Escrita espelhada – o que fazer?

Espelhar letras e números é comum no início da alfabetização, já que as crianças estão sistematizando suas hipóteses em relação a escrita. Para que elas adquiram o entendimento, que nós adultos temos que a escrita inicia da esquerda para a direita (no caso da cultura ocidental), algumas noções anteriores ao papel devem ser bem trabalhadas. É importante lembrar que essa regra varia em outras culturas, como a árabe e a hebraica que escrevem da direita para a esquerda, ou ainda os chineses, que escrevem de cima para baixo.

A aquisição da escrita é posterior à aquisição da linguagem e posterior a um nível específico de maturidade motora humana.

Segundo Esteban Levin (2002: 161), o ato da escrita em si, não depende somente do ato biológico, mas de toda uma estrutura que provém do sistema nervoso central,

[…] o que escreve é um sujeito-criança, mas, para fazê-lo, necessita de sua mão, de sua orientação espacial (lateralidade), de um ritmo motor (relaxamento-contração), de sua postura (eixo postural), de sua tonicidade muscular (preensão fina e precisa) e de seu reconhecimento no referido ato (função imaginária).

Existem três domínios principais que precisam ser ensinados para que uma pessoa tenha autonomia no ato de escrever: o domínio linguístico, o domínio gráfico e o de conceitos de letra e texto. A escrita como um sistema organizado manifesta nossa capacidade de simbolizar.  É complexo e sua aquisição demanda o domínio das várias dimensões que o compõe, por exemplo, além da segmentação, as crianças precisam adquirir no domínio gráfico, noções de esquerda para a direita, de cima para baixo.

Em contrapartida, para Piaget, as atividades mentais, assim como as atividades biológicas, têm como objetivo a nossa adaptação ao meio em que vivemos. De acordo com essa postura teórica a mente é dotada de estruturas cognitivas pelas quais o indivíduo intelectualmente se adapta e organiza o meio. Toda criança, a partir dessa perspectiva nasceria com alguns esquemas básicos – reflexos – e na interação com o meio iria construindo o seu conhecimento a respeito do mundo, desenvolvendo e ampliando seus esquemas.

A ideia, então, é oferecer atividades para tentar superar as hipóteses iniciais, provocando desequilíbrios para que novas assimilações e acomodações ocorram. Por isso é necessário fazer sempre a análise e a reflexão linguística das palavras, confrontando as hipóteses de escrita dos alunos com a escrita convencional. Também é fundamental propiciar atos de leitura e escrita às crianças para que aprendam ler lendo e a escrever escrevendo, por meio de atividades significativas e contextualizadas. Elas deverão ler textos mesmo quando ainda não sabem ler convencionalmente, apoiando-se inicialmente na memória e ilustração.

SUGESTÕES DE ATIVIDADES

Antes de sistematizar a escrita “no papel”, diversas outras atividades envolvendo o corpo devem ser bem desenvolvidas, pois tudo que sentimos através do nosso corpo, torna-se mais significativo. Nesse sentido sugerimos:

Atividades com balão

Tentar manter o balão no ar, somente batendo nele com a mão direita, após somente com a mão esquerda.

Jogo de orientação espacial

Dependendo da idade da criança, pode-se colocar uma fita no braço, ou perna sinalizando o lado direito (ou esquerdo). Coloca-se no chão algo delimitando o espaço, por exemplo 3 colchonetes. A criança fica posicionada no colchonete do meio, e o professor diz: direita (ele deve passar para o colchonete correspondente), esquerda ou meio. Também, após terem dominado estas noções, pode ser colocado outros 3 colchonetes na frente da criança, sendo que outra participe da atividade, demonstrando que ao se posicionarem uma frente a outra, o ato de pular para a direita de uma, irá mostrar-se diferente do ato de pular para a direita de outra.

Brincar de Robô

Uma criança é o robô, e seu parceiro é o guia. Auxiliados pela professora, combinam sinais de movimentação do robô. Por exemplo, se o guia tocar o lado esquerdo da cabeça do robô, esse vira para a esquerda; se tocar o lado direito, vira à direita; se tocar o alto da cabeça, o robô abaixa, e assim por diante. Algum tempo depois, invertem-se os papéis, sendo que o guia vira robô, e o robô vira guia. Depois disso, a brincadeira é feita com deslocamentos. As duplas combinam os sinais de movimentação. Por exemplo, um toque na parte de trás da cabeça é sinal para o robô ir adiante; um toque nos ombros é sinal para que ele pare.

Brincar de espelho

Inicialmente cada aluno faz as atividades sozinhos, ou seja, a professora diz, mostrar a mão direta, colocar o pé esquerdo ao lado da cadeira, colocar a mão esquerda no olho esquerdo, encostado no cotovelo direito  no joelho direito, e ir dizendo várias situações. Mas para brincar de espelho, cada um ficará de frente a um colega e deverá seguir as instruções dadas pela professora, porém localizando no outro.

Que letra é essa?

Nas costas do aluno o professor faz com o dedo uma letra e o mesmo deve dizer qual é.

Caminhar sobre as letras

No chão, fazer o traçado de letras ou palavras e os alunos devem caminhar sobre as mesmas, seguindo a ordem que o traçado deve ser feito.

Escrita com água

Os alunos podem molhar o dedo na água e vir ao quadro passar o dedo sobre o traçado das palavras.

 Escrita na areia

No chão, escrever com o dedo, ou palito de picolé, o traçado de palavras.

Modelagem de palavras

Usando argila ou massa de modelar, escrever palavras modelando letra por letra.

Alfabeto Vivo

Representar as letras do alfabeto utilizando o próprio corpo.

Classificar

Letras retas e letras com curva. EX:

RETAS                                                          CURVAS

A   T  V  M…                                                   S  C  P  O…

Explorar cada uma delas. Contar quantas pontas tem o H; quantas retas tem M, V, E; quantas curvas tem o C, P, B.

Simetria e Assimetria

Com letras simétricas: A, I, M, H, O, T, U, V, X, W, Y
Fazer metade da letra e deixar que as crianças completem.

Com letras assimétricas: B, C, D, E, F, G, J, K, L, N, P, Q, R, S, Z

Listar as letras em várias posições e pintar a certa.

Desenhar letras no ar

Fechar os olhos e deixar que a professora segure uma das mãos e trace no ar uma letra para a criança identificar. Em um segundo momento, todos juntos devem imitar o movimento da professora no ar e tentar descobrir qual é a letra.

Caixa de texturas

Dentro da caixa, colocar letras do alfabeto móvel em diferentes tamanhos e texturas para a criança descobrir qual é. Variar com objetos, identificando a sua letra inicial.

Letras na lixa

Escreva as letras nas lixas (em tamanho grande). Peça que a criança passe o dedo em cima de cada uma (no mínimo 3 vezes), contornando-a no sentido correto. Em seguida, deve escrever no papel a letra que acabou de contornar.


Referências e dicas de leitura

BOSSA, Nádia. Dificuldades de Aprendizagem: o que são e como tratá-las. Porto Alegre: ARTMED, 2000.

DEHAENE, Stanislas. Os Neurônios da Leitura: Como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Penso, 2012.

FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

LEVIN, Esteban.  A Infância em Cena. Petrópolis: Ed. Vozes, 2002.

Um comentário em “Escrita espelhada – o que fazer?

  • 1 de maio de 2018 em 12:51
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    Amei as atividades, trabalho com crianças especiais DI, e tenho tentado alfabetizar, mas só no papel fica impossível…

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