Escola, responsáveis e o brincar

Toda atividade oferecida a um sujeito influencia sua vida em diferentes fatores. O problema é o seguinte: facilita ou não o desenvolvimento intelectual, motor, afetivo e social? Somos seres complexos com sistemas nervosos sendo influenciados pelas interações junto ao meio ambiente (estímulos), mas ainda assim somos únicos quando, depois de esses estímulos serem assimilados e adquiridos, há sua evocação em termos de comportamento intelectual, motor, afetivo e social. É neste momento que observamos se o sujeito aprendeu ou não (memória de longo prazo). E um dos recursos importante para o desenvolvimento de uma memória forte e de qualidade é a brincadeira / o jogo. Fora aprender sobre um jogo / uma brincadeira e suas regras; um sujeito pode desenvolver formas de autoconhecimento, de relação com os outros (+ empatia); de resiliência; de expressão verbal e não verbal; etc.

Mas, no ano pandemônico de 2020, escolas e educação foram obrigadas a reverem suas dinâmicas pedagógicas, envolvendo o ambiente virtual, da melhor maneira possível; e, de novo, observou-se que a maioria dos responsáveis, bem inseguros quanto a continuidade da aprendizagem de seus filhos, focou-se no CONTEÚDO. A leitura sobre a aprendizagem integral quase não aparecia em suas preocupações. ‘Como ficam os conteúdos?” – sempre perguntavam. Uma pena!

Em termos do ‘fica em casa’, escola e educação tiveram a oportunidade de se repensar, incluindo diferentes recursos (ensino remoto e híbrido) e, principalmente seus planejamentos. Não havia planos para tal momento, então a experiência de ensino remoto e híbrido foi sendo construída e reconstruída em meio a várias discussões, ajustes e, lógico, replanejamentos. E quando nos referimos ao ensino infantil, neste tempo, a questão do lúdico é retomada com força total. Todos os conteúdos são oferecidos através do lúdico, do corpo, do estímulo ao prazer e aos sentidos, mesmo em ambiente virtual. Então o que mudou? As crianças estão em casa e a parceria dos responsáveis é obrigatória.

Para esse tempo de exceção, o ato de brincar / jogar deve ser muito valorizado, principalmente em casa, quando as crianças também não entendem a suspensão das suas atividades diárias na escola. Seus olhares desejosos e/ou inseguros se voltam para os responsáveis. Seus sentidos necessitam de manutenção funcional para continuarem se desenvolvendo, principalmente, nas questões socioafetivas. Em casa, junto aos responsáveis, é a hora de outras aprendizagens mais relacionais, de controle emocional, de acesso à noção de empatia, de ajustes em suas habilidades socioemocionais etc. Junto às atividades escolares replanejadas, esses são os CONTEÚDOS mais importantes a serem oferecidos às crianças AGORA.

Conteúdos apresentados em dinâmicas lúdicas ou gamificadas, além de geraram neurotransmissores de prazer, bem-estar, positividade e satisfação, incentivam a presença da imaginação e da criatividade. Brincar, em grupo ou de forma individual, introduz e trabalha diferentes símbolos e abstrações, cuja continuidade constrói o chamado ‘pensamento estratégico’. Na brincadeira a criança tem a liberdade de agir, criar e dar significado a sua ação; e experimenta compreender a ação do outro com mais liberdade. São conhecimento e autoconhecimento se qualificando e gerando elementos que podem, no futuro, ajudá-la a entender e modificar seu mundo e formas de interagir, com qualidade. Brincar é aprender a inventar criando memórias sobre si mesmo em situações que AINDA não passou. É uma preparação para o mundo real, profissional e afetivo.

Em tempos pandemônicos, brincadeiras e brinquedos também servem para aplacar ansiedades, medos e inseguranças; principalmente quando TODOS brincam juntos ou, ao menos, riem juntos. As atividades pedagógicas oferecidas, em ambiente virtual, incluem os conteúdos necessários para o desenvolvimento cognitivo das crianças, mas também incentivam o desenvolvimento sensório-motor quando, para desenvolvê-las, as manifestações artísticas básicas são necessárias, como desenho, pintura, música, literatura, história em quadrinho e dança. E as professoras estão presentes para ajudar. E os responsáveis também devem estar.

Brincadeira, brinquedo, jogo são recursos de formação cultural e social. E em tempos pandemônicos, esse é o conteúdo necessário para que criemos uma geração que saiba o que fazer de si, por exemplo, quando hábitos e estilos de vida são alterados, independentemente de sua vontade. Essa é a ‘onda’ da chamada ‘aprendizagem significativa’ ou ‘participativa’ ou mesmo ‘construtivista’.

Diante da desregulação do funcionamento do sistema nervoso humano por causa de um vírus, é a hora de REPENSAR, RENOVAR e INOVAR o pensamento habitual de que muito conteúdo gera aprendizagem. É hora de mais afeto, mais vínculo, mais segurança, mais proximidade, mais parceria entre todos os responsáveis para FORMAÇÃO interrelacional, mais do que APRENDIZAGEM cognitiva; é hora da FLEXIBILIDADE cognitiva e do CONTROLE inibitório; e é hora de aprendermos a ESCUTAR, sentir e agir, em respeito ao futuro de nossa sociedade.

Pais e responsáveis, talvez tenhamos que manter o ensino remoto e/ou híbrido por muito mais tempo. Logo mude seu jeito de pensar e aproxime-se da escola como coadjuvante no processo de aprendizagem de seu filho para o ano de 2021, principalmente se ele estiver no Ensino Infantil, e entenda que o BRINCAR, enfatizando os conteúdos, tornara seu filho um ser social com mais qualidade e integridade, no futuro.


Claudia Nunes é uma das autoras do livro Mentes fora do lugar comum.
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Prof.ª Ma Claudia Nunes – Graduada em Letras (Portugues/Literatura) pela UVA. Mestra em Educação pela UNIRIO. Especialista em Tecnologia Educacional, em Neurociência Pedagógica e Psicopedagogia pela AVM-UCAM. Professora do Ensino Médio (SESI / Estado-RJ). 22 anos em sala de aula.
Blog: e-pesquisadora.blogspot.com.br

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