6 causas internas de violência em escolas

1 – Dificuldade de criar vínculos e fortalecer sentimentos de conexão e pertencimento.

Quando o vínculo afetivo entre a equipe docente, entre professores e gestores, professores e alunos, professores e famílias, entre a escola e a comunidade é fraco ou inexistente, não há confiança mútua suficiente para que as diferenças sejam expostas, discutidas e negociadas por meio do diálogo. O conflito que não se expressa no diálogo pode tornar-se confronto, com manifestações violentas. Não havendo confiança mútua entre as pessoas, não há como pedir ou oferecer apoio em situações de frustração e transformar conflito em oportunidade de superação. Um traço importante comum às escolas seguras é que elas conseguem romper o isolamento entre professores e entre professores e alunos. Escolas em paz aproximam-se das famílias e das comunidades a que servem. São capazes de dialogar com a comunidade, com todo o seu contexto, que inclui problemas, mas, também, muitas coisas boas, criativas, alegres e positivas.

2 – Desconhecimento, por parte dos educadores, funcionários, alunos, familiares, dos fatores externos e internos que contribuem para rupturas do equilíbrio (violências) na escola. (Ou: conhecimento teórico desses fatores, mas sem aplicá-lo na prática.)

Para que o equilíbrio se mantenha, é essencial criar um ambiente grupal no qual os determinantesexternos e internos da sua ruptura sejam de conhecimento geral, servindo como norte de decisõese ações preventivas e restaurativas.

Um grupo ou uma organização está em equilíbrio quando as necessidades básicas de seus membros – de sentir-se em segurança, com autonomia e competência para enfrentar desafios – estão sendo, pelo menos, satisfatoriamente atendidas, e os conflitos existentes são manejados sem que o diálogo se interrompa. O equilíbrio pode ser rompido por: * Causas externas ao ambiente escolar (violências na cidade, na comunidade, causadas pelos determinantes econômico-sociais e culturais já mencionados), pressão do grupo de amigos, violências expostas insistentemente na mídia, violências da família e de figuras de autoridade). * Causas internas, como relacionamentos hostis na escola ou dentro da classe, provocando dolorosas sensações de incompetência, impotência e humilhação. O equilíbrio rompido pode ser traduzido como frustração de necessidades e desejos das pessoas envolvidas.

Não necessariamente esse desequilíbrio inicial provocará reações de violência. A frustração, se reconhecida, pode tornar-se fator de aprendizagem e crescimento. Aqui entra a mediação essencial de educadores, lideranças, facilitadores, que podem ajudar as pessoas da escola – crianças, jovens e adultos – a aprender não só a tolerar a frustração, mas a transformá-la na experimentação de algo novo, em ações criativas de resistência. Mesmo quando a frustração é muito grande ou muito grave, ela pode ser positiva se existe o que chamamos de resiliência, isto é, “a capacidade humana para enfrentar, vencer e ser fortalecido ou transformado por situações de adversidade” (Grotberg, 2006, p. 15).

A frustração das necessidades das pessoas, se não é devidamente trabalhada por elas próprias ou por quem pode lhes oferecer apoio, em vez de gerar criatividade, produzirá insegurança. Quando se sente insegura, por ter sido ameaçada ou frustrada em suas necessidades de pertencimento/respeito, competência ouautonomia, a pessoa poderá ter sua agressividade despertada. A agressividade, como o conflito, é neutra .Se houver apoio e ela for devidamente canalizada – por exemplo, em atividades esportivas, culturais, artísticas, de mobilização comunitária oferecidas pela escola ou outras instituições, poderá resultar em vitórias e autossuperação. No entanto, se nada for feito para transformar agressividade em ação produtiva, essa energia das pessoas pode virar agressão, expressando-se por meio das mais diferentes manifestações de violência: contra si própria, contra os outros, contra a escola, de forma direta (depredação, roubos…) ou indireta (faltas, “sabotagem” de ações e propostas…), e contra a sociedade em geral.

3 – Falta de normas de convivência que tenham sido coletivamente definidas e acordadas, o que favoreceria relacionamentos amigáveis entre todos.

Uma das condições para que os vínculos entre as pessoas da escola se consolidem é chegar a acordos coletivos sobre Normas de Convivência que favoreçam relacionamentos amigáveis. As interações positivas tecem conexões interpessoais que produzem sentimentos de segurança e de aceitação – fatores determinantes para que os conflitos possam ser manejados com habilidade, no contexto do diálogo constante, sem margem para que manifestações de violência ocorram.

