A Psicopedagogia está adoecendo as nossas crianças

Precisamos falar sobre isso.

É importante, imperativo, urgente.

Com o aumento do número de cursos de pós-graduação à distância nas áreas de psicopedagogia e neuropsicopedagogia clinicas, muitos profissionais que passam por essa especialização se sentem aptos a avaliar e a diagnosticar alunos, dentro das instituições particulares de ensino, utilizando protocolos que, há muito pouco tempo, eram exclusivos da psicologia.

Havemos de lembrar que NÃO EXISTE A PROFISSÃO DE PSICOPEDAGOGO ainda, o trâmite nas instâncias que reconhecem as profissões está em aprovação.

Legislação (em transição)

  • A regulamentação do exercício da atividade em Psicopedagogia
  • PL 3.124/97 – Deputado Barbosa Neto
  • PL 3512/08 – Deputada Prof. Raquel Teixeira
  • PLC 031/10 – Senador Cyro Miranda
  •  PL 011/05 – Vereador Antonio Goulart
  • Lei 15.719/13 (em vigor no município de São Paulo)
  • CBO 2394-25

Fonte: http://www.abpp.com.br/documentos_referencias_legislacao.html . Acessado em 10 de março de 2019.

 E se houvesse, seria muito grave o fato de uma profissão, para existir, contar com uma formação de APENAS, 360h, com titulação de especialista.

Sejamos coerentes, quem se forma profissional em 360 h à distância?

Por conta disso, muitos profissionais com graduação, também à distância, se especializam em cursos de qualidade duvidosa, e saem com a titulação de ESPECIALISTAS, julgando-se doutores, montando seus consultórios.

Daí o crescente número de diagnósticos de TDAH, dislexia, Transtorno do Processamento Auditivo Central (diagnostico exclusivo do fonoaudiólogo) e, pasmem, atrasos neurológicos específicos para diagnóstico médico.

Essa semana fui abordada por uma mãe angustiada. Sua filha de apenas 7 anos foi sentenciada pela escola como GRANDE CANDIDATA A REPETIR O ANO.

Como uma criança de apenas 7 anos pode ser candidata a repetir de ano?

Estamos no início do primeiro trimestre, mas já foi julgada e sentenciada. Sentença: DEFICIT DE ATENÇÃO.

A mãe, consternada com choro preso na garganta, me pediu uma opinião. Disse que iria observar a criança e dar uma opinião pessoal.

Tive a oportunidade de observar durante 4 horas a pobre portadora de déficit de atenção e não consegui enxergar o tal déficit.

A criança em questão, vamos chamá-la de L.

L ficou durante quase 40 minutos sentada com um livro desses de adesivos, fadas e princesas. Durante esse tempo L. analisou cada imagem, identificou sua localização, classificou e selecionou, minuciosamente os adesivos e onde deveriam ser colados, e o fez, sem errar um milímetro. Nem eu faria melhor.

Vamos aos fatos da realidade acadêmica NO MUNDO: a escola, a academia, o ensino para a competitividade e a falta de uma metodologia interessante com conteúdo atrativo e professores chatos, estão transformando nossas crianças em pequenos seres incapazes e incompetentes em suas construções de saber e conhecimento.

A escola constrói conteúdo. Saindo disso, nada mais é construído.

E, dessa forma, as crianças ficam sem interesse no que lhes é ensinado, e algumas, sim, aquelas que possuem desejo de aprender algo diferente, inusitado e que lhes desafie, ficam entediadas, dispersas em seus mundos, frustradas, deixando os adultos e especialistas sentenciarem seus fracassos.

Quero deixar claro que não sou contra a psicopedagogia e nem contra os psicopedagogos, sou contra a maneira como são formados, instruídos e contra a maneira arrogante como alguns deles se comportam diante de crianças.

De quem é a responsabilidade, afinal?

Nossa, que permitimos que esses profissionais determinem que as crianças estão doentes.

Lembro de uma época, anterior à Revolução Industrial (digo lembro pela História, não que a tenha vivido), onde a construção de saber e de conhecimento era feito por tutores e incluíam desenho, pintura, ciências, idiomas, dança, música, canto, geografia e literatura. Era essa a base do ensino.

Não muito longe o ensino nas escolas públicas tinha como base as disciplinas chamadas de humanas, que moldariam as relações sociais: a literatura e a poesia, a música, o desenho e a pintura, a filosofia e a história. Muitas escolas ofereciam canto coral, onde se priorizava o trabalho em grupo e a disciplina.

