Lendas e Mitos

Segundo Van Gennep, lenda, do latim legenda (o que deve ser lido), é narração localizada, individualizada e objeto de crença (considerando que o traço religioso é uma constante). A lenda tem localização no tempo e no espaço, conta um fato geralmente com conotação religiosa, pode possuir uma origem histórica, ou seja: um fato histórico analisado pela ótica popular, após contado e recontado, pode transformar-se em lenda. Exemplo: A lenda de São Sepé baseada na vida de Sepé Tiaraju, herói missioneiro.

Para Lima, “a lenda tem característica de diversas religiões, revela seu traço religioso e supostamente histórico”, é ficção embasada em fatos ocorridos em lugares conhecidos e com participação de personagens reais.

Segundo Moacyr Flores, “lenda é a narração de fatos enriquecidos com mitos, transformando a história em acontecimentos maravilhosos e os homens, em santos. A lenda se diferencia do mito por sua precisão geográfica e temporal, apresentando heróis que realmente existiram, mas que a imaginação popular recriou de geração em geração em resposta a seus anseios” …

Mircea Eliade considera que “o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo do princípio”. Diferente-mente da lenda, o mito é atemporal, não tem fixação no tempo nem no espaço. Os personagens dos mitos são sempre entes sobrenaturais e descrevem as diversas e, muitas vezes, dramáticas intervenções do sagrado ou do sobre-natural no mundo. De modo mais simplificado, pode-se dizer que o personagem mítico faz alguma coisa, tem uma ação.

A principal função do mito consiste em revelar os modelos exemplares de todos os ritos e atividades humanas significativas.

Para Moacyr Flores, “quando o mundo mental do homem primitivo não consegue explicar certos acontecimentos da natureza, recorre ao mito como resposta a uma visão ingênua e não histórica do mundo”. E, acrescenta ele, “o mito é um universo de sombras, imprecisões e acontecimentos sobrenaturais que se desenvolve no inconsciente coletivo popular, despojando o personagem do fato histórico de sua dimensão humana, transformando-o em herói ou super-homem lendário.

A dinâmica da herança social, através de sua interação, modifica e acrescenta elementos ao mito, de tal maneira que surge a lenda transformada e transcendendo à própria história”.

Nas sociedades arcaicas, o homem perguntava-se: Como? Onde? Por quê? E sempre que não possuía uma explicação lógica para algum fato, apelava para o sobrenatural e, nestas circunstâncias, tudo era aceito; o mito podia explicar qualquer coisa, desde a origem do mundo, do fogo, da água, até qualquer modificação nos fenômenos da natureza. Os mitos eram transmitidos através das gerações em rituais ou cerimônias nas quais os mais velhos iniciavam os mais novos no conhecimento dos segredos da criação.

Por outro lado, mito para Junito Brandão é “a linguagem imagística dos princípios”, representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo.

O Brasil é rico em lendas e mitos que poderão se transformar em recursos pedagógicos valiosos no processo de ensino e de aprendizagem.

Lendas

No Rio Grande do Sul, as lendas podem ser agrupadas em:

a) geográficas – que se referem à criação de determinados lugares. como: Osório (Conceição do Arroio), Soledade, Tupanciretã, Cruz Alta, Cacimbinhas (Pinhei-ro Machado), Passo da Areia ou Obirici, Lagoa Parobé (Cavalo Encantado), Lagoa do Caverá (Cervo Encantado) ;

b)missioneiras – que contam fatos da região das Missões: São Sepé (Lunar de Sepé), M’Bororé, M’Boiguaçu (Cobra Grande), Rio das Lágrimas;

c) de escravos – cuja origem remonta ao período de escrava-tura no Brasil, relacionadas aos negros: Santa Josefa, Torres Malditas (Igreja das Dores), Negrinho Antão (Sanga Funda), Cambaí (Iiio do Negrinho, São Gabriel) ;

d) campeiras – que têm a ver com as lides nas fazendas do Rio Grande do Sul, como é o caso do Negrinho do Pastoreio;

e) etiológicas – que explicam a origem e/ou o nome de algum lugar ou o porquê de alguma coisa, como as da criação do mundo, do homem, da mulher e do negro, as relacionadas à fuga da Sagrada Família, a da Festa do Céu, a do umbu, a do tico-tico, a do linguado e a da savelha, por exemplo.

