A Formação do Leitor

“A leitura contribui, de forma decisiva, para preencher esta lacuna na formação do ser humano. Ela desenvolve a reflexão e o espírito crítico. É fonte inesgotável de assuntos para melhor compreender a si e ao mundo. Propicia o crescimento interior. Leva-nos a viver as mais diferentes emoções. Possibilitando a formação de parâmetros individuais para medir e codificar nossos próprios sentimentos” (CAGNETI, Suely de Souza. ZOTZ, Werner. Livro que te quero te ver livre . 1986. p 23 )

Todos sabemos que é urgente promover, de maneira radical, a leitura e a escrita junto às crianças, na qual a literatura deveria ocupar um lugar mais destacado.

Como arte, a literatura é o ponto de partida privilegiado para a formação de leitores. Suas potencialidades provocadoras do pensamento são inesgotáveis. Por meio dela, a ficção se integra com a realidade, pois sua matéria-prima é a experiência, a observação, a reflexão e o sonho. Ao unir realidade e fantasia, o livro de literatura abarca todos os temas da vida, mobilizando o interesse de qualquer pessoa, em qualquer idade. Não há instrumento mais completo para levar à reflexão, à crítica e à criação do que a literatura.

Todavia, vivemos, atualmente, numa sociedade altamente tecnológica, onde impera o prático, o imediatismo e toda espécie de informação parece nos atingir de maneira superficial e distorcida, propiciando a proliferação de toda espécie de modismos e preconceitos, o que, evidentemente, terá influencias diretas na leitura.

O conforto e a comodidade proporcionados pelos novos avanços tecnológicos acabaram por gerar um certo comodismo nas novas gerações. A Internet, a mídia falada ou televisada, enfim, os confortos da tecnologia moderna, o barulho exterior, bem como a agitação da vida moderna, nos desconcentram, tirando-nos muito o prazer que deveríamos ter pela leitura – prazer este que é uma permanente construção.

Não dispondo de muito tempo para pensar e, praticamente, agindo por reflexo aos estímulos externos, o homem contemporâneo, alfabetizado e intensamente massificado, dedica-se, proporcionalmente, cada vez menos à leitura do que aquele homem, aculturado e intelectualizado, do início do século passado. E a reversão desse hábito não é um processo fácil, tampouco de curto prazo.

Além do mais, tal conjugação de fatores – que caracteriza o ambiente no qual estamos circunstancialmente inseridos -, este nosso atual contexto de racionalismo exagerado parece não permitir um desenvolvimento adequado do lado afetivo, enfim, de toda e qualquer espécie de sensações, sentimento, enfim, um desenvolvimento emocional integral adequado. E ninguém pode negar que tais fatores são importantes para a aquisição do hábito de ler, ou melhor, mais do que isso, do verdadeiro e espontâneo prazer de ler.

A literatura para crianças e jovens, por meio do texto escrito e da ilustração, expressa o desafio do autor para criar uma narrativa que trave com o leitor um diálogo atraente, lúdico e inteligente e ao mesmo tempo aborde questões de interesse particular e geral, introduzindo o jovem leitor de maneira positiva no mundo da escrita.

Ao alimentar o imaginário, um bom livro leva a criança, o jovem e o professor a perguntar e a procurar respostas desenvolvendo, como nenhum outro instrumento, as capacidades de observar, analisar, refletir, criticar e criar, com senso de humor e liberdade.

Como prática social e cultural, o ato de promover a leitura e a escrita pede a mediação de outra pessoa que leia e escreva habitualmente. Só um leitor forma outro leitor.

A primeira questão a ser colocada quando se discute educação e literatura é a questão da paixão. A relação entre autor e texto é uma relação de paixão em seu sentido mais amplo: de amor e de ódio. Isso explica Osman Lins, quando diz que “escrever é uma danação” ou Clarice Lispector, quando coloca que “escrever é uma maldição que salva”. Mas essa relação de paixão não se restringe à relação entre o autor e seu texto, é preciso que ela se alastre, chegando ao leitor, ou o texto – independente de sua natureza – não cumpre o seu destino. O entendimento dessa questão leva, fatalmente, à associação entre a paixão de ler e a formação do leitor, um dos temas mais debatidos nas últimas décadas, em todos os círculos, das escolas à academia. A pergunta, então, passa a ser Quem forma o leitor?

