ritmo são trabalhados e as canções infantis populares são ensinadas a ele”, destaca a mãe e professora Lívia Nunes.

O menino também adora a série de televisão animada “Dora Aventureira”, exibida pelo canal fechado Nickelodeon, no bloco Nick Jr., e pela TV Cultura. O desenho de caráter educativo apresenta a simpática “Dora”, que junto com seu amigo “Botas”, um macaco que usa botas vermelhas, viaja o mundo para resolver confusões, fazendo os pequenos telespectadores aprenderem palavras em inglês.

“O João pode aprender muito sobre amizades e meio ambiente, além do novo idioma que começa a ser incorporado à rotina dele”, acrescenta Lívia, enquanto o pai do garoto, o bancário Marcos Aurélio Pinto, completa: “Nós aproveitamos essa fase porque sabemos que daqui a pouco ele vai crescer e provavelmente passará a gostar de outros programas não tão ‘certinhos’, como ‘Pica-pau’ ou ‘Tom & Jerry’, no qual um está sempre sabotando o outro. Será nesse momento que precisaremos ajudá-lo a diferenciar o que é certo do que é errado”.

É nesta fase que está Ana Clara Aguiar, de 6 anos, que adora o personagem “Pica-Pau”. Sua mãe, Andressa Aguiar, admite sua preocupação e conta que evita que a menina assista ao desenho.

“Eu dou preferência aos conteúdos mais educativos, porque nem todas as animações infantis transmitem bons exemplos a ela”, reconhece. As princesas e a boneca Barbie também são fortes influências para a pequena que ama cor-de-rosa e está sempre querendo todos os produtos relacionados às personagens.

A mãe de Ana Clara está certa ao colocar limites. Segundo a professora do curso de pedagogia da UERJ Cristina Aquino, já que nessa faixa etária os ídolos infantis viram uma espécie de modelo a ser seguido. Assim como Paty Fonte, ela destaca a importância da atuação dos pais e da escola, para que apenas a parte positiva das histórias sejam filtradas e aproveitadas pelos pequenos.

“Os personagens ajudam muito na educação ao darem exemplos de honestidade, ao serem leais a uma causa, ao lutarem contra as adversidades, e também podem ser aproveitados em ações rotineiras, como na hora da alimentação. Todo menino vai querer comer de forma saudável, se for para ficar forte e bonito como o super-homem, por exemplo”, garante Cristina, que faz questão de esclarecer: “Os pais devem frear situações de excesso. Pode ter algo errado se a criança não quer sair do mundo da fantasia, se ela só veste a roupa de um determinado personagem ou finge sê-lo o tempo todo. Ela pode estar vivendo a história para fugir de problemas de sua própria realidade”.

Diferente do que muitos pensam, apesar de maus, os vilões também têm seu valor para a educação do público mirim. Eles ajudam os pequenos a reconhecer suas fraquezas, a entender que nem todo mundo é perfeito, que ninguém é extremamente bonzinho, além de valorizar a existência do herói, conforme revelam os especialistas.

“Os aspectos negativos apresentados nos enredos das histórias infantis ajudam as crianças a reconhecer suas próprias características ruins e a lidar com suas limitações”, enfatiza Cristina Aquino. “No entanto, o fato de o bem sempre triunfar sobre o mal no fim das histórias é uma demonstração de que vale a pena ser bom e cultivar as boas ações”, conclui.

Dicas para ficar de olho nos pequenos

Esteja sempre atento aos conteúdos que seu filho assiste e procure sempre conversar com ele sobre o que interpretou e aprendeu com as histórias. Isso faz com que ele aproveite ao máximo as boas lições dadas por seus personagens favoritos.

Dê preferência aos desenhos educativos; Tente sempre propor novas brincadeiras e estimule o contato com outras crianças da mesma faixa etária;

Mostre que ele pode brincar e, às vezes, fingir ser o ídolo, mas que na maior parte do tempo precisará ser ele mesmo.

Coloque limites desde cedo. É importante ensinar à meninada que existem horários certos para brincar e para que desempenhem suas tarefas. Esse é um aprendizado rico para a vida inteira e, com certeza, fará diferença quando chegarem à complicada fase da adolescência.


Publicado no Jornal O Fluminense

Por: Juliana Dias Ferreira – 16/06/2013

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