Algumas lendas gaúchas

Tupanciretã – Diz a lenda que os padres jesuítas acompanhados por índios, ao entrarem mato a dentro procurando ervais, já ao cair da noite, foram surpreendidos por violento temporal. Desabrigados e cansados, parecia estarem entregues à fúria dos elementos, quando lhes apareceu, em meio à chuva, cercada por uma auréola de luz, a imagem de Nossa Senhora que, sorrindo, lhes apontava um lugar com a mão estendida. Os índios caíram de joelhos gritando Tupã-ci-re-tã (que quer dizer Terra da Mãe de Deus). Seguindo a indicação da mão de Nossa Senhora, encontraram abrigo numa pequena gruta existente no mato. No local, os padres fincaram a cruz de Cristo e ergueram uma capela, que poderia servir de abrigo a todos os que se perdessem no mato. Próximo à capela construíram um rancho. Esse arranchamento foi o início da cidade de Tupanciretã, em cuja praça principal está a imagem da Mãe de Deus, colocada no alto de um pedestal.

V Passo da Areia – Obirici – Em Porto Alegre, esta lenda possui estátua em logradouro público. Conta-se que Obirici era uma índia que se apaixonou pelo cacique. Tinha uma rival que também queria casar-se com o mesmo valente índio, que exigia que sua esposa soubesse manejar o arco e a flecha com grande destreza. As duas jovens apaixonadas decidiram disputar o amor do cacique num embate de arco e flecha. A que melhor atirasse casaria com o jovem. Jogaram e empataram; novamente jogaram e a mão de Obirici tremeu e a outra saiu-se melhor. Desesperada, a índia retirou-se para um lugar alto e sentou-se ao chão, chorando até morrer. Suas lágrimas abriram um canal: o riacho Passo da Areia.

Uma lenda brasileira

Vitória-Régia – Os velhos pajés das tribos da Amazônia contavam que, nos tempos do início do mundo, a Lua fazia seu passeio no céu e, quando terminava, desaparecendo atrás dos morros, escolhia uma jovem índia para transformar em estrela.

Naiá era uma moça indígena, filha de bravo cacique, mas muito diferente de suas irmãs de tribo. Era branca, de pele alva como o leite, os longos cabelos da cor das espigas de milho. Todos admiravam a beleza e a bondade da jovem. Ela desejava muito ser escolhida por Jaci (a Lua) para trans-formar-se em estrela cintilante.

A Lua não atendeu aos pedidos da jovem e ela, muito triste, todas as noites ia chorar perto do rio. E de tristeza foi definhando. Os curandeiros da tribo nada puderam fazer. A tristeza da jovem era maior do que seus conhecimentos.

Naiá passava as noites caminhando sob a luz do luar. Certa noite, já cansada de andar, sentou-se perto do rio e viu a imagem de Jaci refletida nas águas claras e serenas. Sem hesitar, a jovem jogou-se n’água para encontrar-se com a Lua que tanto amava, desaparecendo para sempre.

Durante muito tempo, os índios a procuraram inutilmente, mas ela não apareceu.

Jaci comovida atendeu ao pedido que as plantas da beira do rio e os peixes lhe fizeram e transformou a alma de Naiá numa linda flor que abre suas longas pétalas à luz da Lua. Assim surgiu a Vitória Régia, a bela flor do Amazonas.

Os caboclos a chamam de mururu, que significa: abre mais ou menos à meia-noite.

Mitos

Os mais conhecidos no mundo inteiro são os que se referem à criação do mundo, aos astros e estrelas, à criação do homem, da mulher, do fogo, da água, do fogo fátuo, enfim, aos fatos da natureza.

O Dilúvio, que pode ter originado o mito da água, aparece em todas as culturas, inclusive nas cristãs. O mito do fogo, que talvez tenha dado origem ao M’Boitatá, aparece também como lenda. Um dos mitos que contam a origem do fogo é o da Cobra Grande, a M’Boiguaçu, que comia outros animais. Depois do Dilúvio, ela passou a comer apenas os olhos dos animais mortos, ficando então luminosa. Ávida e insaciável, comeu tanto que estourou, espalhando a luz dos olhos dos animais que havia comido.

