Era uma vez… A Singularidade da Literatura Infantil no Reino Encantado da Aprendizagem.

“Se quiser falar ao coração dos homens, há que se contar uma história. Dessas onde não faltem animais, ou deuses e muita fantasia. Porque é assim – suave e docemente que se espertam consciências.” Jean de La Fontaine

Muitas vezes nos lembramos com saudade das histórias contadas em nossa infância. Sem dúvida, para muitos, as narrativas dos clássicos infantis que nos provocavam identificações de algum modo com os personagens eram as preferidas, pois esses momentos eram “mágicos”, prazerosos, inesquecíveis. A intensidade dessa interação, por perdurar até hoje se acredita que as histórias voltadas às crianças, incluindo os Contos de Fadas, podem proporcionar uma infância marcada pelo encantamento. Encantamento esse que comove e estimula os sentimentos, bem como a idéia de que através das histórias as crianças têm a oportunidade de ampliar, transformar e enriquecer sua própria experiência de vida, pois, ouvir e ler histórias é aprofundar-se num mundo curioso, repleto de surpresas, quase sempre muito atraente e mesmo encantador, que diverte e ensina. O contato com histórias, particularmente com os Contos de Fadas, possibilita à criança aprender brincando em um mundo de imaginação, sonhos e fantasias. Os contos de fadas vêm mobilizando milhares de crianças, jovens e adultos durante muitas décadas. Muitos trazem lembranças, sejam boas ou más, de algum conto em particular. Como cada um vivencia um conto é único. Conforme descrito por Amarilha (1997, p. 31):

“A lembrança da leitura, o impacto dos eventos e reflexões experimentados no contato com o texto podem perdurar por toda uma vida […]”. “O lúdico não está só no brincar, está também no ler, no apropriar-se da literatura como forma natural de descobrimento e compreensão do mundo.”

A sociedade atual, globalizada, está cada vez mais se tornando individualista e em busca de uma beleza externa perfeita, enquanto o mágico se esvai prematuramente. Todos os dias há muitas notícias de violência na televisão, bem como muitos programas que expõem a criança a uma sexualidade precoce. Seja programa infantil, novela ou “reality shows”. Uma reportagem da revista Educação apresenta-nos que os partos cresceram em 31% entre meninas de 10 a 14 anos – idade que a menina não tem maturidade psicológica, principalmente para criar um filho. As dúvidas e as angústias por que passam crianças e jovens, são hoje respondidas de forma erotizada pelos meios de comunicação, especialmente a televisão. Sem contar o fácil acesso a sites da internet.

Foto: Jardim Escola Nossa Senhora da Ajuda

É sabido que o resgate da magia da leitura dos contos de fadas não será a solução dos problemas mundiais, no entanto, como eles atuam também no inconsciente, podem ajudar muito a criança a eliminar/entender o(s) conflito(s) pelo qual está passando no momento que entra em contato com a leitura e/ou a escuta deles.

“Crianças que têm mais contato com literatura infantil adiam o fascínio pela violência”, disse o psicólogo e fonoaudiólogo Carlos Brito, professor da Universidade Católica de Pernambuco. Segundo Brito, o contato sistemático dos alunos da escola construtivista com a literatura infantil, principalmente com contos de fadas, estimula as crianças a lidar com a imaginação, exteriorizando a agressividade de maneiras sadias. O mesmo não ocorre com alunos da escola tradicional, que associam a leitura às provas e notas e preferem os jogos eletrônicos. “Por isso, é importante que a escola enfatize o aspecto lúdico na educação e não apenas o conteúdo das disciplinas”, disse.

