Emoções que transformam

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – incluiu o ensino das competências socioemocionais nas escolas. Mais do que uma exigência documental é uma necessidade. Nosso século é marcado pela tecnologia e por transtornos emocionais.

Assustadoramente aumentam os índices de problemas psíquicos entre crianças e jovens. Cresce a cada dia o número de jovens que se mutilam. A automutilação atinge adolescentes no Brasil e no mundo. Pesquisas indicam que 20% dos jovens sofrem desse mal. Além disso, em nosso país, as taxas de suicídio cresceram na população em geral, sendo hoje a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

Desde muito cedo o aspecto cognitivo é priorizado. Nesse sentido, as crianças crescem competentes intelectualmente e apresentam problemas sérios de fundo emocional. É alarmante o índice de violência, intolerância e bullying nas escolas.

Tais problemas atingem todas as camadas da sociedade. Entretanto, àqueles que vivem sem a estrutura financeira necessária, com maior nível de desestruturação, moram em comunidades, nos preocupam duplamente, pois necessitam de oportunidade para uma educação plena.

Pense: O que leva um ser que nasce em uma comunidade, em uma situação desfavorável, a persistir, acreditar em seu potencial e tornar-se bem-sucedido?

O que faz a diferença na vida dos indivíduos?

A diferença se faz na formação de um ser humano integral e único.

O ser que desenvolve seu cérebro a partir de experiências de vida. Experiências essas relacionadas aos seus cinco sentidos, a sua capacidade de interiorizar-se e também de relacionar-se.

O ser que reconhece suas capacidades e sabe quais são seus limites.

O ser que busca ampliar as diversas habilidades, mas identifica aquilo que faz de melhor e sente prazer nisso.

O ser que é resiliente e aprende com os erros, ressignificando-os.

O ser que estende a mão, dá as mãos, pois sabe que não fará nada sozinho, então coopera mais e compete menos.

O ser que teve a oportunidade de brincar na infância.

Apenas a razão não supre a formação profissional de um indivíduo, levando em consideração as necessidades humanas que cada um apresenta, sejam elas emocionam ou sociais.

A escola é o grande espaço socializador e não se traduz na frieza dos conteúdos disciplinares, mas na junção do cognitivo com o emocional. Aprendemos na interação, pela emoção e não apenas pelo intelecto. Nossos sentimentos norteiam um desenvolvimento efetivo ou não.

Por todo Brasil existem experiências encantadoras e inspiradoras que nos levam a crer que existe esperança em um futuro mais justo, pacífico e igualitário.

Uma destas experiências foi realizada no Solar Meninos de Luz – organização civil, filantrópica que promove educação integral, cultura, esportes, apoio à profissionalização, cuidados básicos de saúde e de assistência social às famílias com maior nível de desestruturação das comunidades do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo no RJ. www.meninosdeluz.org.br

No ritmo do coração

A professora Cheila Oliveira, baseada no método MUSA, desenvolveu um trabalho rico e intenso sobre as emoções, propiciando aos alunos do Solar Meninos de Luz uma experimentação corporal através de músicas em oficinas teatrais.

O método MUSA foi desenvolvido pelo grego Sotiris Karamesinis, é um sistema de atuação autônomo e holístico, fundamentado na antropologia teatral e na pesquisa do trabalho do ator. É um método psicofísico, de treinamento, preparação e composição de partitura de interpretação, que utiliza-se da energia propulsora da música, possibilitando novas experiências tanto no campo da atuação como na pesquisa das emoções.

Durante as aulas de teatro, utilizando a música como recurso de acesso as mais variadas emoções, é possível mostrar aos alunos a infinita gama que existe dentro de cada um de nós. Através dos jogos teatrais desperta-se as emoções, as quais as crianças identificam e registram.

