Ensinar História utilizando imagens

Ensinar História através da utilização de imagens é sempre uma possibilidade prazerosa para alunos e professores. Elas nos fazem viajar e ajudam a construir panoramas visuais de conteúdos que por vezes parecem muito distantes do nosso cotidiano. Vivemos em um mundo muito imagético, mas é preciso ter cuidado com os usos em sala de aula. Ao trabalhar com esses recursos, é importante pontuar o caráter de representação das imagens técnicas, sejam elas estáticas (fotografias, desenhos, etc.) ou em movimento (vídeos, filmes). Uma conversa inicial com seus alunos pode girar em torno do conceito de representação. Vejamos um exemplo:

O que você vê na imagem abaixo?

Aposto que você respondeu que vê um cachorro, não é mesmo? E a resposta está errada. Você, na verdade, vê uma representação imagética de um cachorro. O cachorro contido na imagem não late, tampouco abana o rabo. A imagem, nesse caso, remete a um cachorro real. As imagens fotográficas tendem a nos confundir por sua aproximação com a realidade, com desenhos e pinturas fica um pouco mais fácil de pontuar essa discussão. Isso é interessante enquanto fundamentação para a compreensão crítica das imagens históricas.

“Vendedora de pão-de-ló”. Jean-Baptiste Debret, 1826.

Por muito tempo as imagens utilizadas no ensino de História apareciam, e ainda aparecem eventualmente, como meras ilustrações de conteúdos. Temos o exemplo bem comum que é o das obras de Jean-Baptiste Debret, pintor integrante da “Missão Francesa” e que veio ao Brasil após a vinda da família real, famoso por retratar o Rio de Janeiro oitocentista e tido como pintor da corte. Em diversos livros didáticos e salas de aula ao longo da história, as obras de Debret foram utilizadas para exemplificar imageticamente como era o Rio de Janeiro do século XIX. Mas as obras de Debret estavam inseridas dentro de um contexto de produção e relacionam-se com o seu ponto de vista da cidade.

Uma forma de discutir as representações imagéticas é traçar paralelos com outras maneiras de se representar o mundo. Façamos um exercício. Suponhamos que aconteça uma batida de carro na frente da escola e que diversos alunos e professores acompanhem o acontecimento. Alguns alunos irão escrever sobre a batida, outros irão desenhá-la, professores irão contar uns aos outros e também de posse de seus celulares irão fotografar o acontecido. Todas as representações serão iguais? E mais, quem não esteve presente no momento da batida receberá da mesma forma essas representações distintas?

Essas perguntas são sempre acompanhadas de um debate que é fundamental quando tratamos do ensino de História: os pontos de vista. Se num momento passado de cunho positivista a História tinha um tratamento factual e de análises generalizantes, hoje temos que ressaltar a existência de uma diversidade na compreensão dos fatos, processos e transições ao longo do tempo. Lembremos sempre, que nas turmas de Ensino Fundamental, trabalhar com os conceitos históricos, tem tanta importância quanto os conteúdos programados. Sendo assim, trabalhar com imagens é antes discutir o conceito de representação.

Passemos para um último exercício. Vejamos duas representações de Napoleão Bonaparte. A primeira de David Alps em 1800 e a segunda de Hippolyte Delaroche em 1845.

Ainda que não saibamos o contexto específico de produção das obras, é possível perceber duas representações absolutamente distintas de Napoleão Bonaparte. A partir delas é possível buscar algumas questões geradoras para o debate em sala de aula:

  • Qual das duas imagens poderia representar um grande conquistador?
  • Em qual fase da trajetória de Napoleão Bonaparte você associaria cada uma das imagens?

Outra opção seria pedir que os alunos criassem legendas para cada uma das imagens, percebendo as diferentes interpretações possíveis para as representações. Cabe ressaltar o potencial de desconstrução de figuras célebres da História a partir desses debates, inserindo-as em seu processo histórico de produção e recepção.

Em um mundo cercado por imagens de todo o tipo, é papel do professor auxiliar seus alunos a perceber criticamente o que recebem, entendendo que inúmeros são os modos de ver. Em se tratando das imagens no ensino de História, os olhares devem ser sempre desconfiados, evitando a naturalização que muitas vezes relega as representações visuais a meras ilustrações.


Ana Beatriz Domingues – Professora de História e Arte-Educadora. Especialista em Gestão Escolar e atual mestranda em Educação pela UERJ com a pesquisa intitulada “Educação na web: experiência em blogs de professores de história na Educação Básica“. Autora do blog “Ensinar História”. Email: praticahistoria@gmail.com

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