A hora do jogo e a representação do mundo interno do sujeito

Este artigo tem como propósito discutir alguns aspectos fundamentais na estruturação do processo psicopedagógico tendo em vista a construção do conhecimento e do saber por parte do sujeito através do uso de brinquedos e jogos. Bem como a importância do lúdico no desenvolvimento do trabalho psicopedagógico clínico, por meio da modalidade do brincar em que se constitui uma ferramenta para o diagnóstico psicopedagógico. Aprofundando, assim, os conhecimentos sobre a ludicidade na hora do jogo e a sua contribuição no tratamento psicopedagógico. Visando à forma como a criança aprende: assimilando, acomodando e o equilíbrio/desequilíbrio nessa relação.

A atividade lúdica fornece ao psicopedagogo subsídios sobre os esquemas que organizam e integram o conhecimento num nível representativo. Por isso, “no diagnóstico do problema de aprendizagem na infância, a observação do jogo do paciente é considerada de grande interesse”. (Paín, 1985, p.51). Por meio da hora do jogo pode-se analisar a modalidade de aprendizagem do sujeito, de onde também estarão envolvidos aspectos conscientes e inconscientes da relação de aprendizagem.

O brinquedo é um instrumento de significados que tem em sua particularidade o prazer da descoberta e o desvelar de novos sonhos; A hora do jogo é um instrumento de grande valor em um atendimento psicopedagógico, pois propicia suporte, tanto a nível diagnóstico como terapêutico.

Por meio da ação do brincar, a criança estabelece um espaço de experimentação. Nas atividades lúdicas, esta, aprende a lidar com o mundo real, ampliando suas potencialidades, incorporando valores, conceitos e conteúdos. A hora do jogo representa uma importante ferramenta de observação sobre a simbolização e as relações que o sujeito estabelece com o jogo. Permitindo, ao terapeuta, a formulação de hipóteses a serem ratificadas, ou não, posteriormente.

Esse processo encontra-se baseado na psicanálise, mais especificamente nos princípios da associação livre (Freud, 1900).
O desejo de saber faz um par dialético com o desejo de não-saber. O jogo do saber-não saber, conhecer-desconhecer e suas diferentes articulações, circulações e mobilidades, próprias de todo ser humano ou seus particulares nós e travas presentes no sintoma, é o que nós tratamos de decifrar no diagnóstico (Fernandez, 1991: 39).

As brincadeiras como intervenção psicopedagógica, irão auxiliar a formação de processos interiores da criança podendo ser priorizado a forma mais apropriada à situação de aprendizagem e re-significação de vínculos.

Perante o conflito dirigido pelo psicopedagogo através do jogo (simbólico), a criança descobrirá a possibilidade de re-elaborar seus conflitos interiores bem como assimilar limites e regras o que refletirá de modo satisfatório em sua integração social bem como no processo de aprendizagem fazendo com que este indivíduo seja transportado da modalidade estigmatizada – hiper/hipo assimilativa, hiper/hipo acomodativa Andrade (2002) para uma modalidade mais ‘’normal’’, fluitiva. (assimilação e acomodação).

A criança demonstra através de suas brincadeiras, quais são suas fantasias inconscientes de patologia e de cura. Provocando a brincadeira e observado o brincar da criança, o Psicopedagogo poderá atingir o diagnóstico e tratar a criança visto que, o jogo, a brincadeira contribui para um crescimento sadio e uma vida adulta mais satisfatória.

A modalidade do brincar é um indicativo para o diagnóstico psicopedagógico, um denunciador de patologias. Visto que, é sabida a existência de muitos adultos que não puderam elaborar situações traumáticas e dolorosas foram crianças visivelmente normais que não haviam brincado. “O aparecimento e o desaparecimento de um modo de brincar está relacionado à maturação e ao desenvolvimento da criança”. (Bossa, 1994: 15).

Através da formação e utilização das diversas manifestações simbólicas do brincar/jogar como: linguagem, imagem mental, brincadeira simbólica, desenho representativo, imitação de um modelo, a fabulação lúdica, etc., a criança adquire condições de ir percebendo-se como criadora de sua própria história de vida de modo ativo e interativo, tomando consciência das suas ações, passando a aceitar as explicações dos adultos e reestruturando suas hipóteses.

Segundo Freud – o pai da psicanálise – o jogo, a brincadeira, são os melhores representantes psíquicos dos processos interiores da criança. Através da transferência, que revela o tipo de laço social que houve no ambiente familiar da criança, esta revive os principais conteúdos emocionais que a marcaram.