São muito conhecidos os mitos da criação do homem, da mulher e de outros animais. Quando Deus fez o mundo, o diabo, que na época era um anjo chamado Lúcifer, quis imitá-lo e tudo que Deus criava ele criava também, só que fazia errado ou mal feito. Deus criou o peixe, o diabo fez a cobra. Deus fez a águia, o diabo fez o corvo, Deus fez a pomba, o diabo fez o mor-cego.

Somente na região colonial italiana existe um mito que lembra os gnomos europeus: o sanguanel, o homenzinho vermelho que rouba crianças, trata-as bem e as devolve geralmente em lugares inacessíveis (em cima de uma árvore ou no meio de espinheiros).

Um mito gaúcho

Bruxa – É mito universal com variantes regionais. A crença mais comum é a de que a mulher nasce ou torna-se bruxa para cumprir uma sina. Acredita-se que, se um casal tiver tido sete filhas consecutivamente, a sétima será bruxa. Evita-se este fado fazendo a irmã mais velha batizar a mais nova. Torna-se bruxa (na concepção popular), a mulher que mantém relações sexuais com o compadre.

No Rio Grande do Sul, a bruxa não precisa, necessariamente, ser velha ou feia, (como é a bruxa européia, com uma verruga no nariz adunco); ela pode ser moça e até bonita. Olho-grande ou olho gordo é a arma que usa conscientemente para fazer o mal. Esse poder não só a bruxa possui; muita gente boa tem e não sabe.

As maiores vítimas da bruxa são as crianças, os animais e as plantas. Ela tem o mau costume de embruxar crianças. Suga a vida da criança pelo umbigo e, quando a criança sofre deste mal folclórico, o remédio é também folclórico: colocar figas nos pés e na cabeceira da cama do nenê e rezar três Ave-Marias, às 6 horas da manhã e às 6 horas da tarde, por três sextas-feiras seguidas. A maior arma contra a bruxa é a figa. Em quarto onde dorme criança pagã, deve-se conservar uma vela acesa para afugentar o perigo de ser embruxada (a bruxa não se aproxima de vela).

Para descobrir o nome da bruxa que embruxou a criança, a mãe (ou, na falta desta, a madrinha ou a avó) deve dizer três vezes no ouvido da criança o nome da pessoa de quem se suspeita. Se for a própria, a criança tem um estremecimento. Para desembruxar, espetam-se alfinetes numa camisinha da criança e saca-se no pilão. A bruxa sentirá as dores e ficará moída por muitos dias.

Existem casos também de casas embruxadas, nas quais ninguém consegue morar, tal a sequência de desastres que acontece. Se isso ocorrer, a casa deve ser desembruxada da seguinte maneira: limpa-se a peça maior da casa, de preferência a sala (tiram-se todos os móveis) e a dona da casa fica no meio da peça vazia e diz três vezes o nome da mulher que ela acha que é a bruxa. Deve ser a dona da casa, pois para o mal feito por mulher, mulher é quem tem que desfazer. Se acertar no nome, a bruxa em seguida aparece como por acaso.

Outra defesa contra a bruxa, muito usada na região de campanha, é a guampa com arruda dentro, fora da porta, ou atrás da mesma. A bruxa tem pavor de arruda e espirra quando está perto dessa planta. Esse é também um meio de identificar a bruxa. Uma réstea de alho tem o mesmo poder.

A bruxa gaúcha, diferentemente da européia, não usa vassoura, embora possa voar. Quando ela quer voar, transforma-se num borboletão preto e peludo. À noite, a bruxa anda a cavalo na campanha e trança as crinas dos mesmos. Ela monta o sinuelo (que comanda a tropa) e galopa toda a noite. A tropa acompanha. Quando amanhece, estão cansados e suarentos.

Alguns mitos brasileiros

Lobisomem – É um mito universal generalizado em todo o Brasil. A crença básica é a mesma: um homem que se transforma em cumprimento de uma sina ou fado. Existem inúmeras variantes de cunho regional.