A família diz que a responsabilidade de formação do leitor é toda da escola, a escola, por sua vez, diz que a criança deve trazer o hábito e o gosto pela leitura de casa.

Antes de assumirmos esse círculo vicioso e sem saída, é preciso que nos perguntemos: como é que forma a família, se a família, cada vez mais empobrecida, não lê? Como é que forma a escola, se o ensino tecnicista das últimas décadas optou pela compartimentação das disciplinas tirando, com isso, dos alunos, a visão do todo, a capacidade crítica, a capacidade de relação e a capacidade de expressão?

A maioria dos profissionais que se formou nas quatro últimas décadas passou por escolas de Magistério que privilegiaram o ensino conteudista em detrimento de uma formação humanista que favorecesse a crítica e a criação. A escola, por muito tempo, esteve afastada do convívio com um entorno cultural variado – no qual a literatura tem papel determinante -, essencial para formação do ser humano. A escola brasileira e as próprias bibliotecas, em muitos casos, não foram alimentadas com a variedade e a riqueza do conhecimento humano artístico e científico produzido no Brasil e no mundo e que está nos livros. A maioria dos cursos de Formação de Professores não desenvolveu, com a atenção e o aprofundamento que a profissão exige, as capacidades de leitura e de escrita desses professores, privando os alunos do direito a uma formação cultural consistente, sobretudo no campo da literatura.

Entretanto, não se pode esquecer, até por uma questão de justiça, as tentativas e esforços da escola, sobretudo a partir da década de 80. A grosso modo, até os anos 70, a literatura destinada ao público infanto-juvenil padecia de um excessivo pedagogismo, servindo à educação como porta-voz de idéias, de lições de moralidade, exaltação da vida patriótica e apologia da vida rural. Lembremos que é a época do regime totalitário. Na década de 80, essa literatura muda o conteúdo, embora não tenha muita preocupação em renovar a forma, e entra na escola através de programas, como o vitorioso Projeto Autor Presente, do Instituto Estadual do Livro, no Rio Grande do Sul. Na década de 90, ainda em busca do leitor, ela apresenta uma dupla identidade: ou textos comprometidos com a originalidade total ou, um pouco mais liberta do pedagogismo, lança mão de formas consagradas. Os anos 2000 não são diferentes, com uma tendência maior para o comprometimento total com o leitor e a renovação.

O professor tem em suas mãos a tarefa de propor ao aluno situações de aprendizagens para (re) construção do conhecimento. A literatura infantil é um instrumento que contribui para elaboração destas situações. Sendo assim, é importante que ele tenha conhecimentos sobre este elemento tão importante e também saiba como utilizá-lo de forma que se preserve a função real da literatura.

O trabalho com a literatura infantil, como Regina Zilberman coloca,

“…desemboca num exercício de hermenêutica, uma vez que é mister da relevância ao processo de compreensão, pois é esta que complementa a recepção, na medida em que não apenas evidencia a captação de um sentido, mas as relações que existem entre a significação e a situação atual e histórica do leitor.” ( ZILBERMAN, Regina. A Literatura Infantil na Escola.. São Paulo: Global. p. 25 )

Assim convém ao professor estabelecer critérios para a seleção do livro a ser trabalhado em sala de aula. Ele deve estar atento à escolha do texto e sua adequação ao leitor considerando sua qualidade estética e não veiculando ela apenas ao ensino de regras gramaticais ou normas de obediência. As crianças necessitam ler bons textos para compreenderem a literatura como um meio de pensar a realidade e não de apenas vê-la como algo imutável, com regras a serem obedecidas. E, além disso, enxergar estes textos com um elemento que não traz o ensino da língua como um único fim.

Sendo assim, além da qualidade estética, deve-se considerar o aspecto inovador da obra, assinalando aquilo que vivemos, mas desconhecemos. É relevante analisarmos o enredo, os personagens, os valores impressos, porém notar como diz Regina Zilberman “é esta coincidência entre o mundo representado no texto e o contexto do qual participa seu destinatário que emerge a relação entre a obra e o leitor” . Logo, é necessário escolher um livro que faça nascer uma relação entre ele e a criança, que dificilmente será rompida com o passar do tempo.