Visando envolver toda a comunidade escolar e familiares foram espalhados pela escola e seu entorno os “potes das emoções”, onde todos puderam deixar anonimamente seus depoimentos sobre o que lhes causa: alegria, medo, tristeza, raiva, nojo, amor e calma.

Dentre os depoimentos foi possível vislumbrar com clareza situações que afetam os alunos. Como:

O QUE TE CAUSA TRISTEZA:

“Não ter mãe e pai”

“Quando a mãe me deixa sozinho em casa.”

“Quando quebram meus óculos.

O QUE TE CAUSA RAIVA:

“Fome”

“Quando alguém bate”

“Quando não me deixam brincar junto.”

O QUE TE CAUSA CALMA:

“Ficar no colo da minha mãe.”

“Quando meus pais não brigam”.

“Brincar na areia da praia.”

Com base nos depoimentos foi possível abrir uma frente de diálogo, desenvolver aulas mais significativas acessando as emoções mais sinceras dos alunos.

A união das músicas com os depoimentos nas vivências teatrais possibilitou o desabrochar de sentimentos das crianças, que assim puderam aprender diversas formas de lidar com eles.

Pesquisas indicam que a partir do momento em que o aluno aprende a lidar com as emoções poderá controlar sua ansiedade e seus medos para ter um melhor rendimento escolar.

Professora Cheila, idealizadora do projeto, em suas aulas trabalhou também com músicas e exercícios que trazem a calma, que desenvolvem o controle da ansiedade, da insegurança e do medo, auxiliando alunos em dias que antecedem provas e em momentos conturbados na comunidade onde vivem.

O material ficou tão rico em informações e tão bem aceito e explorado nas aulas de teatro que foi preciso fotografar.

As fotografias entusiasmaram tanto que tal registro resultou em uma outra experiência: uma exposição na galeria de Arte do Solar. Com isso, além de valorizar o trabalho em curso, outras pessoas tiveram a chance de autorreflexão e autoanálise de seus sentimentos, de sua vida, das questões que lhe afligem e que marcaram suas infâncias.

Os depoimentos dos “potes das emoções” ainda foram debatidos e estudados pelo corpo docente, composto por Cheila Oliveira, Jorran Souza e Tauã de Lorena, contribuindo para criação do espetáculo de final do ano, denominado No ritmo do coração, o qual foi escrito por Maria Augusta Montera.

Se as emoções tivessem vida própria e controlassem totalmente as ações das pessoas, como o mundo estaria atualmente? Durante o espetáculo os alunos/atores aproximam as emoções dos ritmos nacionais e das danças e como eles influenciam na evolução do mundo, assim como dizem os deuses e as deusas da mitologia grega. Professora Cheila enfatiza: “Vamos descobrir que o nosso comportamento tem raízes profundas em terras desconhecidas e que, se quisermos melhorar as coisas por aqui, vamos ter que começar de dentro para fora e ter muita coragem!”

Quando identificamos, conhecemos e sabemos lidar com nosso mundo interior, estruturamos o melhor caminho para a realização das atividades as quais nos propomos realizar. Assim, realizou Cheila no Solar e você também pode criar e realizar.

Qual sua experiência transformadora?

 

Paty Fonte – Consultora e conferencista educacional. Especialista em Educação Infantil e Pedagogia de Projetos. Escritora – autora do livro: Competências Socioemocionais na escola – recém publicado pela WAK Editora. Idealizadora e diretora do site Projetos Pedagógicos Dinâmicos. www.ppd.net.br

 

 

Cheila Oliveira – Bacharelada em Teatro, Pós Graduada em Metodologia do Ensino das Artes. Integrante Co – fundadora da MUSA Cia. Teatral. Professora de Teatro da metodologia MUSA no Solar Meninos de Luz, desde 2015, a partir de 2018 assume a Coordenação do projeto na Escola. A parceria desse trabalho em 2017 resultou no documentário grego “HAPPY PRINCES“, já premiado como melhor filme documentário em vários Festivais na Europa.

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