“No jogo se faz próprio o conhecimento que é do outro, construindo o saber, não pode haver construção do saber se não se joga com o conhecimento” (Fernández, apud Bossa, 2000:111).

A brincadeira simbólica é uma ponte entre a realidade e a fantasia, entre o eu e o outro, entre o consciente e o inconsciente, muito próxima do sonho, oferecendo condições à criança de representar situações carregadas de afeto e emoção e de se aproximar de forma mais criativa de conteúdos angustiantes. “Há possibilidade também de viver os medos e as tensões do outro, de intervir papéis e, portanto, de compreender melhor as relações vividas” (Piaget, apud, Oliveira, p. 33 e 34)

De acordo com Aberastury (1992), do ponto de vista afetivo, considera-se que os jogos infantis refletem situações psíquicas estruturantes na constituição do eu.

Quando a criança brinca/joga, apreende, examina e assimila as regras implícitas nos atos sociais experimentando vários papéis e podendo verificar as conseqüências de seus atos. Ela re-elabora e constrói/reconstrói regras de conduta, re-significa os papéis que antes não foram bem elaborados em sua psique e desenvolve valores mais saudáveis que guiarão seu comportamento.

A intervenção é realizada por uma coesão funcional: um ajudador, um ajudado e uma relação que se estabelece, entre ele, instalando-se neles mesmos a união, a harmonia e confiança.

Barbosa (2004) afirma que no processo de ajuda, o ajudador – Visca explicita o psicopedagogo – utiliza-se de recursos de intervenção. Esses recursos são instrumentos verbais ou corporais para que o aprendiz/ ajudado apreenda ou perceba a atribuição ou não de sua ação, provocando no sujeito um desequilíbrio, capaz de mobilizá-lo para a busca do equilíbrio e, por conseguinte, da aprendizagem.

Para Visca, a aprendizagem depende das seguintes estruturas: a cognitiva/afetiva/social. As problemáticas de aprendizagem estão indissociavelmente acopladas a alguns aspectos desses três fatores – sempre compreendidos de maneira interdinâmica.

Visca planejou a caixa de trabalho para se trabalhar com as dificuldades de aprendizagem e, para isso, inspirou-se na caixa individual utilizada pelos terapeutas analista na Psicanálise de crianças. Ela seria composta de brinquedos e materiais escolhidos para representarem o mundo interno das crianças, suas fantasias inconscientes frente ao mundo (BARBOSA, 2000, p. 35). Através dos brinquedos, dos objetos contidos na caixa, as crianças se projetam se mostram tais quais são – seu eu mais profundo.

É desta forma que a criança constrói um espaço de experimentação, de transição entre o mundo interno e o externo. Neste espaço transicional, dá-se a aprendizagem.

A utilização de brinquedos e jogos como materiais pedagógicos, do ponto de vista da psicopedagogia, necessita da percepção do contexto em que se encontram inseridos. Estes instrumentos não são objetos que trazem em seu bojo, um saber pronto e acabado. Contrariamente, eles são objetos que trazem um saber em potencial, que pode ser ou não ativado pelo sujeito.

Fernández (1991) afirma que a hora do jogo psicopedagógica supera a dicotomia testes projetivos/testes de inteligência, e principalmente, ajuda a observar aqueles aspectos que tradicionalmente foram estudados de forma isolada e somente em seus produtos. “A hora do jogo permite observar a dinâmica da aprendizagem”. (p.168). É através do jogo que a criança representa o mundo em que vive e a forma como se relaciona com ele.

A hora do jogo ou caixa lúdica constitui-se, numa caixa de papelão, de cartolina ou plástica, num tamanho suficiente que possibilite guardar todo o material de uso e pequenas construções.

Ainda que simples na aparência possui um rico sentido internamente já que é ali que o sujeito depositará suas construções e elaborações como desenhos, pintura, texto etc. Ela representa “o depositário de conteúdos simbólicos do paciente” (WEISS, 2003, p. 152). A caixa não deverá representar apenas um depósito de materiais e produções, uma vez que representa o mundo interno do aprendiz. O psicopedagogo deverá assegurar a privacidade do sujeito para que este não se sinta invadido e não perca a confiança. Barbosa (2004)

Segundo Weiss, “Os materiais a serem colocados são definidos ao final do diagnóstico quando se planeja o tratamento” (2003, p. 152). Barbosa completa nos dizendo que os materiais são escolhidos previamente de acordo com a leitura que fizemos da criança ou adolescente durante a avaliação psicopedagógica (2002, p. 35). Por meio da qual o psicopedagogo irá observar as ações do paciente para, posteriormente, realizar suas intervenções com a finalidade de promover o seu avanço em relação às dificuldades.

