Considerações sobre a música na Educação Infantil

Alguns aspectos da Educação Infantil precisam ser considerados, como, por exemplo, seus objetivos que, a nosso ver, devem estar vinculados às condições adequadas para promover o bem estar da criança, seu desenvolvimento físico, emocional, intelectual, moral e social, a ampliação de suas experiências e estimular o interesse da criança pelo processo de conhecimento do ser humano, da natureza e da sociedade, com vistas ao pleno desenvolvimento de sua autonomia enquanto cidadão do mundo.

Acreditamos que na Educação Infantil, as dimensões do educar e do cuidar sejam aspectos indissociáveis. Neste sentido, os profissionais que nela atuam devem estar atentos  e ocupados em oferecer um ambiente rico em experiências que atendam às necessidades, respeitem às particularidades que envolvem as diferentes pessoas, favoreçam a autoestima, estimulem a reflexão sobre o mundo e promovam situações que contribuam para formação da identidade, pois somente assim, estarão, de fato, participando do processo de construção da autonomia da criança.

O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998) sugere que para que os objetivos sejam alcançados,  as atividades devem ser oferecidas para as crianças por meio das brincadeiras e das situações pedagógicas orientadas.

Educar significa, portanto, propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros, em uma atitude de aceitação, respeito e confiança, e o acesso pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural (BRASIL, 1998, p. 23).

Para tal, o currículo da educação infantil foi dividido em três grande áreas, de modo a contemplar o desenvolvimento pessoal e social, a ampliação do universo cultural que ao mesmo tempo em que transcende engloba os interesses momentâneos e as convenções de cada grupo social, e as diversas áreas de desenvolvimento: linguagem oral, linguagem escrita, matemática, artes visuais, música e conhecimento de mundo.

Considerando que a Educação Infantil deve priorizar o desenvolvimento global da criança por meio do trabalho interdisciplinar, apoiada nas atividades lúdicas e no jogo, a música inserida nesse contexto se apresenta como um instrumento de educação dos sentidos e dos sentimentos, condições prioritárias para a aquisição de conhecimentos.

A criança vivencia a música ouvindo, percebendo,  explorando, expressando e participando, por meio do seu corpo, do movimento,  da dança; do jogo e dos brinquedos; da exploração e da experimentação; da improvisação, da criação e da execução; do canto individual e do canto em conjunto . (Victorio, 2015, p.18)

Sendo assim, estabelece-se o pressuposto de que na Educação Infantil, a música deve estar fundamentada na experimentação sonora, no jogo e no lúdico, modelo natural de crescimento, tendo o corpo como referência para todas as relações musicais e pessoais que se estabelecerão a partir do contato intuitivo com os elementos musicais. Não deve haver, portanto, preocupação alguma com a sistematização dos conteúdos teóricos musicais.

Com esse entendimento, apresentamos os três eixos que devem nortear a música na educação infantil:

Sendo assim, os aspectos relevantes para o ensino de música na educação infantil considerando-se os três eixos acima descritos devem ser: participação ativa, uso da voz e do corpo, conscientização do ambiente sonoro, ênfase na criatividade e valorização da própria cultura.

Tais aspectos fundamentam-se em teóricos como: Piaget, Vygotisky e Wallon que, por sua vez, percebemos contidos nas metodologias em educação musical de Dalcrozze, Sá Pereira, Liddy Mignone, Orff, Willems, Shaffer, Swanwick e Gainza.

Em relação aos três teóricos da educação apresentados: Piaget, Vygotisky e Wallon, cada um a seu modo, contribuem para o entendimento de como ocorre o desenvolvimento infantil, levando-nos a concluir que, embora exista uma tendência inata ao desenvolvimento, a criança necessita dos vínculos sociais e afetivos para diferenciar-se e que as interações, mediadas pelo corpo, são essenciais, bem como a aquisição da representação simbólica, ou seja, da linguagem.

As metodologias musicais apresentadas pelos teóricos em educação musical: Dalcrozze, Sá Pereira, Liddy Mignone, Orff, Willems, Shaffer, Swanwick e Gainza, convergem para a ideia da experimentação ativa antecedendo ou mesmo concomitante ao  conhecimento teórico, destacando as relações de afeto, tal qual os teóricos que se debruçaram sobre questões da aprendizagem e do seu desenvolvimento.

Desse modo e considerando-se os três eixos anteriormente destacados: experimentar, ouvir/escutar e expressar/comunicar, reforçamos que as atividades pedagógico-musicais  deverão privilegiar as atividades ativo-intuitivas e as atividades sócio-afetivas.

Por que, para que a criança se abasteça da riqueza sonora e expanda sua   curiosidade para outros domínios cognitivos, para que se perceba autora de sua própria sonoridade  mantendo-se em plena atividade criativa e prossiga inventando novos sons e, desse modo, aprenda a viver reinventando sua própria vida e ajudando a compor uma harmoniosa sinfonia mundial, é necessário que a música se faça presente em todos os momentos e setores da humanidade.

Referências

VICTORIO, Marcia. Um Jardim Musical – A Música na Educação Infantil Pré-Escolar. Rio de Janeiro: WAK editora, 2015.


Márcia Victório – doutora em ciências da educação, mestre em música, psicóloga e arteterapeuta junguiana. Palestrante, conferencista e facilitadora de oficinas de música e de arteterapia em eventos nacionais e internacionais. Professora de Educação Musical no Colégio Pedro II – Unidade Tijuca I desde 1993. Ex-professora do curso de pós-graduação em arteterapia na Clínica POMAR/ISEPE. Há mais de 20 anos atuando na clínica arteterapeutica. Autora do livro ‘Impressões Sonoras – música em arteterapia’ (WAK editora, 2008) e do livro ‘O Bê-a-bá do Dó-ré-mi – Reflexões e Práticas sobre a educação musical em escolas de ensino básica’ (WAK editora, 2011). Membro fundador da Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro e membro do Conselho de Honra da União Brasileira de Arteterapia.

Contato: marciavictorio@ig.com.br

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