Ateliê de arte na escola

Um ateliê, ou atelier, é um lugar onde trabalham artesãos ou artistas; pessoas que se dedicam à criação artística.

No Brasil, na maioria das escolas, as aulas de artes são ministradas pela professora de classe, sem um espaço especial para desenvolver as tarefas por ela propostas. Não raras vezes, nos murais de exposição, vemos expostas obras realizadas pelas crianças, fazendo releituras de obras de artistas, interpretando obras específicas, mas criando pouco. Nas exposições, vemos, por exemplo, repetições dos Girassóis, de Van Gogh, ou de obras de Tarsila do Amaral, tantas vezes quantos forem os alunos da classe. Todas usando tons parecidos, tentando reproduzir a obra original. Será que essa forma de trabalho, tão difundida nas escolas e, principalmente, nas de Educação Infantil, é de fato uma forma de trabalhar a sensibilidade necessária para a expressão artística? Propõe a observação, a contemplação, a experimentação?

As escolas que fundamentam sua ação educativa e pedagógica na obra de Célestin Freinet utilizam-se de aulas práticas em ateliês, como dança, música, teatro, artes plásticas, origami e outras. Freinet acreditava que, a partir de uma aula-passeio, por exemplo, era possível existirem diferentes formas de relato, de pesquisa e de expressão.
Nas escolas da Reggio Emília, esse pensamento relacionado à expressão artística das crianças revela uma forma autêntica de trabalhar este binômio criança/arte.

Vimos que arte é fruto de uma capacidade sensível de captar o momento, de senti-lo, de emocionar-se com ele e, por isso, expressar-se. Então, precisamos de aulas de artes muito mais complexas, para além das releituras ou das aprendizagens de técnicas.

Conhecer a obra de Tarsila do Amaral, por exemplo, vivenciar uma exposição, quando isso é possível, manuseá-la em livros de Arte ou catálogos de exposições; conhecê-la em um vídeo, saber da vida dela por meio de histórias que a professora pode contar, em pequenas sessões de contação de histórias. Isso tudo pode fazer com que as crianças mergulhem num universo específico, colorido, com predomínio de determinadas cores e formas; percebam um estilo; conheçam o momento em que eles foram produzidos. Porém e principalmente, pode fazer com que identifiquem o que sentem ao adentrar esse universo, o que lhes emociona… Assim, podem manipular materiais semelhantes ao que a artista utilizou e, então, criar, produzir a sua forma de expressar-se sem, necessariamente, tentar reler uma obra.

Parece-nos mais autêntico lidar com a arte como as crianças italianas fazem desde muito cedo; algumas, ainda engatinhando. Apreciamos lá um trabalho que nasceu de uma exposição denominada Murchidas, de uma artista plástica que expôs, na cidade, esculturas com panos enrugados, dando formas arredondadas, que ficavam penduradas, lembrando partes do corpo humano. Sua intenção era fazer pensar sobre as coisas murchas, enrugadas pelo tempo…

O Instituto Malaguzzi, responsável pela documentação da metodologia utilizada no sistema de ensino de Reggio Emilia, levou parte dessa exposição para suas dependências, promoveu uma exposição para que as crianças da Educação Infantil pudessem visitá-la. Ao final da exposição, à espera das crianças… um ateliê! Mesas baixas, juntas, formando uma longa mesa; sobre elas, cestas pequenas. Algumas, contendo frutas em vários momentos de decomposição até a sua versão murcha, seca. Em outras, sementes, folhas em vários estágios do verde até sua forma outonal, avermelhada. No início do caminho delineado pela mesa, no chão, havia uma grande cesta, com panos de diferentes texturas. No final da grande pequena mesa, uma mesa um pouco mais alta, perpendicular à anterior, onde se encontravam papéis de várias texturas, de diferentes cores e materiais para a execução, tais como: lápis pretos, brancos, coloridos, colas, tesouras e outros.

Nesse caso, o ateliê propunha uma autoria a respeito de coisas murchas, inspiradas nas obras da exposição pela qual passearam e puderam observar, perguntar, tocar, admirar…

A proximidade da arte não visa à reprodução, mas ao exercício da sensibilidade e da expressão.

A partir de experiências como essas, na Itália e em outros países, resolveu-se desenvolver projetos de escolas de Educação Infantil nas quais exista um espaço especial para o desenvolvimento da expressão artística e um profissional artista para desenvolver esse trabalho. A esse profissional deu-se o nome de “atelierista”, responsável por desenvolver, no corpo docente, um olhar diferente para a arte na escola.

