Como trabalhar com teatro na Educação Infantil

Teatro na EIA criança é autoexpressiva por natureza e o teatro na Educação Infantil deve ser espontâneo. Um dos principais objetivos é que os alunos possam criar, usando a imaginação.

Inicialmente confecciono, junto com os alunos, uma caixa onde são guardados chapéus, arcos, perucas, luvas, máscaras, pulseiras, bolsas, óculos, roupas diversas e tudo mais que possa ser usado nas aulas.

O primeiro momento é livre, onde eles exploram o que tem na caixa, experimentando roupas e acessórios para compor os figurinos. Essa parte dura em média 15 minutos. Conforme eles definem o que usarão, sentam-se, aguardando os colegas.

Quando a maioria está pronta ou o tempo está se esgotando, é lembrado aos demais para concluírem essa etapa. A caixa com o que sobrou é guardada e, de acordo com o combinado, não se pode pegar mais nada. Se algo incomodar ou não for mais necessário, deve ser deixado num canto. Essa medida evita troca de roupas durante o jogo, interrompendo o grupo.

Cada criança conta para os colegas e para a professora “quem é”: nome do seu personagem, o que gosta de fazer e tudo o mais que achar importante. Observa-se que as crianças menores criam os personagens enquanto as maiores criam toda uma situação envolvendo o personagem e as relações que mantêm com os outros, combinadas anteriormente, como a menina de cinco anos que ao responder quem era, disse: “Eu sou a borboletinha que fica atrás da Branca de Neve, da fada, de todas as meninas. Eu cuido da Branca de Neve.”

Após todos se pronunciarem, conto uma história em que aparecem os personagens citados, em diferentes situações, enquanto as crianças dramatizam. Tudo pode ser tema para a história: desenhos feitos pelas crianças, lendas brasileiras, situações vividas na escola ou relatadas pelo grupo.

Em vários momentos elas próprias dão sugestões sobre o que querem fazer. As falas surgem espontaneamente, sendo, em alguns momentos, estimuladas com frases como: “Conte para eles o que aconteceu”; “O que está escrito no mapa?”; “Convide o seu amigo para ir ao castelo com você”; “Diga a todos o que tem para o jantar”.

Ninguém é obrigado a fazer ou falar nada que não queira, podendo a criança participar, sem necessidade de diálogo. Em alguns momentos surgem, por parte do grupo, muitas ideias ao mesmo tempo e é preciso administrá-las de modo que possam ser aproveitadas e haja um entendimento geral. O professor deve aceitar as sugestões dadas e dar outras.

Ao perceber que a história caminha pela iniciativa dos próprios alunos, o professor pode parar de contar e deixar que as coisas se arranjem por si só.

Como não existe público, a formação dos grupos varia, dependendo no número de alunos e dos interesses deles, podendo todos se envolverem na resolução de um problema ou se dividirem naturalmente, cada um com seu interesse específico. Nessa idade nem todos aceitam se submeter à ideia dos colegas, querendo que as suas prevaleçam. Numa situação assim o professor pode deixá-los se dividirem naturalmente e, mais tarde, sugerir momentos em que todos possam estar novamente juntos, criando situações de integração dos sub-grupos.

É comum que as crianças nessa faixa etária comecem como um personagem e de repente se transformem em outro, quando isso ocorre, eles costumam avisar. Outro ponto notado é que eles combinam entre si o que vai acontecer ou as mudanças ocorridas. Como foi observado um menino de cinco anos avisando: “Eu sou o avô de vocês.” Enquanto seu colega de seis anos completava: “Avô, venha cá.”

A história pode seguir caminhos diferentes e é preciso flexibilidade e criatividade por parte do professor, já que o final vai sendo construído à medida em que ela se desenrola.

Numa das aulas foi observado que os personagens criados pelas crianças eram: médica de animais, fada, porco, ovelha, leão, ninja e vendedor de gravatas. A menina que era a médica de animais tornou-se uma líder natural, levando-os por um caminho em que tinham que passar por cavernas onde deviam se abaixar, andar por um chão escorregadio, caminhos longos, entre outros.

As crianças a seguiam e era comum ouvir ordens como: “esquerda”, “direita”, apesar do caminho continuar o mesmo, em círculos em volta da sala. Num desses momentos, os personagens caíram num buraco imaginário e a médica de animais usou a alça de sua bolsa como corda para que eles pudessem subir. Ao jogar a “corda” para a fada, ela se corrige, dizendo: “Ah, a fada não precisa, ela sabe voar.”

Após a saída da fada, enquanto os outros personagens estavam sendo salvos, observou-se que a mesma voava pelo ambiente, como a aguardar a saída de todos. Em outra situação a médica de animais disse: “A doutora esqueceu a bolsa dela.” Referindo-se a si mesma na terceira pessoa. Isso aconteceu porque ao mesmo tempo em que era o personagem, ela contava a história.

Teatro na EIA aula deve finalizar de forma calma, de modo que todos voltem a se organizar e a se concentrar para a avaliação. Caso o grupo queira envolver o professor na brincadeira, vale a pena participar, tomando cuidado para não cortar a espontaneidade e nem se apropriar de uma brincadeira que é deles.

O momento de avaliação é importante para que se perceba o que eles gostaram, o que sentiram falta, se querem continuar com o mesmo tema na semana seguinte e até sistematizar valores que apareceram, como a ajuda ao próximo, por exemplo. Pode-se ainda desencadear outras discussões como: Podemos ser felizes para sempre?; Será que a madrasta não podia ficar boa?; E se a princesa não quisesse se casar com o príncipe? Conseguindo, assim, com que a criança pense e elabore essas e outras questões, sem aceitar tudo o que lhe é dado como pronto pela sociedade.


Alessandra Mourão

Educadora, Graduada em Pedagogia, Pós Graduada em Artes Cênicas, palestrante, atriz, contadora de histórias.

Contatos no blog: http://www.criandartes.blogspot.com/

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