É possível afirmar que a leitura faz-se muito importante em nossa vida, pois ela permite que possamos aprender, ensinar, evoluir. A sua grandiosidade não deve ser compreendida unicamente como alfabetização, como um ler corretamente, mas também como uma leitura que consenti a interpretação, a compreensão daquilo que se lê. De acordo com CAGNETI, A literatura infantil desenvolve não só a imaginação das crianças, como também permite que elas se coloquem como personagens das histórias, das fábulas e dos contos de fada, além de facilitar a expressão de idéias. Sendo assim, o objetivo da literatura infantil é o de formar leitores, pois por uma série de características e fatores ela desempenha esse papel melhor do que a literatura adulta, uma vez que é mais convidativa. O que se procura hoje é assegurar ao maior número de pessoas possível o direito de ler. “A literatura infantil contribui para que não se deixe esta tarefa por acaso…” (1986, p.21)

Existem diversas interpretações e análises para os contos de fadas. É importante ressaltar que este artigo tem como respaldo a linha psicanalítica, levando em conta as teorias de Sigmund Freud e Jacques Lacan.

“Não é surpreendente descobrir que a psicanálise confirma nosso reconhecimento do lugar importante que os contos de fadas populares alcançaram na vida mental de nossos filhos. Em algumas pessoas, a rememoração de seus contos de fadas favoritos ocupa o lugar das lembranças de sua própria infância; elas transformaram esses contos em lembranças encobridoras”. (Freud, 1913:355).

À luz da psicanálise, os contos de fadas revelam os conflitos de cada um e a forma de superá-los e recuperar a harmonia existencial. Assim, a tão famosa dicotomia entre o bem e o mal se presta numa terapia, a uma análise mais contundente da personalidade, na qual se permite trabalhar com sentimentos inconscientes que revelam a verdadeira personalidade (CEZARETTI, 1989: 26).

Através dos Contos de Fadas, a criança vê representados no texto, simbolicamente, conflitos que enfrenta no seu cotidiano e encontra soluções para eles, pois as histórias em geral trazem um final feliz. Uma vez que os Contos de Fadas e as histórias infantis apresentam tamanha importância, cabe aqui enfatizar a relevância do papel exercido pela Escola e pelos professores – assim como pelos pais e por outros adultos que convivem com a criança – ao contar histórias. Fortuna (2005, p.2) aponta o seguinte:

“É fundamental: conversar sobre o que as crianças estão pensando a respeito do conteúdo das histórias, seu tema, a época e as condições em que a trama se passou. Mas, cuidado: não cabe ao adulto ‘moralizar’ as histórias, com frases do tipo “viu o que acontece quando não se obedece à mamãe?”O importante é que as hipóteses da criança possam ser externadas através da elaboração secundária, e que o adulto possa acolher o conteúdo de seu universo psíquico, em lugar de tentar dirigi-lo. Isto implica, da parte do adulto, muita generosidade, altivez e capacidade de brincar com a criança.

Analisando as considerações aqui mencionadas, é imprescindível salientar que é muito importante para as crianças as situações de interação, contato e manuseio de materiais escritos para a sua evolução e aprendizagem da leitura e da escrita. Mas, será ainda mais enriquecedor se este contato e manuseio forem com histórias de literatura infantil, pois os desenhos maravilhosos que se encontram explícitos nos livros são como uma chamada, um convite que fascina a criança, proporcionando-lhe interesse e prazer. Sendo assim, é preciso oferecer às crianças, oportunidades de leitura de forma convidativa e prazerosa. E é nesse sentido que a literatura infantil desempenha um importante papel, o de conduzir as crianças não só à aprendizagem, contribuindo para uma sistematizada escrita, (como é o caso das fábulas), mas que permita que se realize a leitura com fruição, isto é, que se sinta prazer ao estar lendo. E isso é ótimo, pois é fundamental que as crianças sintam o gosto pela leitura. A literatura possibilita então, que as crianças consigam redigir melhor desenvolvendo sua criatividade, pois, o ato de ler e o ato de escrever estão intimamente ligados. Nesse sentido, “a literatura infantil é, antes de tudo, literatura; ou melhor, é arte: fenômeno de criatividade que representa o mundo, o homem a vida, através da palavra. Funde os sonhos e a vida prática, o imaginário e o real, os ideais e sua possível/impossível realização…” (COELHO, 2000, p.27).