Sabemos que estamos no Brasil e que aqui é diferente de lá e de qualquer outro país, mas sabemos também que podemos nos inspirar nessas vivências para modificarmos a nossa.

Para que as crianças possam experimentar, um ateliê deve ser um espaço no qual existem muitos materiais. Embora oferecendo muitas possibilidades, um ateliê deve ser organizado e oferecer condições de trabalho às crianças: mesas de sua altura, espaço no chão, armários organizadores com coleções de materiais ao alcance das crianças, além do que for necessário em determinada escola, cidade e cultura. Em algumas escolas, também existem retroprojetor, computador, multimídia, máquina fotográfica e outros instrumentos que auxiliam no desenvolvimento artístico e de várias linguagens expressivas.

Ao contar nossas histórias e refletir sobre elas juntos, encontramos linhas comuns. […] reconhecemos a importância da beleza e ordem na vida das crianças – e em nossas vidas. O belo nos inspira a manter a ordem. O belo nos inspira a arranjar e rearranjar os materiais e espaços. O belo nos inspira a aperfeiçoar nossas ideias e nossos ambientes. O belo nos inspira a olhar as coisas mais de perto.

Os ateliês são espaços de aprendizagem inspiradores para todos nós. Também reconhecemos que, à medida que trabalhávamos para efetuar mudanças em nossos diversos ambientes, também éramos transformados como indivíduos e como grupo. […] É a história de aprender a ouvir e desafiar uns aos outros, de respeitar o trabalho uns dos outros e de estar disposto a aprender juntos; finalmente, é a história de “ser e pertencer” (GALARDINI; GIOVANI apud BAKER et al., in GANDINI et al., p. 150).

No livro Bambini Arte Artisti (REGGIO, 2003), podemos ver crianças de dois anos explorando a cor preta e a cor branca em diversos materiais. Deixam marcas nos materiais, como amassados, rasgos, enrolados, e o atelierista, ou o professor, registra com fotos, com desenhos, acomoda as produções das crianças em bases e, com a produção de mais de uma criança, propõe composições que ficam muito belas. Juntamente com isso, registra as falas das crianças, suas perguntas, seus diálogos. No momento de expor, muitas vezes, essas falas são expostas, acompanhando a obra de arte que resultou da experiência. Em outro grupo, o experimento é diferente: luzes e plásticos de diversas espessuras e texturas. Muitas possibilidades, movimentos, riscos efêmeros que, com o movimento da fonte de luz, deixam-se existir; registros de diversas formas e o surgimento da poesia.

O papel do professor de Educação Infantil, nesse sentido, não é ensinar, e sim preparar o ambiente, os materiais, registrar o que observa e pensar novas possibilidades de linguagem expressiva, a fim de oferecer novas possibilidades de experimentação aos alunos.

Na escola em que trabalhamos, apesar de existir um predomínio da releitura nas artes plásticas, em diversas classes, já podemos ver a existência de outras linguagens, as quais permitem a invenção de máquinas, a instalação de algumas invenções, a construção de móbiles e outras produções que expressam as ideias e os sentimentos das crianças.

Toda escola poderia encontrar um espaço que esteja pouco explorado e possa transformar-se em um ateliê; aí, nesse espaço, pode-se iniciar um trabalho de equipe e de criação do corpo docente da Educação Infantil. Então, com a orientação de um artista ou atelierista, terá potencial para se tornar uma fábrica de pessoas observadoras, sensíveis ao seu contexto, expressivas e criativas.


Laura Monte Serrat Barbosa é pedagoga, especialista em Psicologia Escolar e da Aprendizagem, formada em Psicopedagogia e Teoria e Técnica de Grupos Operativos, Mestre em Educação. É autora de diversos livros e artigos na área de Educação, Psicopedagogia e Coordenação de Grupos de Aprendizagem e atua como psicopedagoga no âmbito da clínica – Síntese – Centro de Estudos da Aprendizagem,  em Curitiba (PR), além de professora em cursos de Psicopedagogia em várias instituições e palestrante.
Heloísa Monte Serrat Barbosa é licenciada em Educação Física, especialista em Psicopedagogia e em Psicomotricidade Relacional, formada em Teoria e Técnica de Grupos Operativos e Aperfeiçoamento em Observação de Grupos de Aprendizagem – Síntese – Centro de Estudos da Aprendizagem, Curitiba (PR). É mestranda em Psicologia Social Comunitária e autora de artigos na área de Psicopedagogia. Atua como psicopedagoga e psicomotricista relacional (em clínica particular); como psicomotricista relacional na Educação Infantil (Escola Terra Firme, em Curitiba) e como coordenadora de equipes profissionais (na área empresarial, em Curitiba).

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