Mas os tempos corridos e as necessidades consumistas e competitivas geraram um modelo de ensino pré-fabricado, como o chão da fábrica, onde todos devem aprender da mesma maneira, em seus uniformes iguais e comportamentos assertivos previamente estabelecidos.

Não há lugar para a individualidade e as habilidades pessoais. Não há espaço para os devaneios pueris e os desejos de sermos astronautas, poetas, professores.

Há a pressa, o ser melhor, o número um.

Assim, a formação dos novos profissionais de psicopedagogia não tem ensinado o que é básico no desenvolvimento humano: as habilidades.

Palavras como peculiar, singelo, singular não tem espaço no dicionário daqueles que necessitam encontrar problemas onde não os há.

Há mais crianças doentes por tédio e por falta de interesse do que propriamente por falta de atenção.

Há mais crianças deprimidas e infelizes por frustração e por falta de incentivo e desafio do que propriamente por hiperatividade e transtorno opositor.

É preciso que a neuropsicopedagogia e a psicopedagogia reaprendam a olhar as crianças além dos bancos escolares, além dos livros acadêmicos, além das notas e provas.

É preciso conhecer seus desejos e interesses e procurar desenvolver o conceito de ser sujeito diferente, único, peculiar e singular neste mundo de todos iguais.

Nem todos serão astronautas.

Nem todos serão poetas.

Alguns serão médicos.

Outros agricultores.

Outros cabeleireiros.

E não há nada de errado nisso, porque o mundo precisa da diversidade.

Porque precisamos que cada um seja aquilo que deseja e sonha.

Precisamos de mais crianças, crianças.

É preciso reaprender que a construção de saber e conhecimento se faz através da construção de afetos, de relações saudáveis com o objeto do aprender, de estímulo ao comportamento bisbilhoteiro e da construção de subjetividade que nos faz únicos e, ao mesmo tempo, diversos.

Nenhuma criança se tornará um adulto criativo num ensino fadado a encontrar doenças e não habilidades.

É preciso reaprender a sermos humanos.

Espero que L. continue a sonhar e a priorizar seus interesses… pelo bem do que nos resta de humanidade.

 


Sonia Branco – Fonoaudióloga há 37 anos, Arteterapeuta Junguiana há 15 anos, Especialista em Arteterapia em Educação e Saúde, Especialista em Ensino das Artes, Escritora, Artista Plástica, Ministra Cursos de Formação Continuada e Extensão para Educadores, é Professora Avaliadora do Grupo Kroton, Palestrante, Contadora de Histórias e Palhaça.

6 comentários em “A Psicopedagogia está adoecendo as nossas crianças

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    Amei o texto!!!! Vou compartilhar com outros professores!

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    Nossa, estou maravilhada! É isso mesmo! Esses dias, comentei com alguns amigos sobre o medo dessa nova modinha chamada “autismo “. Todo, todo, todo o meu respeito aos autistas e, até por esse respeito, ando temerosa com o que ouço de alguns colegas da área. Parece um diagnóstico à moda SUS, ” se não é virose, é autismo “.
    Obrigada pelo texto leve e preciso!
    Posso compartilhar com sua fonte? Um abraço, Claudia Souza.

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      Cláudia Souza
      Fique a vontade. Receba as críticas negativas como um aprendizado, e acolha as que vierem, por que virão.
      Paz!

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    Bem se vê que esta senhora não conhece o trabalho realizado pelos profissionais psicopedagogos. Sugiro que se informe melhor a respeito do assunto, pois o que esta adoecendo nossas crianças é a negligência decorrente da ignorância da profissão alheia.

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      Regina Maria.
      Essa senhora tem uma longa caminhada profissional, inclusive na formação de psicopedagogos. Tenho grandes amigos na área, mas tenho visto muitos profissionais de diversas áreas com formação precária, à distância, sem supervisão, sem estágio, se julgando doutores em uma profissão que ainda está na luta para se reconhecer.
      Há grandes profissionais, mas há grandes equívocos.
      Esse é um artigo de opinião, está aberto à discordância e que bom que discordamos, pois é a discussão saudável que leva à melhoria e aí aperfeiçoamento.
      Não leve tão a certo e fogo. Há 40 anos atrás a fonoaudiologia errou muito. Ainda erra. Ainda comete grandes disparates em nome de egos, mas, falando por mim, me permito correção, me permito reconhecer exageros e erros em prol do aperfeiçoamento e do crescimento.
      Daqui há 40 anos a psicopedagogia estará como a fonoaudiologia, em agonia em prol das novas especialidades. Seja melhor do que a crítica.
      Paz!

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