Alfabetizar na Educação Infantil

Não há dúvidas que é essencial que as crianças da educação infantil tenham contato com o mundo da escrita, mas essas práticas de leitura e de escrita devem ter significado e considerar suas necessidades e interesses.

O espaço da escrita deve estar ao lado das outras linguagens (plástica, corporal, musical, de faz de conta) em que meninos e meninas podem se expressar e de se desenvolver, conforme destaca o educador italiano Malaguzzi (1999).

O importante é criar um ambiente de aprendizagem rico e estimulante: práticas que ofereçam contato com material escrito pertinente, funcional, prazeroso; com diversos portadores e suportes, gêneros, funções e objetivos da escrita e da leitura.

As atividades de leitura de textos na sala de aula é uma prática comum entre as educadoras infantis, pois, promovem a ampliação do repertório textual das crianças e ampliam suas experiências de letramento. Estimulam sua participação em diferentes práticas de uso social da escrita, bem como a interação com “diferentes portadores de leitura e de escrita, com as diferentes funções que a leitura e a escrita desempenham na nossa vida” (Soares, 200, p. 44).

A produção de textos espontâneos é uma prática muito usual na educação infantil, e através dela o professor e o aluno podem avaliar o progresso na escrita, em todas as suas formas e usos (Cagliari, 1998a, p. 241-286).

Não há necessidade de a escola impor ou não a aprendizagem da escrita, mas isso não significa acelerar ou estimular precocemente tal aprendizagem. De acordo com Ferreiro (2001, p. 146), “deve-se permitir que as crianças aprendam sobre a língua escrita na pré-escola”, mas não levar à prática tradicional do Ensino Fundamental na Educação Infantil, sendo suas características próprias e distintas a cada ciclo.

As ferramentas de análise dos processos de leitura e escrita utilizados por Emília Ferreiro pautam-se nos princípios construtivistas de ação que na prática alfabetizadora podem ser utilizados como referência para os professores/educadores interessados em desenvolver seus alunos de forma ativa a partir de interações com a palavra.

Para o pesquisador Vygotsky (1984), as crianças menores de seis anos eram capazes de descobrir a função simbólica da escrita e começar a ler aos quatro anos e meio. O problema maior não era a idade de ser alfabetizada, mas sim o fato de a escrita ser “ensinada como uma habilidade motora, e não como uma atividade cultural complexa” (p.133). Portanto, fez críticas ao trabalho desenvolvido nas escolas infantis da sua época, incluindo as propostas de Montessori, por desconsiderar que a escrita deveria ter significado para as crianças. Então, para Vygotsky, a escrita precisaria ser ensinada como algo relevante para a vida, pois somente dessa forma ela se desenvolveria não como “hábito de mão e dedos, mas como uma forma nova e complexa de linguagem” (p.133).

Gardner estimula a criação de novos ambientes educacionais adequados ao desenvolvimento das habilidades cognitivas a cada aluno. Ele sugere aos educadores que repensem as práticas avaliativas para contemplar as competências desenvolvidas pelos alunos, abrindo espaço para a utilização de modelos pedagógicos que privilegiam as avaliações processuais e diferenciadas.

A alfabetização na educação infantil pode acontecer, principalmente com as crianças do 2º ciclo, porém é claro que não é obrigatória e deve ser trabalhada de uma forma prazerosa com as crianças, e numa perspectiva sociointeracionista que nos alerta para a importância do papel da escola na inserção das crianças na cultura escrita desde cedo. Pensando assim, a alfabetização passa a ser entendida como um longo processo que começa bem antes do ano escolar em que se espera que a criança seja alfabetizada e consiga ler e escrever pequenos textos. Nas palavras de Ferreiro (1993, p. 39), isso significa que

[…] não é obrigatório da aula de alfabetização na pré-escola, porém é possível das múltiplas oportunidades para ver a professora ler e escrever; para explorar o espaço gráfico e distinguir entre desenho e escrita; para perguntar e ser respondido; para tentar copiar ou construir uma escrita; para manifestar sua curiosidade em compreender essas marcas estranhas que os adultos põem nos mais diversos objetos.

Ensinar a escrita na educação infantil de forma sistemática é possível, incluindo aspectos relativos à apropriação do sistema alfabético de escrita, considerando os objetivos e as atividades no eixo do letramento, assim como as outras necessidades relativas ao desenvolvimento e vivências da infância.


Autoria: Cláudia Maria Ramos Cançado – Professora, Pedagoga e Psicopedagoga

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