O Referencial Curricular Nacional aponta a importância da leitura de histórias infantis:

“A leitura de histórias é um momento em que a criança pode conhecer a forma de viver, pensar, agir e o universo de valores, costumes e comportamentos de outras culturas situadas em outros tempos e lugares que não o seu. A partir daí ela pode estabelecer relações com a sua forma de pensar, e o modo de ser do grupo social ao qual pertence. As instituições de educação infantil podem resgatar o repertório de histórias que as crianças ouvem em casa e nos ambientes em que frequentam, uma vez que essas histórias se constituem em rica fonte de informação sobre as diversas formas culturais de lidar com as emoções e com as questões éticas, contribuindo na construção da subjetividade das crianças” (RCN, 1998, vol.33, p.143).

Trabalhando com os contos de fadas, os alunos constroem e reconstroem significados para as histórias e desenvolvem o prazer da leitura. A magia da ficção está ligada aos contos de fadas. O famoso “Era uma vez…” é a tecla play do imaginário das crianças, capaz de dar movimento, luz e som aos sonhos vida afora e expulsar o medo do escuro. A disponibilidade para a ficção na idade adulta depende do que é capturado nessa primeira fase da vida, assim como nosso equilíbrio entre real e irreal, entre o prosaico e o imaginado. “A infância é a época em que essas fantasias precisam ser nutridas”, escreve o psicólogo austríaco Bruno Bettelheim (1903-1990) em A Psicanálise dos Contos de Fadas. Isso porque, sendo um estágio que vai definir grande parte da nossa personalidade futura, a infância é o terreno mais fértil para plantar os sonhos e despertar os pequenos para a necessidade da invenção para enfrentar a realidade.

“ERA UMA VEZ uma criança que adorava ouvir histórias… ela nada mais esperava que viver cada momento, mas a cada passo dado neste seu mundo de sonhos e fantasia, pouco a pouco, sem o perceber, ia encontrando um sentido para a vida…”(Paulo Urban, Revista Planeta, junho/2001)

Diante disso, a análise de dados obtidos e as reflexões aqui realizadas nos remete à conclusão que o lidar com a fantasia na literatura infantil, sobretudo nos contos de fadas, é um recurso fundamental no processo do desenvolvimento humano porque favorece a comunicação via imagens simbólicas com as dimensões mais profundas da nossa Psique. Através dos contos de fadas adentramos magicamente à penumbra misteriosa do nosso inconsciente, condição básica para se conhecer o significado profundo de nossa vida.

“E quanto àquela criança que adorava ouvir histórias? O mais importante que resta disso tudo é que nunca esqueçamos a lição… crianças, jovens ou adultos, no mundo das fadas todos seguimos encantados e… FELIZES PARA SEMPRE !” Paulo Urban

Referências:
  • AMARILHA, Marly. Estão mortas as fadas?: Literatura infantil e prática pedagógica. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
  • BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
  • CAGNETI, Sueli de Souza. Livro que te quero livre. Rio de Janeiro: Editorial Nórdica
  • CEZARETTI, Maria Elisa. Nem só de fantasias vivem os contos de fadas. Família Cristã. São Paulo, p. 24-26, maio 1989.
  • COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 20
  • FORTUNA, T. R. 2005. O fascínio das canções, histórias e desenhos infantis. Criar: Revista de educação infantil, São Paulo, ano I, n. 3, p. 20-21, mai/jun.
  • FREUD, Sigmund. A ocorrência, em sonhos, de material oriundo de contos de fadas. Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XII, 1913.
  • URBAN, Paulo Revista Planeta, junho/2001.

Marjorie Calumby Gomes de Almeida.
Psicopedagoga clínica e institucional.
Porto Alegre –  RS.

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