No livro A natureza do preconceito, Allport (1954) diz que as pessoas tendem a relacionar-se de maneira amigável ou hostil. Allport explica a passagem de uma relação amigável a uma relação hostil tendo como base sentimentos de simpatia ou antipatia. Se nada é feito a respeito da antipatia entre duas pessoas, a antipatia abre espaço para o preconceito. Se ninguém se coloca firmemente contra o preconceito, o caminho está livre para a discriminação. E, se a discriminação é tolerada, começam a surgir fenômenos como a criação de bodes expiatórios e atitudes racistas, sexistas e fascistas.

Promover relações amigáveis entre todos os membros da escola exige que uma postura clara e firme seja tomada em relação às formas hostis de relacionamento, de violência psicológica, física e/ou sexual, ao mesmo tempo que se incentivam as atitudes e os gestos de civilidade, respeito, tolerância/valorização das diferenças e cooperação. Para tornar-se uma política da escola como um todo, Normas de Convivência precisam ser apresentadas, amplamente discutidas e aprovadas em votação da qual participem todos os membros da comunidade – professores, funcionários, alunos e familiares. Esse processo é fundamental para que o Código de Conduta seja aceito. Ele deve ser implementado criteriosamente e anualmente avaliado e aperfeiçoado por todos os envolvidos.

4 – Desconhecimento ou domínio insuficiente de competências e habilidades necessárias para dialogar e comunicar-se de forma transparente, o que permitiria administrar conflitos de forma produtiva.

Se a comunicação entre as pessoas da escola está contaminada, será impossível criar vínculos positivos – condição essencial para que necessidades mútuas de pertencimento, autonomia e competência sejam atendidas e para que o equilíbrio se mantenha na escola. A comunicação contamina-se quando não é transparente e direta nem visa ampliar a compreensão mútua, mas, em vez disso, transporta acusações, julgamentos, conselhos, sermões. Você já passou por situações assim? Se sim, então sabe que a incapacidade de dialogar,escutando o outro e procurando sinceramente perceber quais são suas necessidades por meio de perguntas e da observação de sua linguagem não verbal, faz os conflitos que poderiam ser superados por acordos se transformarem em confrontos.

5 – Falta ou insuficiência de canais que permitam e estimulem a participação.

Você já reparou que toda participação começa pela escuta do outro? Se os professores não são escutados pela direção, se os alunos não são escutados pelos professores, se as famílias e os membros da comunidade não têm voz na escola, não há como estabelecer vínculos. O diálogo se traduz em participação, em corresponsabilização, em poder compartilhado. Alunos que não são estimulados a atuar como sujeitos de sua própria aprendizagem, professores aos quais não se oferecem oportunidades de realmente participar nas decisões sobre o projeto político-pedagógico da escola, membros das famílias e comunidades que não são escutados nem convidados a agir como protagonistas, todas essas pessoas são potenciais agentes de mudança que não podem se sentir conectadas à escola. Suas necessidades básicas de se sentirem competentes e autônomas não estão sendo atendidas. É quando o equilíbrio se rompe.

6 – Abordagem curricular descontextualizada e fragmentada, com matérias que não fazem sentido para os alunos.

É difícil para uma criança, um adolescente ou um jovem sentir-se conectado à escola se não vê sentido nela, se não aprende e se é obrigado a realizar tarefas que não têm nada a ver com seus interesses e aspirações. A falta de relevância do currículo, dividido em disciplinas que não se comunicam entre si e com estratégias metodológicas pautadas pela passividade dos estudantes, não lhe permite ganhar autonomia e compreender a realidade em que vive. Ensinar para a compreensão da complexidade e de sua própria humanidade (Morin, 2000) é uma forma de gerar prazer, alegria: um grande antídoto para todas as formas de violência. Currículo desconectado da vida faz a frustração dos alunos, em especial adolescentes e jovens, passar dos limites. A insegurança e a agressão podem seguir-se. De novo, o equilíbrio será rompido.


FONTE: Conflitos na escola: modos de transformar: dicas para refletir e exemplos de como lidar / Claudia Ceccon … [ et al.]; apresentação Rubem Alves; ilustrações ClaudiusCeccon. – São Paulo: CECIP : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.208 p.: il.

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