É nessa totalidade de múltiplas interações que a hora do jogo é utilizada no diagnóstico psicopedagógico, pois faz com que as crianças e adolescentes exponham aspectos que não aparecem em situações mais formais do diagnóstico. O material a ser utilizado em tal atividade deve ser muito bem selecionado de acordo com os objetivos específicos do trabalho, da idade das crianças, do tempo disponível e, é importante estar atento para que esse material funcione como um atrativo pelo seu possível uso (colorir, escrever, modelar, construir, pregar, colar, prender, juntar), tendo em vista a construção do conhecimento e do saber por parte da criança.

Segundo Sara Paín (1985), para que esta atividade lúdica seja um canal de aprendizagem, deverá evidenciar três momentos: o inventário, a organização e a integração.

Visca, afirma que no mundo interno de um aprendiz há conhecimentos já dominados, medos de conhecer o novo, medos da crítica, facilidades para se apropriar de determinados conhecimentos, dificuldades frente a outros, medos de perder os conhecimentos já dominados, sensibilidades e insensibilidades etc. Assim, Os objetos a serem depositados na caixa de trabalho serão objetos que representarão estes aspectos do seu mundo interno ou que receberão projeções para que passem a representá-los.
A caixa deverá ser única porque ela representa uma importância significativa para o sujeito, já que contém objetos que foram escolhidos para ele, os quais pretendem promover “… a superação ou a minimização das dificuldades de aprendizagem” (BARBOSA, 2002, p. 36).

Considerações Finais:

Através do trabalho psicopedagógico o sujeito encontrará a possibilidade de reorganizar suas funções psíquicas no contato de confiança constituído com o profissional de psicopedagogia . O jogo é uma atividade criativa e também curativa visto que, permite ao indivíduo reviver as situações dolorosas vivenciadas, modificando essas situações de sofrimento e projetando no brincar suas expectativas da realidade servindo assim, de importante mecanismo terapêutico.

Os profissionais da psicopedagogia que tem como foco o processo de aprendizagem podem acrescentar ainda a essa análise, as modalidades de aprendizagens, ritmo, as áreas de expressão da conduta, o funcionamento cognitivo, os tipos e modos de erros, os hábitos adquiridos, as motivações presentes, as ansiedades, defesas e conflitos em relação ao aprender, além das relações vinculares com os objetos de conhecimento escolar em particular.

Portanto, a hora psicopedagógica do jogo colabora de modo significativo para a compreensão dos processos cognitivos, afetivo-emocionais, sociais e sua relação do sujeito com a aprendizagem

A hora do jogo é um importante instrumento de análise e levantamento de dados no diagnóstico. Através da mesma é possível observar a dinâmica da aprendizagem, compreender os processos cognitivos, modelos de aprendizagem e as relações vinculares, sendo ainda uma ferramenta de intervenção capaz de desenvolver a percepção, ação, integração, interação, e a autonomia do sujeito.

Através do lúdico o indivíduo alcança a aprendizagem significativa, desenvolve o cognitivo, o afetivo, o social e emotivo

É nesse contexto que se pode afirmar que jogar e aprender caminham interligados na psicopedagogia e, posssibilita, através da hora lúdica ou hora do jogo, observar prazeres, frustrações, desejos, por fim, podemos trabalhar com o erro e articular a construção do conhecimento.

Visca afirma que:

Cada caixa de trabalho é única, não apenas porque será usada por um único paciente (individual ou grupal), mas também no sentido de que não há caixas duas iguais, da mesma maneira que não existem dois indivíduos ou dois diagnósticos iguais (1987, p. 29).
Para Barbosa ela é “um continente, no qual a criança poderá depositar seus conteúdos de saber e de não saber” (2002, p. 35).
Deste modo, fica evidente o seu valor para ajudar o sujeito a reconstruir seu espaço transacional e ressignificar seu sintoma.

Referências:

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Marjorie Calumby Gomes de Almeida.
Psicopedagoga clínica e institucional.
Porto Alegre –  RS.

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