Contudo estes critérios não são uma maneira de estar trabalhando determinados gêneros literários, e sim de dar abertura à criança para se envolver com aqueles que teriam mais afinidade. Portanto, cabe ao professor oferecer estes diferentes gêneros como os contos de fadas, fábulas, lendas, poemas e outros.

Cada um dos gêneros lingüísticos traz diferentes valores a serem considerados pelo professor. Estes vêm mudando conforme a realidade que se vive, atualmente, correspondendo ao:

a) Espírito solidário, que enxerga o sujeito como parte do todo;

b) Questionamento da autoridade como poder absoluto;

c) Sistema social de transformação, elevando o “ser” sobre o “ter”;

d) Moral da responsabilidade, na qual o sujeito procura agir conscientemente em relação ao outro;

e) Sociedade sexófila, tratando o sexo como algo natural do ser humano;

f) Redescoberta do passado; vendo a origem das relações do ser humano;

g) Evolução contínua da vida, vendo a morte como uma transformação e não um fim;

h) Valorização da intuição fazendo desaparecer os limites entre a realidade e imaginação;

i) Anti-racismo, uma forma de reconhecer as diferenças raciais;

j) A criança é um ser em formação.

É importante lembrar que vários livros trabalham valores inversos a estes, e que é interessante confrontá-los para se perceber a coerência de determinados aspectos com a realidade existencial. E o gênero literário pode ajudar neste trabalho, retratando a essência da função dos textos literários.

Um elemento essencial na formação da criança é a leitura. Ler é o que proporciona, ao longo de nossa existência, as condições para o crescimento do homem. Werner Zotz, em uma entrevista a Sueli Cagnetti coloca que a leitura

“…desenvolve a reflexão e o espírito crítico. É fonte inesgotável de assuntos para melhor compreender a si e ao mundo. Propicia o crescimento interior. Leva-nos a viver as mais diferentes emoções, possibilitando a formação de parâmetros individuais para medir e codificar nossos próprios sentimentos.” ( CAGNETTI, Sueli de Souza. Livro que te quero livre. Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1986, p 23.)

Sendo assim reforçamos a idéia de que a leitura, conforme estes gêneros, deve ser vista, vivida, falada, ouvida, contada.

Trabalhar com a literatura infantil na escola é abrir as cortinas do mundo para uma platéia de seres que buscam a construção do ser como sujeitos de uma sociedade. Cabe ao professor deixá-los sedentos de descobertas. Através da leitura como fruição haverá a reflexão, e por fim a aprendizagem. A literatura infantil fará com que essa aprendizagem sirva para a constituição de sujeitos que simplesmente não pertençam a uma sociedade, porém a questiona e a transforma.

O professor precisa ler para que seus alunos possam ser possuídos pelo texto e assim se apaixonem pela literatura infantil. A escola, representada na sala de aula pela sua pessoa, tem essa responsabilidade: de fazer os alunos se apaixonarem não só pela literatura, mas também pela leitura.

Ao trabalhar projetos que privilegiem a literatura infantil nas escolas, possibilitamos a emancipação do ser pelo saber, rompendo a idéia que deu origem à escola e á literatura: a manipulação deste mesmo ser.

Portanto, devemos esquecer o trabalho com fichamentos, a interpretação com perguntas e respostas, pois estaremos matando o gosto pela leitura.

“ A escolha do livro pelo próprio leitor é, inicialmente, um bom começo para construir uma relação entre ambos. Os fichamentos não são a única forma de avaliar o rendimento do aluno quanto a leitura, que por sua vez deve ser tomada como um conteúdo para trabalhar na escola. Os debates, leitura crítica e comparativa de jornais, dramatização visitas a biblioteca, conversas com o autor do livro, são idéias para trabalhar o livro em sala, desenvolvendo no aluno a capacidade de pensar e crescer. Assim, avaliar o rendimento da leitura é inútil enquanto não temos alunos que encontrem o prazer no ato de ler. Os livros não podem servir de pretexto para uma simples avaliação”. ( CAGNETTI, Sueli de Souza. Livro que te quero livre. Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1986, p. 36-37. )

E para que seja descoberto este prazer podemos usar os contos de fadas, contos maravilhosos, jocosos, acumulativos, as fábulas, os poemas, lendas, mitos, alegorias e até histórias em quadrinhos. Com este repertório, podemos oferecer à criança conhecimentos sobre os diferentes tipos de textos, e escolherá ler aquele que terá mais afinidade, espontaneamente, pois um leitor se forma de diferentes maneiras.

