Autoavaliação discente

É evidente a falta de autonomia dos alunos e a dificuldade na identificação e correção dos seus erros. Nesse sentido, a autoavaliação pode ser um instrumento crucial, o qual proporciona uma reflexão a respeito do próprio desempenho.

Conversamos sobre o tema com Jonathan Aguiar – Doutorando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação pela UFRJ. Mestre em Educação. Psicopedagogo. Pedagogo. Pesquisador científico do Laboratório de Pesquisa, Estudos e Apoio à Participação e à Diversidade em Educação (LaPEADE) e Membro do Observatório Internacional de Inclusão, Interculturalidade e Inovação Pedagógica (OIIIIPe).

Confira as dicas de Jonathan para que possa auxiliar seus alunos de forma efetiva no processo de autoavaliação.

Qual a importância da autoavaliação?

Quando se pergunta: “qual a importância da autoavaliação?” A primeira ideia que perpassa a mente humana é a de reflexão – parar para pensar sobre uma determina situação e atribuições que podem ser elencadas a tal momento, proposta, dinâmica ou ação. Às vezes mencionamos palavras como “bom”, “ruim”, “péssimo” e até mesmo sinalizamos por meio de desenhos, gestos e atitudes o que aprendemos ou o que somos. Reconheço que ao responder sobre a importância, inicialmente fiz o exercício de trazer modos de como processos autoavaliativos podem acontecer.

Ao partir dessa ideia quero dizer que autoavaliação está imersa em uma ação complexa, subjetiva, para além do controle de bons e maus resultados e não se resume a um ato isolado, a uma única sondagem como também ao domínio de técnicas instrumentais avaliativas sem uma autoanálise. Em outras palavras autoavaliar significa analisar, refletir, criticar, sugerir, propor, inventar, criar, observar, narrar a maneira como se aprende, o que aprende e aquilo que deseja aprender e desenvolver-se. É uma harmonia e um exercício contínuo, diário e dinâmico, tanto que estamos nos autoavaliando a todo o momento, e, professores, estudantes e familiares contribuem para essa ação.

O que o professor deve saber ao aplicar uma autoavaliação? Há crenças relacionadas ao trabalho docente/participação dos alunos/objetivos de uma avaliação que precisam ser ressignificadas?

Mais do que aplicar uma autoavaliação o professor precisa ter clareza de sua finalidade e o porquê utiliza dessa estratégia pedagógica. Isso me leva a crer que o educador precisa ter consciência do motivo que o levou a tal realização. Pressupõe, desse modo, a ruptura de práticas, discursos e propostas automáticas de avaliar só por avaliar.

Sobre os aspectos das crenças e o valor de uma prática autoavaliativa, dialogo com as ideias do francês Célestin Freinet, em que uma das suas propostas de modernização da escola, têm como base os valores do bom-senso, tornando esse espaço educativo um ambiente de respeito pela individualidade, cujas propostas são discutidas em cooperação de ambas as partes.

Em suas inúmeras ações práticas para se pensar o ensino e a aprendizagem Freinet destaca a “autoavaliação”, conhecida como fichas que eram preenchidas pelos alunos para relatarem a própria aprendizagem. O educador afirma que professores e alunos devem se autoavaliar constantemente. Cito as ideias de Freinet com o propósito de dizer: “não inventei a roda” e existe toda uma crença preestabelecida e defendida na construção de uma prática pedagógica que assegura a individualidade e a participação de cada sujeito em seu percurso escolar.

As ressignificações, as releituras são importantíssimas para acolher as demandas de cada turma, de cada sujeito e também compreender o que precisa ser alcançado na aprendizagem e desenvolvimento humano.

Quais perguntas devem ser feita ao aluno?

Depende da faixa etária, segmento da educação básica ou espaço de educação infantil. As perguntas devem estar ajustadas conforme a fase do desenvolvimento e entendimento do indivíduo. A construção das questões reflexivas devem ser objetivas e claras, de fácil compreensão.

De que forma ela pode ser aplicada: oral ou escrita? Há diferenças?

A autoavaliação pode caminhar com as múltiplas linguagens. A linguagem oral e escrita configura-se duas possibilidades, mas é interessante quando professores abrem espaço para a expressão artística com o uso (e criação) de desenhos, músicas, sons, movimentos, gestos, jogos, brincadeiras, dinâmicas em grupo e entre outros aspectos.

É importante ampliar a discussão e pensar na autoavaliação também como uma maneira de se preocupar com práticas pedagógicas mais inclusivas, com olhares que respeitam as dimensões cognitivas, físicas, psicomotoras, afetivas e sociais de cada sujeito.

Se meu desejo é o envolvimento de todos, isso requer a criação de estratégias que convidam a interação, onde cada indivíduo se insere e participa de uma proposta autoavaliativa.
De acordo com a estratégia escolhida, haverá maneiras diferenciadas para estabelecer a comunicação entre os participantes, se for um jogo explique as regras. Se você prefere uma ficha escrita para as crianças maiores, deixe claro o porquê daquela pergunta, isto é válido conforme a escolha e as decisões que os professores pretendem traçar.

Em quais momentos do processo de ensino ela deve ocorrer? Ao longo do mesmo ou ao final? Há diferenças?

Por se referir à questão do ensino cada professor pode fazer suas escolhas pedagógicas e, é necessário que este assuma e defenda a sua autonomia enquanto docente. Se esta autoavaliação acontecerá no início ou no fim, o mais importante é o processo, é no processo que descobrimos as riquezas, as fragilidades, as aproximações e os distanciamentos. Fica aí uma reflexão.

É necessário ter uma conversa para apresentar a autoavaliação aos alunos?

Sempre! As crianças pequenas, os alunos maiores são protagonistas dessa ação, logo a conversa é ponto de partida. A proposta não deve ser pensada ‘para’ os alunos, mas ‘com” os alunos. O desafio é envolvê-los! Nesse sentido, a conversa é o primeiro passo.
É indicado atribuir notas à autoavaliação?

Será que autoavaliar é somente atribuir notas, classificações e estabelecer rancking? O professor até pode mensurar resultados quantitativos, mas esta prática se torna acolhedora quando o mesmo não atrela a posturas pedagógicas punitivas. Se desejo que a criança pense, reflita e aja diante desse percurso, fica uma questão: será que atribuindo notas ou qualquer outro valor elas serão verdadeiras? Como entenderam o valor da autoavaliação? Obter somente notas?

O que é a autoavaliação colaborativa? Quais seus diferenciais?

Autoavaliação colaborativa, cada sujeito se retrata, traz a lembrança, reflete sobre suas ações e atitudes ao longo do processo de ensino e aprendizagem. Colaborativa por ter a participação tanto do professor como do aluno. O professor busca semelhanças para que todo o grupo de alunos avance para garantir a aprendizagem de todos, independente de suas especificidades.
Autoavaliar é refletir, é agir, é avaliar, é compreender que cada um tem seu tempo, é interagir e demonstrar afetos, pois o ser humano é múltiplo e único em suas relações. Fazer junto o que não é possível enxergar sozinho.

Como aplicar a autoavaliação na prática?

Use a sua imaginação, use emotions, movimente-se, faça perguntas, permita se sentar no chão. Invente, recrie outras possibilidades para além do uso da folha de um papel e um lápis na mão.

 


Jonathan Aguiar é autor do livro “Educação Lúdico e Favela: quantos tiros são necessários para aprendizagem?
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Para manter contato com o autor:
E-mail: escritorjonathan@gmail.com
Instagram: @jonathanaguiaroficial

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