Não é um homem mau, é uma vitima que tem um fado a cumprir. Deve fazer uma ronda nas noites de sexta-feira de lua cheia. Antes de morrer deve passar o seu fado para algum guri.

Nasce lobisomem o sétimo filho homem, se não for batizado pelo irmão mais velho, ou com o nome de Bento. Ou torna-se lobisomem o homem que mantiver relações sexuais com a madrinha de seu filho, ou mãe de seu afilhado, ou seja, a comadre. Uma variante bastante difundida é a que diz ser lobisomem o filho homem nascido depois de sete filhas. De qualquer forma, essa predestinação está ligada ao número 7, que a astrologia dos povos antigos acreditava ser fatídico.

Só se mata lobisomem com arma branca (faca, punhal). Não tem correspondente feminina.

M’Boitatá – Este mito universal que explica a origem do fogo é vigente em todas as regiões do Brasil, onde aparece com diversas designações.

Refere-se ao fogo fátuo, emanação de fosfato de hidrogênio, que é produto da decomposição de substâncias animais. E isso explica por que aparece sobre os cemitérios e nos campos, onde podem ser encontrados restos de animais mortos. Como o povo cria explicações sobrenaturais ou fantásticas para os fenômenos da natureza para os quais não possui o conhecimento científico, desse fato natural surgiu o mito e, com o mito, muitas outras lendas.

Dizem os antigos que o Boitatá é uma bola de fogo que corre sobre os campos ou sobre os cemitérios. Quem a vê deve ficar bem quieto, cerrar os olhos e fazer uma oração que ela desa-parece. Se for cavaleiro, deve jogar a armada do laço sobre a mesma que ela se desmancha e some no ar.

Aproveitamento didático

Lendas e mitos permitem desenvolver inúmeras atividades, em diferentes componentes curri-culares, como, por exemplo, em:

Língua Portuguesa

  • Narração de fatos, em sequência temporal e/ou causal.
  • Descrição de personagens, cenários e objetos contidos nas lendas e mitos estudados.
  • Leitura para buscar novas informações e por prazer.
  • Produção de textos individuais ou coletivos.
  • Uso de diferentes formas de fala e de registro da língua oral.
  • Criação de histórias em quadrinhos.
  • Comparação de lendas e mitos com outros textos literários do repertório infantil: fábulas e contos maravilhosos.
  • Expressão, de forma clara e ordenada, de sentimentos, idéias e opiniões.

Educação Artística

  • Criação de figurinos, cenários, painéis.
  • Confecção de máscaras, fantoches, bonecos.
  • Ilustração de textos.
  • Uso do corpo como forma de expressão e de comunicação.
  • Dramatização.
  • Uso de desenho, pintura, colagem, modelagem.

Ensino Religioso

  • Estudo de fatos bíblicos, a partir das lendas que se referem a santos, nascimento e morte de Jesus Cristo, fuga da Sagrada Família.

História e Geografia

  • Localização no tempo e no espaço dos fatos contados, através das lendas e mitos.
  • Sinais de lendas e mitos na paisagem cultural atual.

BIBLIOGRAFIA

  • BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega s.n.t.
  • BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria do Ensino Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais. Artes. Brasília, 1996. Versão preliminar. Parâmetros curriculares nacionais. Conhecimentos históricos e geográficas. Brasília, 1996.Versão preliminar.
  • Parâmetros curriculares nacionais. Língua Portuguesa. Brasília, 1996. Versão preliminar.
  • Parâmetros curriculares nacionais. Pluralidade cultural. Brasília, 1996. Versão preliminar.
  • ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo :Perspectiva, 1994.
  • FLORES, Moacyr. Colonialismo e missões jesuíticas. Porto Alegre : Mercado Aberto, s.d.
  • RIBEIRO, Paula Simon. Folclore, aplicação pedagógica. Porto Alegre : Martins Livreiro, 1991.
  • RIO GRANDE DO SUL. Secretaria da Educação. Departamento Pedagógico. Padrão referencial de currículo. Porto Alegre, 1996. Documento básico.

PAULA SIMON RIBEIRO – Pós-Graduada em Folclore e em História das Artes. Professora de Educação Artística. Membro Efetivo da Comissão Gaucha de Folclore. Porto Alegre/RS

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