Neste sentido cabe ainda discutir: se tanto precisamos fazer pela construção do leitor considerando a literatura infantil como um caminho a ser usado pela escola, qual deve ser a formação do professor?

Usar a literatura infantil na escola pede que se tenha um professor com os conhecimentos necessários para trabalhar em sala de aula com as crianças. Eles precisam, em sua formação inicial e também continuada, de possibilidades que demonstrem como usar a literatura em função da formação do ser.

“…a introdução da literatura infantil alçada à condição de participante do currículo do ensino universitário”. O professor deve estar repertoriado para poder desenvolver um bom trabalho com a literatura infantil e garantir que a função dela seja efetivada. ” ( ZILBERMAN, Regina. A Literatura Infantil na Escola.. São Paulo: Global. p. 29.)

A literatura infantil na escola possibilita que se faça cumprir o ideário de educação tão comentado na atualidade: a transformação. A escola necessita de elementos que façam cumprir este ideal. Sendo assim, pode contar com a principal função da literatura infantil: refletir sobre a realidade, desmontando-a e remontando-a na busca da formação de opiniões críticas que questionem a situação real em que se vive.

Assim podemos concluir que além de haver um novo caminho a ser seguido pela escola, estará se rompendo a concepção tradicional de educação. O ser humano terá na escola o movimento que contribuirá efetivamente com seu processo de humanização e hominização.

Isso é possível através da íntima relação existente entre a literatura e a leitura. Esta relação é um caminho que ajuda a garantir aspectos importantes para formação do leitor, segundo Zotz:

“O acesso à leitura como direito de todos, como processo contínuo de aprendizagens, como formador de seres pensantes e como lazer” ( CAGNETTI, Sueli de Souza. Livro que te quero livre. Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1986, p. 22-23.)

Os educadores devem estar atentos à diversidade de obras dirigidas ao público infanto juvenil com o intuito de despertar o prazer pela leitura. Uma criança de pré-escola, por exemplo, gosta de histórias bem ilustradas, interativas em que possam dar asas à imaginação. Já os adolescentes preferem livros de suspense, romance, ação. É importante o educador conhecer os diferentes gêneros e gostos para então poder sugerir.

Aliados aos educadores estão os livreiros, que também investem através de seus esforços desenvolver o gosto pela leitura. Uma boa leitura deve levar o leitor a refletir, buscando sua emancipação sobre seu pensar e agir. Por isso a importância de se conhecer os diferentes gêneros literários que irão contribuir para a formação desse indivíduo leitor.

BIBLIOGRAFIA:

  • COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: teoria, análise, didática. São Paulo. Moderna, 2000
  • CAGNETTI, Suely de Souza. Livro que te quero livre. Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1986
  • ZILBERMAN, Regina. A Literatura Infantil na Escola . São Paulo: Global, 1985
  • ALVES, Rubem. Por uma educação romântica. Campinas – SP: Papirus, 2002.
  • MIRANDA, Sônia. A Educação Histórica através da Literatura Infantil . Palestra proferida no Centro de Convenções de Ouro Preto, Ouro Preto – MG 23, 34 e 25 abr, 2001.

Paty Fonte (Patricia Lopes da Fonte)

Educadora especialista em pedagogia de projetos, escritora, autora dos livros “Projetos Pedagógicos Dinâmicos: a paixão de educar e o desafio de inovar” e “Pedagogia de Projetos – Ano letivo sem mesmice”, ambos publicados pela editora WAK; autora e tutora de cursos presenciais e on-line de educação continuada a docentes, coach, palestrante.

Idealizadora e diretora dos sites: www.projetospedagogicosdinamicos.com e www.cursosppd.com.br

Contatos: www.patyfonte.com.brwww.facebook.com/pedagogiadeprojetos/

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